Com alta de 1,0% do PIB, economistas pedem cautela sobre futuro

economia
02.06.2017, 07:34:00
Atualizado: 02.06.2017, 07:36:16

Com alta de 1,0% do PIB, economistas pedem cautela sobre futuro

Segundo economistas, o ritmo da recuperação ainda é incerto, sobretudo com a crise política desencadeada com as recentes delações da JBS

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Apesar das comemorações do governo em relação ao resultado do PIB, economistas ponderam que o resultado deve ser analisado com cautela. Segundo eles, o ritmo da recuperação ainda é incerto, sobretudo com a crise política desencadeada com as recentes delações da JBS.

Para a economista Monica de Bolle, do Instituto Peterson de Economia Internacional, o resultado foi muito influenciado pelo recorde de produção na agropecuária. “O restante ainda está todo no vermelho”, observa. 

“É preciso olhar os indicadores como um todo, para ver se a economia está saudável e reagindo”, afirma a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria Integrada. 

Ela explica que a saída da recessão depende de uma recuperação consistente da atividade econômica, que não esteja calcada em apenas um setor, como agronegócio. “Temos, de fato, uma diminuição do ritmo de queda, uma melhora relativa em curso, mas o PIB do próximo trimestre ainda deve ser negativo”, avalia. “Considerando a queda de inflação e de juros, essa recuperação deve ficar mais evidente apenas no segundo semestre”, disse. 

O economista Roberto Troster aponta também que a avaliação depende da base de comparação. “Se você medir o trimestre com trimestre anterior, o PIB é positivo. Porém, se medir com o mesmo período do ano passado, ainda está negativo”, observa. 

Na comparação do primeiro trimestre deste ano com os primeiros três meses de 2016, houve queda de 0,4%.

Economia cresce pela primeira vez, após oito quedas consecutivas

Após dois anos registrando oito quedas trimestrais consecutivas, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil voltou a crescer. A alta foi de 1,0% no primeiro trimestre em relação ao último de 2016, de acordo com dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a maior alta trimestral desde o segundo trimestre de 2013, quando a soma das riquezas produzidas no Brasil cresceu 2,3% em relação ao primeiro trimestre de 2013. 

Na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, porém, a economia brasileira continuou encolhendo, dessa vez pelo 12º trimestre seguido. Ainda assim, a queda de 0,4% em relação ao primeiro trimestre de 2016 foi a menor desde o quarto trimestre de 2014, quando o recuo foi de 0,3% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

(Imagem: Gráficos Correio)

Campo pujante 

A alta de 13,4% no PIB da agropecuária no primeiro trimestre ante o quarto de 2016 é a maior nessa base de comparação desde o quarto trimestre de 1996, quando a alta foi de 23,8%, conforme o IBGE.  

A variação nula no PIB de serviços foi a primeira desde o quarto trimestre de 2014, quebrando uma sequência de oito trimestres negativos. Nessa mesma base de comparação, a alta de 0,9% no PIB da indústria a maior desde o segundo trimestre de 2013, quando  foi de 3,4% ante o primeiro trimestre daquele ano. 

Já a alta de 4,8% nas exportações do primeiro trimestre 2016 foi a maior desde os primeiros três meses de 2015, quando a alta foi de 6,0%.

Em queda 

A indústria de construção caiu 6,3% no primeiro trimestre do ano, comparado a igual período do ano anterior, revelou o IBGE. Em relação ao quarto trimestre de 2016, no entanto, o setor apresentou alta de 0,5%. O IBGE informou ainda que a indústria de transformação registrou queda de 1%, comparado ao primeiro trimestre de 2016 e alta de 0,9% ante o trimestre imediatamente anterior.  

Já a indústria extrativa mineral avançou 9,7% no primeiro trimestre, comparado a igual período de 2016 e cresceu 1,7%, em relação ao quarto trimestre.  A produção e a distribuição de eletricidade, gás e água cresceram 4,4% e 3,3% na comparação com os primeiros três meses de 2016.

Patamar de 2010

A despeito do crescimento da atividade econômica no primeiro trimestre,  o PIB brasileiro ainda está no patamar do ano de 2010, contou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE. “Deu uma recuperação em relação ao trimestre anterior. Antes do crescimento, o PIB estava no patamar do início de 2010, agora está no patamar do fim de 2010”, explicou Rebeca.

Para ela, é preciso “esperar para ver o que vai acontecer neste ano ainda” antes de afirmar que a recessão ficou para trás. “Tivemos um crescimento no primeiro trimestre, até expressivo, só que contra uma base reduzida. Tivemos oito trimestres seguidos de queda. Então vamos ver o que virá aí para a frente”, afirmou.

Governo comemora

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, comemorou o fim da recessão, mas não descarta a possibilidade de que a economia volte a mostrar alguma fraqueza no segundo trimestre. Ele reafirmou a previsão de que a economia brasileira crescerá 0,5% no ano de 2017 e terminará o quarto trimestre com ritmo de expansão de 2,7% na comparação ante igual período de 2016. 

“Sim, a recessão acabou. Não há duvida”, disse. O ministro da Fazenda notou, porém, que quando um país “retoma o crescimento não é uma linha reta”. Meirelles explicou que em momentos de volta ao crescimento ou início de recessão é comum que trimestres seguidos mostrem comportamento não linear. Ou seja, há comportamento com uma tendência em um trimestre e outro movimento no período seguinte.  Meirelles reafirmou, porém, que a expectativa é de crescimento para o conjunto do ano.

 “O que nós esperamos é que, durante o decorrer do ano, continue a crescer e chegaremos ao final do ano com ritmo de crescimento sólido de cerca de 3% ao ano”. 

O ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, atribuiu o crescimento ao “conjunto de ações de política econômica que tem sido implementado nos últimos 12  meses”. Em nota, ele destacou o avanço das reformas econômicas no Congresso Nacional. “Esse PIB se soma a outros números positivos que demonstram que a recuperação econômica está em curso”, disse.

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