Com distinção, índio pataxó recebe título de mestre em química pela Ufba

salvador
04.05.2019, 07:15:00
Hemerson Pataxó foi o primeiro estudante indígena a tornar-se mestre em um curso de Exatas pela Ufba (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Com distinção, índio pataxó recebe título de mestre em química pela Ufba

Ele é o primeiro estudante indígena a conquistar o título em um curso de Ciências Exatas

De cocar, colar e de rosto pintado. Foi assim que Hemerson Pataxó, 25, se preparou para se tornar, nessa sexta-feira (3), o primeiro estudante indígena a conquistar o título de mestre pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) em um curso das Ciências Exatas.

Nas palavras da dedicatória, que, emocionado, o novo mestre em química orgânica não conseguiu ler para sua plateia, a referência ao seu povo: os Pataxó Hã Hã Hãe: “Agradeço à minha família pelo incentivo, apoio e por sempre acreditar no sucesso de minhas escolhas e ao meu povo por lutar e resistir para que possamos escrever histórias como essa”.

Quando solicitado por um dos professores que avaliavam seu trabalho, Hemerson não conseguiu terminar a leitura do curto agradecimento. Ao lembrar da origem que carregava não só no sangue, mas nos símbolos que usava, as lágrimas e a emoção tomaram conta do pesquisador. Depois de quase duas horas de perguntas dos avaliadores, e já com o título garantido, Hemerson esclareceu seus motivos.

“É muito forte para mim falar disso, me emociona. Mas sempre agradeço ao meu povo porque eu sou eles. Eu estou aqui, mas eu estou lá também. E eles estão aqui comigo”, contou.

A aldeia onde vive a tribo de Hemerson fica há nove horas de ônibus da capital. Para chegar até os Pataxó Hã Hã Hãe, é preciso ir de Salvador a Itabuna, de lá até Pau Brasil, o município mais próximo do povoado, e ainda percorrer um terceiro trecho até chegar ao povo pataxó. Hemerson saiu de lá com apenas 18 anos, quando foi aprovado no vestibular de química na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Todo o estudo de ensino médio foi feito ainda na aldeia, e é este um dos motivos que levaram o estudante a escolher portar os símbolos da sua cultura ao defender sua tese de mestrado.

Hemerson Pataxó, 25 anos, na defesa da dissertação nessa sexta (Foto: Arisson Marinho)

“O cocar simboliza proteção, o colar vermelho e preto, tem essas cores que são muito fortes na cultura indígena. A pintura também. Ao mesmo tempo que significa a gratidão pelo meu povo, simboliza também o guerreiro, a resistência por estar aqui, ocupando esse espaço”, explica ele.

Para Hemerson, a permanência na universidade sempre foi uma questão presente. “É muito difícil para os indígenas permanecerem aqui, tanto pelo aspecto financeiro, quanto pela questão da base que muitos não têm. Tem coisa que você não conhece, que você vai aprendendo à medida em que elas vão se apresentando para você e é preciso aprender para continuar”.

O choque de culturas, inclusive, foi algo que marcou bastante o início da trajetória acadêmica do mestre em química. “No meu povo existem condições sociais diferentes, mas todo mundo tem o seu cantinho. Quando cheguei na cidade e vi um morador de rua foi um susto”, contou, ao ilustrar as diferenças.

Outra característica comum que o estudante teve que lidar durante toda a caminhada foi a generalização feita por aqueles que não eram índios. “No começo, todo mundo me chamava de índio, mas eu tenho um nome, eu sou Hemerson. Aos poucos eles foram entendendo que nem todo inidio anda nu, que nem toda casa é de barro. A minha comunidade mesmo tem mais várias décadas de contato com a população não indígena. Tem índio lá que dirige, tem celular”, contou.

Durante o programa de pós-graduação, as origens indígenas foram apenas um detalhe para a equipe que conviveu com o pesquisador. Durante dois anos, ele estudou o café da Chapada Diamantina, seu tema. “Já tínhamos trocado alguns e-mails, mas foi só na nossa primeira conversa presencial que ele chegou com um dos braços pintados e eu percebi que ele era indígena. Isso não mudou nada, ele é muito competente, metódico até, e fez um trabalho que merece o resultado que vimos hoje aqui”, conta a professora Elisangela Fabiana Boffo, doutora em química orgânica, professora da Ufba e orientadora do trabalho. A professora foi uma das responsáveis por conceder a Hemerson o título de mestre com distinção.

Nos próximos passos, o agora mestre pretende unir ciência com o conhecimento milenar do seu povo. “Quero levar o conhecimento que a química me deu para o meu povo, juntar com o que sabem os meus anciãos e escrever algo que leve em conta os dois lados”, explica.

Na universidade
Presente na plateia, acompanhando toda a defesa do trabalho do químico, Taquairi Pataxó, 35, uma das lideranças indígenas, comemorou a conquista “É muito bom ver ele chegar até aqui. A formação universitária indígena é muito tardia. Nossa presença na Ufba, por exemplo, só começou quando a universidade implantou as ações afirmativas que nos apoiam, então é muito bom vê-los chegando até aqui”, falou o índio, que também faz parte da comunidade universitária e está nos últimos semestres do curso de Direito.

As políticas e ações afirmativas que garantem a presença de indígenas na universidade, com a reserva de uma porcentagem das vagas, por exemplo, foram implementadas pela Ufba em 2005. De lá para cá, a presença cresceu. Hoje, segundo números estimados por Taquari, são quase 150 indígenas frequentando diversos cursos de graduação atualmente. Além deles, outros seis representantes entre mestres e mestrandos, um doutor e uma doutoranda.

A doutoranda é Amari Pataxó, 39, que percorreu todo o caminho acadêmico como uma desbravadora. Ela e a irmã foram as primeiras duas indígenas que ingressaram na Ufba, ainda em 2005 com a implementação das ações. Do curso de letras, Amari passou para o mestrado em estudos étnicos, defendido na Ufba em 2012, e hoje está no doutorado em antropologia social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“No começo as dificuldades eram imensas, principalmente para permanecer. É muito bom poder perceber como crescemos, como parentes continuam ocupando esse espaço que a gente lutou para conquistar. É uma grande vitória”, comemora.

Assim como Hemerson, Amari resolveu levar seu conhecimento de volta para suas origens e hoje desenvolve um trabalho na própria aldeia voltado para a língua pataxó. “Há muito tempo atrás nossos guerreiros lutavam com flechas, hoje a nossa luta é com a caneta”, finaliza Amari.

*Com supervisão de Jorge Gauthier
 


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