Conexões Negras: "O racismo religioso é um problema causado pela teologia branca", diz ativista

salvador
20.11.2020, 23:39:00
Atualizado: 20.11.2020, 23:39:08
(Reprodução)

Conexões Negras: "O racismo religioso é um problema causado pela teologia branca", diz ativista

Idealizador do perfil @afrocrente, Jackson Augusto falou sobre racismo religioso nas igrejas evangélicas

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Ativista, integrante do Movimento Negro Evangélico (MNE) e criador de conteúdo digital que já coleciona mais de 12 mil seguidores no Instagram, Jackson Augusto foi o convidado do Conexões Negras, do CORREIO, nesta sexta-feira (20). Na conversa com a colunista Midiã Noelle, ele falou sobre a ideia de produzir conteúdo para pretos evangélicos, sobre o racismo religioso dentro das igrejas evangélicas, a teologia branca e os problemas para desconstruir dogmas racistas em uma religião que é, em maioria, liderada por pessoas brancas. 

Evangélico e ativo nas ações desenvolvidas pelo MNE que tentam ampliar o debate sobre racismo dentro das igrejas, Jackson afirmou que a permanência do racismo religioso é fruto de uma teologia que não olha para os pretos, que é praticada pelas lideranças.

"O problema do racismo religioso está dentro de uma teologia branca e das lideranças. A maioria dos negros não são líderes. Os negros não escrevem a teologia que é vista no país. E se a gente tem uma teologia que é calada em relação ao racismo religioso, e se a gente tem uma igreja omissa em relação ao racismo que critica o que fazem no terreiro, muito tem a ver com a teologia branca dessas lideranças", explicou.

Discursos
A presença do racismo dentro dos discursos de líderes do protestantismo é alvo de críticas pelo Movimento Negro que, por séculos, viu o cristianismo demonizar as religiões de matrizes africanas. Jackson falou sobre as estratégias do MNE para desconstrução desses discursos no meio evangélico. "Algumas igrejas, principalmente as pentecostais, são muito fechadas pra esse tipo de conversa. Por isso, tentamos chegar de maneira relacional, através das pessoas, da comunidade até conseguirmos ir nas igrejas falar sobre igualdade racial, sobre justiça ou então ter conversas com o pastor ou a liderança daquela igreja", contou.

É nas lideranças que Jackson identifica a maior dificuldade para promover um diálogo horizontal sobre racismo. Segundo ele, o MNE encontra dificuldades para ingressar nos âmbitos de formação dos pastores. "Existe um desafio que é enorme. Não é só chegar nessas pessoas para concretizar o nosso objetivo. A gente entende que é necessário existir um acesso aos seminários teológicos. Afinal, é dentro do seminário que os pastores são formados, é lá que se forma essa teologia. Então, o nosso desafio é inserir a teologia negra dentro desse processo de formação", diz Jackson, que acredita que colocar a teologia negra nas pesquisas e no seminários da área de teologia é um passo fundamental para abrir o debate sobre racismo no meio evangélico.

Afrocrente
O criador de conteúdo digital também contou os motivos que fizeram com que ele entrasse no MNE. De acordo com Jackson, o que sempre incomodou foi o silêncio sobre as questões raciais dentro do ambiente protestante. "O que me levou para o MNE foi a invisibilidade que existe dentro da igreja evangélica em relação à luta antirracista, a invisibilidade da própria produção negra dentro da religiosidade evangélica e a oportunidade que é super importante de participar de movimento que, por mais que as pessoas possam desconhecer, não é de agora", disse.

A participação de Jackson em diálogos que ampliassem o debate sobre o racismo religioso e os problemas nos discursos que condenam as religiões de matrizes africanas fizeram com que ele quisesse levar esse conhecimento aos outros não só cara a cara, mas também pelas redes sociais. O ativista viu nas mídias a oportunidade de falar sobre racismo estrutural no protestantismo, questão que foi e é silenciada em muitas igrejas.

Jackson também falou sobre como ele se vê dentro do movimento negro e como reconhece dentro do trabalho que desenvolve na produção de conteúdo sobre teologia negra. "Eu me coloco como ativista dentro da área religiosa e atividades da teologia negra. A minha formação não me leva até aí, mas a minha vivência de uma pessoa que nasce e cresce na igreja me levou até a teologia, que nada mais é do que uma narrativa sobre Deus", declarou.

*Com orientação de Monique Lôbo

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