'Cracolândia não é coração do tráfico', diz especialista em redução de danos

salvador
09.06.2017, 17:12:00

'Cracolândia não é coração do tráfico', diz especialista em redução de danos

Lumena Furtado atuou durante três anos com práticas de redução de danos no programa Braços Aberto na região da cracolândia, em São Paulo

Um dia depois de moradores da Gamboa de Baixo tentarem fechar as duas pistas da Avenida Contorno, em sinal de protesto contra policiais civis que estavam em uma operação contra o tráfico de drogas na localidade, a mestra em Saúde Pública e doutora em Ciências, Lumena Furtado, falou ao CORREIO sobre a ação policial em áreas com grande concentração de usuários de crack. 

À frente do programa Braços Abertos de São Paulo, atuando por três anos com práticas de redução de danos na região da cracolândia paulista, ela esteve na capital baiana para uma palestra com o tema 'Sujeitos, Territórios e Vulnerabilidades', dentro do programa estadual Corra pro Abraço. A palestra, que é o início de uma atividade continuada que vai durar um ano e meio, aconteceu na manhã desta sexta-feira (9), no auditório da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), na Piedade.  

Doutora em Ciências, Lumena Furtado fala sobre ações policiais em palestra na Ufba (Foto: Marina Silva/CORREIO)


"A polícia deve trabalhar para combater a rede do tráfico, evitando que a droga chegue, na quantidade que chega, na cena de uso", afirmou a pesquisadora.

Segundo a assessoria da Polícia Civil, durante a operação policial na Gamboa, três pessoas foram detidas e encaminhadas para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Uma delas foi Edvan Conceição Carvalho, 30 anos, que foi baleado e autuado em flagrante por tráfico de drogas. As outras duas pessoas presas foram liberadas após depoimento. Na localidade, a polícia encontrou um quilo de maconha, quatro porções de cocaína, uma pedra de crack, quatro balanças de precisão, uma faca e material de embalagem de drogas, que estavam escondidos na rua. 

Confira a entrevista:

Ontem teve uma operação aqui em Salvador que reuniu policiais para prender um traficante em um local com grande concentração de usuários. A presença dos policiais gerou uma grande confusão no local. Como devem ser feitas essas operações em locais como esses?

Cheguei recentemente à capital baiana e desconheço essa operação policial que aconteceu aqui em Salvador. O que eu posso falar é sobre as operações que acontecem na Cracolândia, em São Paulo. Aquele é um lugar de venda, mas ali não está o coração da inteligência do tráfico. O que a gente tem discutido muito com a polícia, tanto Civil como Militar, é que eles devem fazer um trabalho consistente, que é o de utilizar a inteligência policial para poder evitar que a droga chegue naquele local. Não é nos espaços com grande concentração de usuários que a polícia deve se fazer presente. A polícia deve estar trabalhando para combater a rede do tráfico, evitando que a droga chegue, na quantidade que chega, na cena de uso. Então, eu acho um absurdo a ação policial violenta em locais como esses. A gente sempre brinca: na cena de uso, lidar com o usuário é a nossa praia, nós sabemos fazer isso. O que torna a cena de uso violenta é a presença do tráfico e da ação policial abusiva. 

A ação da cracolândia em São Paulo foi questionada e criticada em função do excesso de policiais. Quais exemplos podem ser tirados disso?
A mesma questão que já está sendo discutida na Bahia, que prevê uma polícia comunitária atuando em comunidades onde há a presença do tráfico, não está em discussão em São Paulo. Lá, o que a gente enxerga é uma polícia autoritária que vem fazendo um trabalho absurdo na região da cracolândia, ajudando a escoltar a prefeitura para derrubar casas com pessoas dentro. Então, é muito gritante a violência policial. É dessa violência que estamos lutando contra. Nós entendemos que a ação deve ser feita de uma outra forma e não usando a violência contra os usuários, que são vítima de um sistema perverso. 

Dois locais de acolhimento e ação para usuários de drogas de Salvador foram fechados por falta de verbas, deixando usuários sem apoio. De que forma isso pode prejudicar os tratamentos? 
É uma mudança de paradigmas. Em São Paulo, por exemplo, o nosso projeto está acabando. Era um projeto que acolhia essas pessoas, dando a elas a possibilidade de uma nova vida, reconstruindo trabalhos profissionais e laços afetivos. As internações, muitas vezes, acontecem longe dos territórios de uma forma bastante violenta e abusiva.

Essa violência é maior com as mulheres que vivem nessas condições?
A violência se torna ainda maior com as mulheres. Mulheres que só porque estão em situação de rua têm seus filhos 'sequestrados' nas maternidades e, na maioria das vezes, com o apoio do Ministério Público, Conselho Tutelar e profissionais de saúde que atuam nessas unidades de saúde. Nós estamos vivendo um momento grave de violação dos direitos das mulheres e há pouca cobertura da mídia jogando luz nesses casos. 


 

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