Crônica: o que o Senhor do Bonfim viu ao descer a Colina Sagrada

salvador
12.01.2017, 19:54:00
Atualizado: 13.01.2017, 15:27:09

Crônica: o que o Senhor do Bonfim viu ao descer a Colina Sagrada

Após mais de dois séculos, a imagem do Senhor do Bonfim foi carregada pelos fiéis durante cortejo

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Após mais de dois séculos, o Cristo baiano deixou o altar na Colina Sagrada e foi conhecer esse povo que tanto o reverencia. Senhor do Bonfim, Oxalá no Candomblé, percorreu os oito quilômetros que ligam a Igreja da Conceição da Praia, no bairro do Comércio, até a casa dele, a Igreja do Bonfim. O mais conhecido templo de oração católica do estado da Bahia e que tem por vocação congregar diferentes cultos, credos e povos em torno de algo que está acima de toda e qualquer divergência: a Fé em Deus. Seja esse Deus representado por um homem barbudo, por uma força da natureza ou mesmo por um apanhado de explicações acadêmicas.

Ao longo desse percurso, não foram poucas as demonstrações de amor, fé e devoção que se apresentaram aos olhos do santo. Em uma época onde os episódios de intolerância religiosa são cada vez mais comuns, o santuário da Conceição da Praia foi palco de um ato inter-religioso.  Espíritas, católicos, candomblecistas, hinduístas. Todos em uníssono pediram por paz, respeito e a disseminação do sentimento de fraternidade entre os povos. "O povo brasileiro tem a vocação para semear a paz e causa admiração ver o respeito às minorias", disse o padre Jairo Jesus Menezes.  

O discurso proferido no adro da igreja ganhou força ao ser ecoada a "Oração a São Francisco", repetida pelos milhares de fiéis que àquela altura se organizavam para seguir em procissão. "Vou fazer de mim um instrumento de vossa paz", celebravam baianos e turistas.  

A saída do cortejo, o Senhor do Bonfim de imediato percebeu que não há fronteiras entre fé e festa naquele trajeto. Sagrado e profano se unem de tal maneira que é impossível separar onde começa um e termina o outro. Como canta Caetano Veloso em ritmo de marchinha, na Lavagem do Bonfim chove chuva, suor e cerveja. Além de arroz, milho branco, água de cheiro e sentimentos dos mais variados.

A cada passo dado uma emoção nova, uma batida diferente. Estímulos e informações surgem de toda parte e afloram todos os sentidos. A Lavagem é de arrepiar, mas também de suar, gritar, chorar, sorrir.

Em uma festa assim, nada mais natural que o povo extravase também as suas insatisfações. E também não foram poucos os aborrecimentos presenciados pelo dono da festa. O Senhor do Bonfim viu classes trabalhadoras protestando por melhores salários, manifestações políticas pró e contra o governo. Cada grupo, às vezes uma única pessoa, vestiu a sua camisa, empunhou a sua faixa e manifestou a sua opinião.

O Senhor do Bonfim viu ainda quem prefere não misturar as coisas. "Festa é festa e protesto é protesto", disse a sorridente Ângela Souza, 41 anos. A servidora pública frequenta a Lavagem há 19 anos e vem da Ilha de Itaparica só para curtir.

A diversidade de opiniões e gostos se faz presente também na trilha sonora ouvida ao longo do cortejo. A batida compassada e tão característica dos agogôs dos Filhos de Gandhy dividem espaços com as muitas fanfarras, que tocam desde sucessos da MPB a jingles consagrados da TV, passando por hits da música baiana.

Em meio a esse repertório variado, eis que emerge da avalanche de barulhos a mundialmente conhecida "Parabéns Para Você". Sim! O Senhor do Bonfim viu ainda um aniversariante na sua festa. O felizardo, o empresário e ex-prefeito da Ilha de Itaparica Claudio Neves, completou 61 anos, e há 45 sobe a Colina Sagrada na segunda quinta-feira do ano.

"Estou muito honrado e bastante agradecido de neste ano poder comemorar o meu aniversário ao lado de minha família e num festejo tão importante para o nosso estado. E esse ano a Lavagem ficou ainda mais especial por termo a imagem do Bonfim acompanhando o cortejo", disse emocionado o aniversariante.

Ajuda de Dulce
No Largo de Roma, já no trecho final rumo ao topo da Colina Sagrada, o Cristo se depara com uma homenagem das baianas a uma das suas fiéis escudeiras. Na porta das Obras Sociais Irmã Dulce, as responsáveis por lavar as escadarias param em frente à imagem do Anjo Bom da Bahia e pedem força para seguir a caminhada.

Já se aproxima do meio-dia e o Sol do verão baiano chega ao pino. "É uma tradição nossa parar aqui [na estátua de Irmã Dulce] para pedirmos força e proteção para seguir caminhando", disse Severina Ramos, 64 anos, que há 26 realiza a caminhada. A baiana contou ainda que Oxalá representa tudo para ela. "Ele é o pai dos orixás. É quem manda prender e soltar".

Voltando para casa
Percorridos os oito quilômetros, o Senhor do Bonfim se prepara para voltar ao seu altar. Seguido de perto por milhares de baianos e turistas, segundo dados da Polícia Militar, ele olha no rosto de cada um daqueles que foi até lá justamente para reverenciá-lo. A emoção transparece em cada olhar.

As baianas ajoelham na entrada no portão da Igreja que já está repleto de fitinhas que carregam em si muito mais do que três desejos. Cada tirinha de pano daquela tem uma história compartilhada apenas entre o dono da casa e quem deu os três nós.

As vassouras "virgens" também enfeitadas com fitas brancas, amarelas e verdes, que representam, respectivamente, Oxalá, Oxum e Oxossi, iniciam a lavagem do adro. A cada esfregada no pátio do santuário, é enxaguam-se também os corações e almas dos devotos.

A essa altura, o Senhor do Bonfim já observa tudo lá de dentro da Igreja e os olhos dos Santo parecem dizer o quanto é lindo esse povo que ele há tanto abençoa. Até a próxima segunda quinta-feira depois do Dia de Reis.

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