Da Suíça, Dalva Sele descreve provas que diz ter contra petistas: "está perto da hora de mostrar o que tenho"

bahia
30.09.2014, 10:11:00

Da Suíça, Dalva Sele descreve provas que diz ter contra petistas: "está perto da hora de mostrar o que tenho"

Localizada em Montreux pelo CORREIO, presidente do Instituto Brasil diz que está na hora de revelar documentos com pagamentos ao PT

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Há um certo engasgo na voz de Dalva Sele Paiva. Talvez seja o sintoma mais evidente do quem dito e ouvido nesses últimos dias. Desde que suas denúncias contra expoentes do partido ganharam as manchetes, a presidente da ONG Instituto Brasil virou o centro do tiroteio travado em plena reta final de campanha pelo governo e a oposição. 

Dalva, em hotel de Montreux, no domingo: ‘Os desvios no instituto começam quando o PT chega ao poder
(Foto: Osmar Marrom Martins)

A munição foi Dalva quem deu e continua a dar. Em Montreux, na Suíça, ela foi localizada pelo colunista Osmar Marrom Martins, do CORREIO, destacado para cobrir um dos mais conhecidos festivais de música da alta temporada europeia, realizado no fim de semana.

Coube a Marrom mediar uma nova entrevista da autora das acusações de desvios milionários de verbas que deveriam ser usadas para construir casas populares. Por telefone, a antiga militante volta à carga contra políticos e dirigentes do partido.

Em 18 minutos de conversa com o CORREIO, Dalva fala sobre como ocorria a distribuição de dinheiro para campanhas do PT, fornece detalhes sobre o princípio do esquema e descreve os tipos de documentos que pretende entregar ao Ministério Público.

Provas contra políticos do PT da Bahia

Tenho transferências bancárias, recibos de pagamento, contratos de aluguel de veículos usados em campanha de Walter Pinheiro em 2008, de Afonso Florence em 2010. Teve muita coisa que foi em espécie. Tenho também documentos que comprovam pagamentos feitos para o tesoureiro e um secretário da campanha de Pinheiro.

Os carros, mesmo, foram alugados por nós, pelo instituto, por outra empresa nossa, incluindo uma Parati que Pinheiro usava. Tem dois cheques que foram sacados na boca do caixa na sexta-feira, antevéspera da eleição de 2008. São cheques ao portador.

Um foi para um secretário de Pinheiro, Alisson Santos, outro para o tesoureiro da campanha. Tenho recibo assinado por Alisson no valor de R$ 60 mil. No total, foram R$ 260 mil, somente em recursos comprovados do instituto que foram parar na campanha de Pinheiro.

Contra-ataques após denúncias

Acho que é um misto de desespero e baixaria. Ele (o governador Jaques Wagner) está se aproveitando do cargo. Na cadeira do governo, é fácil chamar uma pessoa de ladra, de picareta, esse monte de baixarias. Acho também que é aquela estratégia da melhor defesa ser o ataque.

Mas, entrarei, na verdade, meus advogados entrarão com uma ação contra o senhor Jaques Wagner. Ele vai ter que provar as coisas que está dizendo. Colaborei e servi tanto ao partido dele...

Relacionamentos com petistas

Conhecia o governador, sim, mas não tínhamos relação próxima. Ele já esteve uma ou duas vezes na minha casa, quando era deputado federal. Os mais próximos são Nelson Pelegrino (deputado federal), Zezéu (Ribeiro, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado), (Jorge) Solla (ex-secretário de Saúde e candidato a deputado), Jonas Paulo (ex-presidente do PT estadual), Moema (Gramacho, ex-prefeita de Lauro de Freitas), Luiz Caetano (ex-prefeito de Camaçari), Rui (Costa, candidato ao governo) e Maria Del Carmen (deputada estadual).

Sei que eles agora não me conhecem, nunca estiveram comigo. Maria Del Carmen, mesmo, trabalhei com ela por oito anos na prefeitura de Salvador (durante o governo Lídice da Mata). Pinheiro, acho que por isso mesmo ele está sendo massacrado no partido, foi um dos únicos que admitiram que me conhecia, apesar dele ter jogado a culpa para o partido.

O Nelson Pelegrino foi várias vezes no instituto, na minha casa. Eu participei ativamente da campanha dele, menos dessa última, porque eu estava com problemas de saúde. Zezéu também foi ético ao admitir ter ido ao instituto tratar de políticas habitacionais, o que efetivamente é verdade.

A origem do esquema no Instituto Brasil

Quando a gente criou o instituto, a gente prestou serviço em todos os governos. Não tinha absolutamente nada dessa questão (de desvios). Eles aconteceram no decorrer do processo. Eu era militante, a vida toda colaborei com o partido, não só através do instituto, a gente tinha outras empresas. Eu organizava festas para o PT, tinha uma relação com o partido.

A partir do momento em que o PT chegou ao poder, o instituto começou a servir de instrumento. Não foi alguém que sentou comigo e disse “olha, vamos fazer isso e tal”. Surgia um trabalho, a gente ia fazer e, a partir daí, fazíamos algumas contribuições.

No convênio das casas, o que foi alvo de investigação por parte do Ministério Público, teve um direcionamento para 18 municípios onde o PT tinha possibilidades na eleição de 2008. Era para sair, ser assinado, em maio, mas só saiu em dezembro.

A gente, inclusive, começou a tocar o projeto com dinheiro de outros contratos. Ele (o convênio) foi desviado para eleger prefeitos do PT. Dos 18 municípios conveniados, 12 se elegeram prefeitos do PT.

Sobre a viagem à Europa e pagamento de dívidas

Isso é uma mentira (a acusação de que foi paga para fazer a denúncia). Vim para Europa porque um amigo comprou minhas passagens, coisa que ele já fez algumas vezes antes. Outra coisa: a gente pagou um condomínio de um apartamento nosso que estava alugado, mas que o inquilino não pagou. Foi parar na Justiça e nós pagamos. Não é nem o apartamento em que eu moro no Horto.

Retorno ao Brasil e pedido de segurança

Mandei um e-mail para a promotora Rita Tourinho (do MP da Bahia), no qual eu digo a ela que só vou voltar quando me sentir em segurança. Vou pedir proteção às autoridades brasileiras. Eu temo mesmo pela minha segurança e pela integridade física dos meus filhos.

Sei como eles agem quando são raivosos. Não sei dizer quando volto. As passagens estão marcadas para dia 11, mas não sei se volto na data. Estou vendo uma forma de entregar as provas que tenho para ela. Está na hora de mostrar o que tenho muito bem guardado.

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