"Deus cansou de tanta barbaridade e deu tudo errado", diz pai de Geovane sobre PMs acusados

salvador
21.04.2015, 10:14:00
Atualizado: 21.04.2015, 10:32:17

"Deus cansou de tanta barbaridade e deu tudo errado", diz pai de Geovane sobre PMs acusados

Em entrevista ao CORREIO, Jurandy Silva diz que tudo deu errado para os PMs acusados de matar seu filho Geovane, assassinado aos 22 anos após abordagem de PMs no Lobato

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Geovane Mascarenhas desapareceu
no dia 2 de agosto

(Foto: Marina Silva)

O homem de gola polo azul que atravessa a passarela do Iguatemi passa como um sujeito qualquer. Mas, acredite, ele pode ser tudo, menos “um sujeito qualquer”. Jurandy Silva de Santana, 46 anos, é certamente um dos homens mais corajosos do mundo. E a camisa que ele veste é do seu filho, Geovane Mascarenhas de Santana, assassinado aos 22 anos no ano passado.

Onze PMs foram denunciados à Justiça pelo crime. Usar a gola polo do filho é para mantê-lo por perto. “Sempre visto as roupas dele. Os irmãos também. É uma lembrança, né?”, revela Jurandy. Geovane foi visto com vida no dia 2 de agosto, durante abordagem de três PMs, antes de ser colocado na viatura 2.2203 da Rondesp.

Tudo foi registrado por uma câmera de segurança. As imagens, descobertas pelo próprio Jurandy, foram publicadas no CORREIO com exclusividade. A peça do Ministério Público Estadual (MPE),  que denuncia os policiais militares pelo crime, aponta que Geovane foi morto dentro da sede da Rondesp, no Lobato.

Ou seja, no dia seguinte ao crime, sem imaginar, Jurandy procurou o filho no local onde o MPE acredita que a vítima foi morta. Depois de morto de joelhos por decapitação, o corpo de Geovane foi esquartejado e queimado. A tatuagem com o nome do pai foi retirada.

Apesar dos outros sete filhos, Jurandy diz que perdeu metade da vida com o assassinato do primogênito. A coragem de pai anula o medo de retaliação. Por isso, circula normalmente pelas ruas. Mas afirma tremer quando uma viatura da Rondesp passa ao seu lado.

Jurandy lembra de outros pais, como de Davi Fiuza: ‘Cadê o rapaz?’
(Foto: Evandro Veiga)

Não por medo, mas por tudo que ela simboliza. Apesar de toda a dor, ainda se preocupa com o sofrimento dos outros, especialmente pais que não conseguem encontrar ou enterrar seus filhos. Lembra do caso Davi Fiuza, que desapareceu em outubro após suposta abordagem policial, em São Cristóvão. No pé da passarela, pergunta: “Cadê o rapaz?”.  

CORREIO - O Ministério Público aponta que seu filho foi morto na sede da Rondesp? Como o senhor recebeu essa informação?

Jurandy Silva - Com muita tristeza. Jamais imaginaria que tudo aconteceu em um batalhão da Polícia Militar. Eu tive até nesse batalhão naquela madrugada, no domingo, dia seguinte ao desaparecimento do meu filho. Amanheci o dia lá, no batalhão da Rondesp do Lobato.

Fiquei do lado de fora esperando a troca de plantão. Como falaram que ele foi levado pela Rondesp, primeiro fui na 2ª Delegacia (Lapinha) e lá me disseram para eu procurar o batalhão. Amanhecendo o dia, fui lá. Cheguei umas 5h e fiquei até 6h20 na porta. Perguntei sobre o desaparecimento do meu filho. Um policial disse que era impossível saber em qual plantão aconteceu. Vi um bocado de viatura parada, vi que não ia ter êxito e fui embora. Não tinha informação nenhuma. 

O senhor acha que outros Geovanes podem ter morrido ali?

Meio difícil saber. É difícil entender essas coisas. Você não imagina. Um batalhão que, com certeza, tem muitos bons policiais. Chega a ser inacreditável. Eu consegui as filmagens. E outros que não conseguiram? Como é que a gente vai saber o que fizeram com esses filhos? 

Tem os casos aí que nunca acham o filho. Imagine você conviver com a dor de um filho desaparecido. Eu pelo menos enterrei o meu. Quer dizer, enterrei as partes dele, mas pelo menos enterrei. Essa dor eu tirei do meu coração. 

Mas se não fosse as filmagens ia ser minha palavra contra a deles. Se eu não conseguisse as filmagens seria mais um Davi Fiuza. Cadê o rapaz?

A peça do MPE aponta que os policiais forjaram muita coisa, inclusive desligaram o GPS da viatura...

Nesse caso de Geovane, Deus não queria que fosse como eles planejaram. Acho que Deus cansou de tanta barbaridade e deu tudo errado para eles. Chegou o momento de acabar com isso. Tudo o que fizeram deu errado. Fizeram de frente para as câmeras, tentaram eliminar as provas e não conseguiram. Agora se descobriu que desligaram o GPS. Quando a polícia quer descobre. Fizeram tudo malfeito. Tá tudo esclarecido. Se a Justiça da terra for feita, eles vão pagar. 

Qual o sentimento do senhor em relação à polícia hoje?

Acho que é o momento ideal para fazer uma geral, um pente fino na polícia. A gente trabalha dia e noite, paga os impostos. Tem que ter uma polícia decente. Se você não confiar na polícia, vai confiar em quem? Quando a gente olha para aquele símbolo da polícia, a gente quer ter uma proteção e não ter medo. Tem que rever tudo.

A gente vê um discurso muito bonito, de polícia cidadã e não sei o quê. E na prática você não vê. Tem que repensar. É angustiante, é doloroso. Quando você vê que a polícia é capaz disso, você se sente à toa, né? Em que mundo a gente vive para acontecer uma coisa dessa? 

‘A metade de mim já foi’, diz Jurandy, vestido com camisa do filho
(Foto: Evandro Veiga)

E a Rondesp? O que o senhor pensa quando um carro da Rondesp passa pelo senhor?

Se eu disser que não fico nervoso é mentira. Mas aí penso: meu Deus, tão bonitona a viatura, tanto policial bem armado para nos defender. Será que as coisas têm que ser assim mesmo? O que faz um ser humano fazer um negócio desses? Que barbaridade! Tem que matar, esquartejar e tocar fogo?

Penso que a gente vive no mundo à toa. O que é pra proteger, a gente faz isso aí. A gente paga aquela farda pra proteger a gente, para respeitar a gente. Eles tiraram metade da minha vida.

O que o senhor diria para as autoridades?

O governador (Rui Costa) nasceu na Liberdade, sabe que somos pobres, discriminados. Ele podia chamar o secretário (da Segurança Pública, Maurício Barbosa) e olhar mais por esse povo pobre. Ali todo mundo se queixa da polícia. A gente não vê ninguém da Pituba ou da Barra reclamando. Nada contra esses lugares, mas não acontece isso com os filhos de pais desses bairros. A polícia tem que entender que tem muita gente do bem nas comunidades pobres.  

Como está a família do senhor? 

Destruíram minha família. Minha mãe tá arrasada, teve um princípio de AVC. Meu pai dorme o dia todo, diabético. Eu não tinha problema nenhum e hoje tenho problema de pressão. E ninguém quer saber de nada. Quem é seu Jurandy? Um ninguém. Não moro na Pituba ou na Barra, eu moro na Santa Mônica. Que importância tem? 

De onde vem tanta coragem, Jurandy?

Rapaz, de Deus. De Deus. Minha vida pra mim hoje tanto faz. Vivo por aí, subo e desço. Se forem de me matar, vão me matar. Todo mundo fala “você vai morrer”, eu digo que tá na mão de Deus. Por isso que eu subo e desço. A metade de mim já foi. 

Pra que a gente briga tanto? Enterrei meu filho, pra mim tanto faz. O que eles vão fazer comigo, me matar? A única coisa que eles podem fazer comigo é matar. Aí você pergunta: “você tem medo?”. Não, eu não tenho medo. Eu tenho medo do castigo de Deus. Chegar lá e prestar contas.  

O senhor tem tomado algum cuidado ao andar por aí?

Evito muita coisa. Cortei muita coisa da minha vida. Não ando mais de noite. Não saio final de semana. Festa só se for de família. 

O senhor pediu proteção à polícia? 

A proteção deles é pegar você e mandar para outro estado. E minha família? E meus filhos? Meu pai e minha mãe? Eu só tenho a metade de mim. Você não imagina a dor. Antes eu ligava a televisão e via uma mãe chorando, uma mãe gritando. Aí eu pensava: “Olha só a dor dessa mãe”. Mas eu não sabia o que ela tava passando. Agora eu sei. 

Você é repórter, está me entrevistando, vendo meu sofrimento, mas daqui eu vou pra casa e você vai esquecer. Você não sabe o que eu tô passando. Se eles vierem me matar... (bate uma mão na outra). Eles fizeram a merda deles, desculpe a expressão, mas têm que vir me pedir desculpa. Mas ninguém vai olhar porque é Jurandy, um cara da Santa Mônica. Quem vai se preocupar? Se for de eu morrer vou aparecer morto. Eu não tenho inimigo.     

O senhor tem dormido?

Ah, muito pouco. Três, quatro horas de relógio. Eu já não sou de dormir e agora que não durmo mesmo. Pego no sono e acordo logo. É estresse e preocupação de um lado, tristeza do outro. Mas tô aí na luta até o dia que Deus quiser.

Geovane aparece nos seus sonhos?

Sonhei que chegava na casa da tia dele depois de procurar ele e encontrar. Aí disse: “olha Viviane, achei Van. Pessoal, Van chegou”. Quando ele apontou na porta para entrar, acordei. 

O que o senhor fez com as coisas dele?

Ficaram com a gente. A gente não jogou nada fora. Uso as roupas dele. Essa aqui mesmo (mostra a camisa) era dele. É uma lembrança, né? Os irmãos também estão usando. As que tiverem lavadas quem chegar primeiro veste. A camisa do Bahia só quem usa é o caçula. Calço o sapato dele, que também usava 42.   

Ele deixou mulher e filha, né? Como elas estão?

Estão por lá. Esta semana a mulher dele mandou uma mensagem dizendo que a menina tava chamando por vovô. Queria ver vovô. Vou passar lá.

Câmera registra momento em que Geovane foi colocado em viatura da Rondesp

SSP vai apurar morte de Geovane dentro da sede da Rondesp | Bruno Wendel

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que irá apurar a denúncia do Ministério Público Estadual (MPE) que aponta como local da morte de  Geovane a sede da Rondas Especiais (Rondesp), no Lobato. A informação foi passada ontem pela assessoria de comunicação da SSP.

A denúncia, redigida pela promotora Isabel Adelaide Moura, foi encaminhada no  dia 11 para a 1ª Vara do Tribunal do Júri. Ainda segundo a assessoria, o delegado Jorge Figueiredo, responsável pelo inquérito no qual se baseou  a denúncia, informou que a investigação trabalhou em cima de fatos e que a morte de Geovane na sede da Rondesp não consta na investigação.

No entanto, em nota, a PM informou que a morte de Geovane na sede da Rondesp é uma das hipóteses levantadas e que não se trata de uma “conclusão definitiva”.

“É importante aguardarmos a conclusão do processo judicial para podermos nos posicionar de forma consistente sobre este caso”, diz a nota. A PM informou que a Corregedoria Geral da corporação instaurou  procedimentos administrativos contra os 11 PMs  envolvidos.

“Contudo, isto também ainda não lhes imputa qualquer responsabilidade sobre o caso, precisamos aguardar as apurações e a conclusão proferida pela comissão disciplinar”, finaliza. Procuradas, a assessoria de comunicação do MPE e a promotora Isabel Adelaide não foram encontradas. 

Ainda de acordo com a denúncia, os policiais desligaram o GPS da viatura e cortaram a fiação da câmera instalada no carro para não serem rastreados.  Por fim, elaboraram um relatório de serviço descrevendo um roteiro aleatório e diferente do real. Mas, mesmo desligado, o GPS emitiu sinais a uma central em outro estado e o radiocomunicador portátil usado por um dos PMs também registrou a localização.

A denúncia aponta como responsáveis pela morte de Geovane o subtenente Cláudio Bonfim Borges, os sargentos Gilson Santos Dias e Daniel Pereira de Souza Santos e os soldados Jesimiel da Silva Rezende, Jailson Gomes Oliveira, Cláudio César Souza Nobre, Fábio Nobre Lima Masavit Cardozo, Jocenilton Santos Ferreira, Roberto Santos de Oliveira, Alan Moraes Galiza dos Santos e Alex Santos Caetano.

Eles foram denunciados por sequestro, roubo (a moto e o celular de Geovane não foram localizados)  e homicídio qualificado (por motivo torpe e sem possibilidade de defesa da vítima). Seis deles foram denunciados também por ocultação de cadáver.  

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas