Devolvida ao Terreiro Mokambo, cadeira de Jubiabá vai passar por desenergização

salvador
28.10.2015, 14:39:00
Atualizado: 28.10.2015, 16:42:45

Devolvida ao Terreiro Mokambo, cadeira de Jubiabá vai passar por desenergização

Cerimônia na sede do Instituto Geográfico e Histórico marcou entrega de símbolo do pai-de-santo

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No Dia de São Judas Tadeu, santo das causas impossíveis, e de Xangô, Senhor da Justiça, a cadeira que pertenceu a Severiano Manuel de Abreu, o Jubiabá, foi devolvida aos seus descendentes diretos do Terreiro Mokambo, nesta quarta-feira (28). Na chegada ao terreiro, a cadeira passará por um processo de desenergização, segundo o sacerdote Tata Anselmo.

“Isso abre um precedente para que outras peças que estão em outrs órgãos possam ser devolvidas também. Para nós era necessário esse resgate. O valor da cadeira é um valor simbólico, é o que faz com que a gente cultive essa ancestralidade”, afirmou o sacerdote.

Durante a cerimônia de devolução, que aconteceu na sede do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), o sacerdote se emocionou ao ler uma reportagem sobre o dia em que a cadeira foi levada pela polícia. “Eles chegaram e foram quebrando tudo. Tiraram ele, que ainda estava em transe e levaram com a cadeira. A nossa sorte é que trouxeram para cá, onde ficou guardada por 95 anos”, disse. 

O processo de devolução começou em 2010, quando o terreiro iniciou o projeto de implantação do Memorial Kisimbiê. “Nós fomos pesquisar nos órgãos que tem documentação o que poderíamos ter para acervo. Quando chegamos aqui, encontramos a cadeira de Jubiabá e fizemos o pedido de devolução”, explicou.  

Cadeira que pertenceu a Jubiabá estava no IGHB há 95 anos (Foto: Amanda Palma)

No entanto, somente no ano passado é que o processo desenrolou, segundo o historiador Jaime Nascimento, coordenador cultural do instituto. “No ano passado o Tata Anselmo me informou de que havia esse pedido aqui e pediu para que a gente pudesse agilizar. Como a professora Consuelo estava afastada, isso acabou demorando mais e só pudemos retomar agora”.

“Hoje nós temos uma nova diretoria e agilizamos esse pedido que estava formalmente aqui desde 2010. Nessa casa não queremos ter o que não nos pertence. Nós estamos devolvendo algo que, por direito, não nos pertence”, afirmou o presidente do instituto, Eduardo Soares.

A cadeira de Jubiabá estava no segundo andar do IGBH, onde funciona o museu, que está temporariamente desativado. Antes de ser devolvida, apenas a palha do assento e do encosto foram trocados, por causa do desgaste do tempo.

Para a diretora de Preservação do Patrimônio Artístico e Cultural do Ipac, Etelvina Fernandes, a devolução da cadeira é uma conquista do povo de santo. É uma vitória do povo de santo sobre o poder opressor que existia no passado. É uma conquista justa e necessária", pontuou. O terreiro é protegido pelo estado por meio de um tombamento provisório do Ipac. 

Já a museóloga Maeli Lima, que participou da implantação do Memorial Kisimbiê, disse que a cadeia agrega ao acervo que já existe. "O memorial é um marco na história e a cadeira vem para completar esse acervo tão importante", disse.

Descendentes
Dentro da religião, a cadeira significa mais do que um mobiliário. Um pai ou mãe-de-santo, quando é confirmado no cargo é sentado na cadeira, que funciona como um trono sagrado. “Significa o poder do líder religioso daquela comunidade e ali só ele tem assento. Isso significa que demorou para chegar até ali”, detalhou Tata Anselmo. A cadeira de Jubiabá não será mais assentada . “Ninguém mais vai tomar assento e ficará como um tesouro no nosso memorial”, completou. 

Jubiabá teve sua casa, no Alto da Cruz do Cosme, invadida pela polícia no dia 5 de outubro de 1920. O Terreiro do Mokambo descende do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, dirigido pela Mameto Altanira Maria Conceição Souza, a famosa Mãe Mirinha de Portão. Mirinha era filha de Joãozinho da Goméia, filho de Jubiabá. 

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