Dia Mundial Sem Carro: soteropolitanos contam suas experiências em cima das bikes

salvador
22.09.2020, 20:39:00
Atualizado: 22.09.2020, 22:18:39
(Foto: Divulgação/PMS)

Dia Mundial Sem Carro: soteropolitanos contam suas experiências em cima das bikes

Ciclovias na capital foram expandidas em mais de 220 km nos últimos sete anos, mas ainda há desafios

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O Dia Mundial Sem Carro, data celebrada todo 22 de setembro, é uma oportunidade para conscientizar sobre o uso excessivo de veículos e incentivar formas de transporte menos poluentes, como a bicicleta. Há sete anos, Salvador tinha pouco mais de 60 km de ciclovias e saltou para os atuais 281,8 km, com previsão de expansão para 316 km até o fim do ano, de acordo com dados da prefeitura.

Com o crescimento progressivo das cidades em todo o país e a perda de tempo em deslocamentos, espera-se que esse aumento da malha na capital baiana possa virar estímulo à adesão dessa mobilidade mais sustentável. 

Foi justo há sete anos, depois de perder o emprego no setor de informática durante a crise econômica de 2013, que Daniel Bagdeve, 44 anos, resolveu montar um negócio no ramo das bikes. Decidiu investir porque pouco tempo antes a bicicleta havia mudado a sua vida. Com sobrepeso e hábitos não saudáveis, as dores musculares e de coluna eram tantas que Daniel não conseguia nem brincar com a filha. 

Os médicos recomendaram logo um esporte e ele descobriu que o que mais curtia era andar de bicicleta. Gostou tanto que passou a se dedicar, mudou hábitos, perdeu 22 kg, teve de volta a disposição para as atividades do dia a dia e descobriu uma nova profissão: instrutor de bike. Hoje, ele não é um inimigo do carro e usa a bicicleta o máximo que pode. Nesta terça, ele cumpriu a proposta da data e percorreu 26 km de bike para ir e voltar do trabalho. 

Daniel Bagdeve se apaixonou por andar de bicicleta e virou instrutor
(Foto: Arquivo pessoal)

“Sou obrigado a dizer que Salvador melhorou muito na expansão de vias para bicicletas, mas a gente ainda está muito longe do que deveria ter. Em 2013, só tínhamos vias na orla, era basicamente para lazer. Hoje, tem em vários pontos da cidade, só que não são interligados”, diz.

O instrutor considera que o principal risco de se pedalar na cidade é a falta de uma cultura de mais respeito dos motoristas em relação aos ciclistas, já que muitos condutores, por falta de conhecimento, não obedecem o distanciamento da bike. 

O instrutor não vê o relevo acidentado de Salvador como um problema para a atividade. Na opinião dele, é possível descer da bike e empurrá-la nos locais de ladeiras, o difícil mesmo é lidar com o calor e chegar nos locais com a roupa pingando de suor. Ainda assim, defende que as vantagens se sobrepõem. “A bicicleta é como uma pílula mágica, ela faz melhorar o relacionamento com a família reforçando laços ao pedalar juntos, te leva para atividade ao ar livre, te faz tomar sol, o que reforça o sistema imunológico”, conclui.

Entregador de quentinhas, Valdir Cerqueira dos Santos, 38, ganhou uma bicicleta há quatro anos e chega a rodar 100 km por dia. Morador da Federação, ele diz que usa a magrela para tudo: vai na casa de familiares, no mercado, dá passeio na orla e faz seus serviços.

“Quando vou de bike parece que é tudo mais perto, rapidinho eu chego, não tem espera. Quando pego o metrô, deixo a bicicleta na garagem da estação e pego na volta. Minha bike é como uma mulher na minha vida, tenho chamego e vou caminhando com ela”, brinca.

O fotógrafo Matheus Buranelli diz que a melhor palavra para de definir a sua relação com a bicicleta é dependência. A bike que um dia foi instrumento de lazer, hoje é mesmo o seu principal meio de transporte. Ele diz que sempre costuma chegar mais rápido nos lugares com ela e considera que a principal vantagem é escolher a hora de sair de casa. "As vantagens são incontáveis, você economiza tempo, dinheiro, mas acho que o principal é não depender do ônibus passar. Isso é algo que valorizo muito e a bicicleta me dá, é a vantagem mor. Tenho liberdade de mobilidade graças a ela", conta.

Empréstimo de bikes 
Conforme dados municipais, Salvador tem hoje 50 estações de empréstimo de bicicletas, com 400 unidades, mantidas com patrocínio do Itaú. Uma pesquisa do Ipea, de 2018, mostrou que o Brasil tem mais bicicletas do que carros, respectivamente 50 milhões contra 41 milhões. Em torno de 7% do total de viagens são feitas por bicicletas, com potencial de atingir 40%, apontou o instituto. 

Em contrapartida, de acordo com números do Detran-BA, a capital tem atualmente mais de 1,01 milhão de veículos, entre carros e motos, e a Bahia ultrapassa os 4,4 milhões. Gerente de educação para o trânsito da Transalvador e coordenadora do Comitê Vida no Trânsito, Miriam Bastos, afirma que, desde 2013, a prefeitura da capital tem investido recursos para tornar Salvador menos dependente do carro. 

A gestora disse que, até o fim setembro, devem ser entregues quatro obras que beneficiarão o público ciclista: uma ciclofaixa de 4 km localizada na Avenida Suburbana — nas imediações da Avenida Engenheiro Oscar Pontes e Avenida da França; outra de 1,2 km na mesma via — na altura da Avenida Almirante Tamandaré; a de 2,5 km na Avenida Luís Eduardo Magalhães, indo da Orla a Pernambués, e a de de 3 km no Centro Administrativo da Bahia (CAB). 

A prefeitura ainda diz que com o Bus Rapid Transit (BRT), que ligará a Estação da Lapa à região do Iguatemi, os soteropolitanos terão mais uma opção de transporte, com veículos pontuais, e que o sistema evitará engarrafamentos de carros na região. "Esse modal vem incentivar para que as pessoas deixem seus carros em casa e usem um transporte que oferecerá conforto, rapidez e segurança”, defende Fábio Mota, secretário municipal de Mobilidade (Semob).

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