Diário da Série B: Lanterna vermelha

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20.09.2019, 16:23:00
Wesley, do Vitória, na partida contra o São Bento (Neto Bonvino/Bento TV)

Diário da Série B: Lanterna vermelha

Pela segunda rodada consecutiva, o Vitória cai para o lanterna e reacende a luz vermelha na Série B: São Bento 2×0 Vitória

Sorocaba, 17 de setembro de 2019

Rodada 23 de 38

Sorocaba

Distante quase 100 quilômetros, de centro a centro, da capital, Sorocaba é uma cidade em expansão. Morada de diversas indústrias, tornou-se polo automobilístico e de tratores. Muito, porém, de seu ar interiorano permanece.

O caminho até lá, seja pela Rodovia Raposo Tavares, seja pela Castello Branco, mostra paisagens bucólicas ao sair do aglomerado da Região Metropolitana. Ressalve-se a questão comparativa: a partir de São Paulo, tudo é interior. Mas, sim, ia-se ao interior.

Na agenda de mais uma rodada da Série B do Brasileirão, o Vitória se destinava a Sorocaba para enfrentar o São Bento, último colocado da competição e com pouquíssima tradição boleira.

É o lanterna, parte 2

O fato de ser o lanterna do campeonato não descredenciaria o São Bento a executor de malandragens. Primeiro porque ao Vitória não cabe desprezar absolutamente ninguém. Às portar de voltar ao Z4, não via o azulão sorocabano de longe para se medir superior. Depois, porque este mesmo São Bento visitou o Barradão no primeiro turno para, com desfile de Régis, vencer o rubro-negro por 3 a 1 e provocar a demissão de Tencati. Terceiro, bem, porque perder para o então lanterna tinha acontecido apenas uma rodada antes, em plena Fonte Nova.

A partida tinha representatividade maior ainda quando projetadas as três rodadas seguintes, contra Atlético-GO, Bragantino e Sport, respectivamente segundo, primeiro e terceiro colocados do campeonato.

Era vencer ou vencer.

Amadeu pressionado

A urgência da vitória colocava ainda mais pressão em Carlos Amadeu. O técnico rubro-negro, que acumulava bons resultados, mas decisões terríveis em campo, se via encurralado. Sem a possibilidade de não vencer, tinha que fazer o ataque produzir o que até então não tinha sido capaz. Além de manter a estabilidade defensiva.

Estabilidade esta que, inclusive, deve ser questionada. Apesar de apenas 2 gols sofridos em 8 partidas (contra Coritiba e Guarani), os adversários continuaram chegando com alguma facilidade. Boas intervenções dos goleiros e a contribuição providencial das traves fez com que a excelente média fosse mantida. Mas a estatística haveria de bater forte em algum momento. Diante de tantas oportunidades oferecidas ao oponente, chegaria a hora em que a bola defendida ou explodida na trave viraria gol. E aí…

Escalação

Amadeu montou o Vitória de acordo com sua nova fase de testes. Sem Lucas Cândido e Rodrigo Andrade, manteve o esquema com três volantes, promovendo Leo Gomes e Marciel ao time titular. Marciel, aliás, merece um capítulo à parte. O desinteresse do jogador em jogar futebol seria demonstrado uma vez mais.

Já Capa voltaria à sua posição na lateral-esquerda, substituindo o aparentemente (muito) acima do peso Chiquinho. Na frente, sem Gedoz, Felipe Garcia iria pro jogo, ocupando a ponta direita, deslocando Wesley para a esquerda.

Se não é bom, é o que temos.

Logo de cara

Sete minutos.

Nem tinha dado tempo de aquecer ainda, e todo o planejamento do time foi por água abaixo. Rodolfo, o 10 dos paulista, abriu o placar sem contestação.

São Bento 1×0 Vitória.

A saga das últimas atuações de Amadeu estava mais do que viva. Com a equipe perdida em campo, voltavam à tona os traços psicológicos de falta de reação vistos desde o ano passado. Ao sair atrás, o Vitória passou a ter certeza da derrota.

O que se viu foi uma sucessão de passes errados, de jogadas mal construídas. Um arremedo de futebol, agora sem a desculpa da falta de tempo para treinar. Assim, o São Bento esteve mais perto de fazer o segundo que o Vitória de empatar.

O intervalo foi um alívio.

A pior substituição da história

Voltemos, por hora, a Marciel. Retomo somente neste momento da crônica pra que tenha dado tempo de ele chegar. Sabe como é, ele vai daquele jeito, devagar… Na base do “me deixe”, lento, lento, lento… Em absolutamente nada lembra o Marciel que fazia muitos questionarem Tite por não utilizá-lo com mais frequência quando surgiu no Corinthians.

Amadeu, aos quinze minutos do segundo tempo, então, promoveu a sua retirada, segunda substituição no jogo – na primeira, Everton Sena, machucado, deu lugar a Zé Ivaldo, aos 23 minutos do primeiro tempo. Só que não se corneta o professor rubro-negro à toa. Naquela que pode ser considerada uma das substituições mais esdrúxulas, mas desestimulantes, mais… BROCHANTES da história do Vitória, ele chama o inexplicável Ruy para ir a campo aos 15 minutos do segundo tempo.

Aqui, minha gente, não cabe ressalva, nem veja bem, nem contexto ou pretexto. É hora de dar as costas. De deixar o interlocutor falando sozinho. Porque este é daqueles momentos que a gente percebe que desistir é questão de sanidade mental, que não adianta mais argumentar, lutar é desnecessário. Marciel por Ruy é perceber que já não se tem mais ânimo pra nada.

Saiu mais um

Aos 29, São Bento 2×0 Vitória.

Pra surpresa de absolutamente ninguém.

Aos 34, faltando onze para acabar, finalmente uma centelha de ofennsividade: Jordy entrou, com Baraka deixando o gramado.

A esta altura, contudo, já estava tudo perdido.

Complicou ao quadrado

Se perder do Guarani na Fonte Nova foi um duro golpe nas pretensões rubro-negras no campeonato, dobrar o desmantelo perdendo do São Bento em Sorocaba complicou ainda mais a vida do Vitória.

A sequência agora é vital e dura com a equipe que, apesar de fora do Z4, na 16° posição, está à frente apenas 1 ponto do lanterna. No primeiro turno, contra estes 3 adversários, apenas 1 ponto conquistado, fora de casa contra o Atlético-GO.

Não vai ser fácil. Nada fácil. Vai ser necessário tirar da cartola um futebol que nunca apresentou, contra equipes que começam a abrir vantagem, visando assegurar a vaga para primeira divisão com antecedência.

Mas é futebol, sabe como é. Às vezes, mas bem às vezes, assim, raríssimas vezes, este tipo de coisa acontece. Vai que…

Enquanto isso, Amadeu balança. Perder na sequência para os lanternas de qualquer competição ameaça o trabalho de quem quer que seja. Ainda mais quando este trabalho pode ser questionado pelos erros contínuos de planejamento e execução.

Acendeu-se a luz vermelha no Vitória, cor da lanterna que certamente há de provocar estragos no Barradão.

Gabriel Galo é escritor. Texto publicado originalmente no site Papo de Galo e reproduzido com autorização do autor. A opinião do autor não necessariamente reflete a do CORREIO.

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