Diretor do MAB critica estrutura formal dos museus: "espaço para poucos"

Vida
31.07.2017, 06:05:00

Diretor do MAB critica estrutura formal dos museus: "espaço para poucos"

Gestor defende mudança nos museus e fala sobre o centenário do MAB, que reúne obras multimídia e feitas com estrume
Pedro Arcanjo , 57 anos, é diretor do Museu
de Arte da Bahia
(MAB) (Foto: Divulgação)

Obras impregnadas por cheiros de couro e estrume, além de trabalhos multimídia inspirados no pagode, tomam conta do Museu de Arte da Bahia (MAB), no Corredor da Vitória, até setembro. Isso porque o museu instalado em um casarão neo-colonial recebe duas exposições que celebram seu centenário  e provocam um contraste com as pinturas, joias e os móveis tradicionais que fazem parte do seu acervo permanente.

“Os museus não têm se constituído em espaços interessantes para visitação”, avalia o diretor do MAB, Pedro Arcanjo, 57 anos, gestor responsável pela popularização do museu nos últimos dois anos. “Não acredito que seja porque as pessoas sejam burras ou não tenham cultura, mas por conta da própria estrutura que o museu preservou: é um espaço para poucos”, critica Arcanjo. Em entrevista ao CORREIO, o gestor fala sobre o centenário do MAB e a necessidade de se repensar a estrutura formal do museu.

Você optou por sair da zona de conforto do “discurso artístico aristocrático” e decidiu inaugurar as celebrações do centenário do MAB com artistas como Juraci Dórea e Caio Araújo. Por que escolheu esse caminho?
Primeiro, porque essa estrutura clássica e formal do museu está sendo questionada no mundo inteiro por vários estudiosos, que falam em uma nova configuração. Existe uma discussão de transformar o museu em um lugar de inquietações, por isso preferimos trazer Juraci, que tem um trabalho inquietante do ponto de vista do sertão, e Caio Araújo, que dialoga com novas mídias. Isso estabelece uma relação dialética com o espaço físico do museu, a memória da edificação, do acervo e vai nos possibilitando elaborar esse diálogo contemporâneo.

O que representa essa escolha por Juraci Dórea? O que pode destacar sobre sua obra?
Juraci Dórea discute o sertão com uma base forte. A partir de uma poderosa base na pintura, Juraci dialoga com escultura, desenho, gravura, instalação e possibilita conversar com o universo da contemporaneidade.

Como avalia esses dois anos de gestão à frente do MAB? Repensar o museu é uma marca?
Pierre Bordieu [sociólogo francês], em O Amor Pela Arte, diz que o que era essencialmente um bastão aristocrático, tornou-se em nossos dias um espaço de encontro para as pessoas da rua. Não estou sozinho nessa discussão. Rob Baker [diretor-chefe de marketing do Tate Modern, em Londres], afirmou que afrouxar a gravata é bom para o museu. Ele fala que o papel do museu, na sociedade e na cultura, mudou de um lugar acadêmico e formal, onde apenas se dispõem objetos, para um espaço de comunidade e discussão. A marca da nossa gestão, se temos uma, é essa busca pelo diálogo com a cidade, onde se pretende transformar o museu naquele espaço da inquietude. Esses espaços perderam muito a sua função acadêmica com as novas mídias, os novos elementos de manifestação no universo artístico, como por exemplo a arte conceitual. O que é fundamental é a ideia do artista e a realização da obra, o resto é memória. Quer dizer: essas obras que são feitas a partir de suportes estéticos não permanentes. O museu que sempre viveu para preservar a obra em sua materialidade agora tem o desafio de preservar também sua memória. Isso, então, coloca toda uma nova questão na gestão museológica. A partir daí, tudo está sendo repensado com relação ao papel do museu e a sua função.

O que pode destacar sobre o acervo do MAB? Quais pérolas esse museu guarda?
Fundamental no acervo do MAB é sua coleção de pinturas, que representa a Escola Baiana de Pintura e, de certa forma, é a base da pintura brasileira. Temos José Joaquim da Rocha (1737-1807), Franco Velasco (1780-1883), Teófilo de Jesus (1758-1847), Miguel Navarro y Cañizares (1834-1913), Mendonça Filho (1895-1964), Presciliano Silva (1883- 1965)... É o mais forte, mais vibrante, mais transformador na coleção permanente do MAB. São quase 14 mil peças, tem muita coisa decorativa, como móveis, arte sacra, porcelanas, prataria... E a nossa gestão pretende também abrir uma conversa com a própria configuração do acervo.

De que forma?
Por exemplo, os móveis são da família Góes Calmon. As jóias são de crioulas - não se sabe a quem pertenceram - e isso tem uma marca da nossa trajetória escravocrata. O museu não pode simplesmente legitimar o que a história escravocrata vem afirmando todos esses anos. Nós queremos rediscutir o acervo no sentido também de outras etnias. Uma cidade como Salvador não pode negar o protagonismo do povo negro na construção da civilização, da cidadania brasileira.

Vocês estão pensando em outra exposição/projeto para mostrar esse acervo ao público?
Existe um projeto para 2018 de dialogar com esse acervo permanente, através de mídias digitais e realidade aumentada. Onde tem os móveis, por exemplo, teria um vídeo, uma holografia, com uma carpintaria do século XIX e os mestres negros construindo aqueles móveis. A ideia é contar a história das pessoas que fizeram aqueles móveis, quem eram, o que faziam na época. É óbvio que não vamos jogar o acervo fora, mas não podemos legitimar esse discurso sem fazer uma reflexão. É um discurso aristocrático que precisa ser discutido. Na parte que só tem escultura religiosa sacra, por exemplo, pensamos em colocar vídeos que mostram o ritual indígena, com tambores e um jogo de luz. Tudo isso se comunicando, sem que uma coisa seja melhor ou pior do que a outra.

Em cartaz no MAB, pinturas de Juraci Dórea são inspiradas na xilogravura (Foto: Betto Jr./CORREIO)

A programação das exposições é predominantemente gratuita, mas o número de visitantes ainda é baixo. Em sua avaliação, por que isso acontece?
Primeiro, porque o museu se fechou muito. Todos os museus do mundo se fecharam muito para especialistas e estudiosos. Os museus não têm se constituído em espaços interessantes para visitação. Agora é que está havendo essa discussão para o museu se abrir. Como ele vivia com “a gravata muito apertada”, sofreu suas consequências. É claro que a visitação está pequena, a não ser que seja o Louvre, que tem uma estrutura internacional e é reconhecido no mundo inteiro. Acredito que é uma questão da própria concepção do museu. Não acredito que seja porque as pessoas sejam burras ou não tenham cultura, mas por conta da própria estrutura que o museu preservou: é um espaço para poucos. O MAB está querendo se constituir em um espaço de diálogo mesmo, conversa constante com a cidade de Salvador.

Quais são as principais estratégias para levar o público para o museu? Que caminho seguir?
Uma coisa que estamos desenvolvendo é estar atento para as questões conjunturais da atualidade. O Brasil, por exemplo, está passando por uma questão política muito forte, que se colocou como uma questão importante dos últimos tempos. Você não vai fazer política partidária, é claro, mas precisa ter uma conversa com seu tempo. Nós discutimos todas as movimentações, desde o impeachment de Dilma, por exemplo, trazendo especialistas para debater a conjuntura. Outro caminho é estar aberto para as diferentes linguagens e poéticas: dança, teatro, performance... Para isso, criamos os programas Diálogos Contemporâneos e o Laboratório de Experimentação Estéticas do MAB (para as experimentações das pessoas que estão começando). Se você não tem um espaço como esse, o cara que está começando, experimentando, fica sem ter onde mostrar suas inquietações e experimentações. Precisamos incentivar a pesquisa, a dúvida, a incerteza.

Apesar das dificuldades, você é otimista?
Sou sempre otimista, mas você precisa ter projetos claros e viáveis. Não adianta ficar no otimismo sonhador com projetos inviáveis. Temos realizado projetos viáveis, por isso temos conseguido materializar essas ações. Acredito que essa crise imensa, esse nó que o país esta dando, vai servir de aprendizado para todos nós, em todas as áreas. O Brasil vai sair mais fortalecido enquanto povo, cidadania, enquanto nação. Temos que acreditar, não é, não? O manto da caretice está querendo tomar o país. Mas o Brasil é muito mais bonito, vibrante e criativo que esse manto da mediocridade que está solto por aí.


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