DJ Sankofa conta trajetória de Gana até Salvador

Somos
15.11.2013, 09:19:00
Atualizado: 15.11.2013, 13:24:20

DJ Sankofa conta trajetória de Gana até Salvador

“Gana é um país poligâmico, vivíamos todos na mesma casa e lá não havia tratamento diferente para os filhos", conta sobre o país de origem




Carla Trabazo e Victor Lahiri


Na Ladeira de São Miguel, no coração do Centro Histórico de Salvador, uma grande porta verde entreaberta liga a Bahia a Gana. Na parede do casarão amarelo, uma placa indica o nome do local: Sankofa African Bar. Lá dentro, o protagonista desta história adentra o ambiente um pouco esbaforido, pede desculpas pelo atraso de 20 minutos e se queixa do calor que faz na cidade, cerca de 34ºC.

Tênis brancos, shorts jeans, camisa vermelha, dreadlocks e fala rápida em um sotaque carregado, Justine Lloyd Ankai Macaidoo se dirige, antes de tudo, ao bar para pegar uma latinha de cerveja. “Vocês gostariam de um copo?”, pergunta. A equipe de reportagem recusa. “Mas é bom para soltar um pouco mais a conversa, vai lhes ajudar a organizar as perguntas”, argumenta rindo.

Entre aquelas paredes que já testemunharam muito som e arte à noite, DJ Sankofa, como é mais conhecido, vê em cada detalhe da decoração do bar o pedaço de uma história que começou em 1974, em Cape Coast, antigo centro de escravos e capital de Gana, um país espremido entre Togo, Burkina Faso e Costa do Marfim, na África Ocidental.

Filho mais velho da união entre John Kwesi Ankai Macaidoo e Veronica Ogoe, Sankofa tinha cinco irmãos de suas quatro madrastas e apenas uma irmã caçula por parte de pai e mãe. “Gana é um país poligâmico, vivíamos todos na mesma casa e lá não havia tratamento diferente para os filhos. Quem fazia a comida naquele dia cozinhava para todos, quem lavava as roupas lavava para todos. Mas o carinho que cada mãe tinha com seus filhos era diferente.”


Sankofa (segundo da direita para esquerda) em Gana com irmão e primos

A infância foi humilde. Mesmo perdendo a mãe aos seis anos para o câncer de mama, Sankofa viveu como praticamente qualquer garoto da mesma idade. “Jogava bola na rua, brincava e adorava roubar comida na casa da minha avó. Quando fazia algo errado, preferia apanhar na escola a levar advertência para meu pai, que era muito disciplinador”, recorda. 

Aos 15 anos, precisou se distanciar da família. Tornou-se interno na escola técnica Asuansi Technical Institute, na mesma Cape Coast, em 1990, onde estudou arquitetura. Após três anos, abandonou o ensino técnico e fugiu para a Nigéria, morando em algumas cidades como Aba e Abuja. Lá se profissionalizou como cabeleireiro e usou o dinheiro ganho para se sustentar durante seis anos.

Sua vontade de se aventurar e lançar-se ao mundo lhe guiou de volta a Gana, até chegar aos seus portos. “Me escondia nos navios atracados e tentava viajar para outros países, fui à Europa e à Ásia, mas em todas as vezes fui pego e mandado de volta. Até que em 2001 entrei em um navio que partia de Togo, cheguei em Santos e consegui ficar”. 

Sankofa conta que se escondeu, durante 32 dias, embaixo do motor do navio que ia para o Brasil e, como já havia trabalhado em navios e sabia como tudo funcionava, se esgueirava pelos containers da embarcação para se alimentar. “Comia o que sobrava das refeições da tripulação. Eu pegava escondido antes que jogassem fora”.

A partir daí, ficou dois anos sem contato com a família, que na época não possuía telefone em casa. A primeira ligação ocorreu quando já estava em Salvador, em 2002. Do outro lado da linha, um pedido paternal. “Ele me deu aqueles conselhos que todo pai dá. Tomar cuidado, não usar drogas, essas coisas. Ele não ficou bravo”.

A brasilidade
A princípio, Sankofa não falava português. Foi orientado a buscar uma comunidade de nigerianos que viviam na capital de São Paulo e lá se manteve trabalhando em salões de beleza, até que venceu um concurso em 2001 e ganhou como prêmio uma viagem para Salvador. “O concurso pagou uma estadia de três dias, mas após me hospedar no Pelourinho, decidi ficar. Na época, não tinha dinheiro e precisei negociar com a proprietária do hotel para trabalhar em troca de um teto”. Nesse período ele fez vários trabalhos menores, até que pela fluência na língua inglesa foi ser guia turístico. 


Sankofa como cabeleireiro em São Paulo

O novo emprego lhe deu autonomia financeira para custear a estadia durante quatro anos e, com o dinheiro adquirido, Sankofa comprou seu primeiro equipamento de DJ. “Eu nunca tinha trabalhado com música profissionalmente, mas desde que cheguei, percebi que Salvador era uma cidade que não conhecia a música africana. Capoeira, feijoada e as músicas do Ilê Ayê e do Olodum não são africanas, são afro brasileiras.”

Começava a nascer, assim, a ponte Gana-Salvador. Sankofa se tornou DJ quase que espontaneamente. Gostava de música, porém nunca teve instrução técnica para isso. “Nós fazíamos música para contar histórias. Desde a infância me acostumei com uma realidade onde se alguém morre, fazemos música, se alguém nasce, fazemos música. Em casa, no bairro, sempre havia música.”

Modesto ou não, a questão é que logo aprendeu a fazer suas mixagens, trazendo a verdadeira música africana aos ouvidos dos soteropolitanos. “Minha intenção é que as pessoas enxerguem que a África não é feita de tristeza e doenças. Esse é meu objetivo, expandir o conhecimento, pois as pessoas não entendem a África, acham que é um país miserável”.

Sankofa começou sua lição em 2004, em um bar chamado Crepe da Cidade, no Rio Vermelho. Os frequentadores gostaram da música do DJ, que mudava o som americanizado do ambiente. A partir daí, seu sucesso começou a despertar quando Helder Barbosa, idealizador do portal Aldeia Nagô, lhe convidou para tocar no Réveillon de 2005 da Praia da Paciência.

“Aos cinco minutos de show, as pessoas começaram a jogar garrafas e latas no palco. Nessa época eu não falava bem português, mas eu parei o som, peguei o microfone e falei: ‘boa noite galera, meu nome é DJ Sankofa, eu vim da África e essa é a minha música. Quem já conhece, ouve. Quem não conhece, vamos conhecer. Salvador não é África? Tantos negros aqui e jogando coisas no palco?’. As pessoas começaram a bater palmas e o sucesso começou aí”, relembra.

Sankofa, então, reuniu recursos e se embrenhou pelo Pelourinho para abrir seu centro cultural, o Sankofa African Bar. Inicialmente, em 2006, o local se chamava Bar Lugar Legal, onde Sankofa pleiteava um espaço para tocar. Isso só foi possível, no entanto, após a Copa do Mundo, em que Gana participou e a mídia entrevistou o DJ, que até então não era residente do bar. “Quando o proprietário me viu na reportagem da TV, me ligou e chamou para vir tocar uma vez por semana. Na época, ele já estava encerrando as atividades e me ofereceu o ponto”.

Tomado o bar, batizou o nome do estabelecimento com o mesmo que adotou para DJ, que significa um provérbio tradicional entre os povos da maior tribo de Gana, Akan, a qual  pertence. “Se wo were fi na wosan kofa a yenki” ou “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu.” Durante sete anos, o DJ cumpriu sua missão, trazendo informação, cultura e música africana ao público, que começou a reconhecer aspectos da África. “Nessa casa você ouve música de vários países e o visual foi todo planejado. Não foi pensando em ‘vamos fazer dinheiro’, mas sim em criar uma casa cultural; uma escola. As pessoas começam a cultivar esse conhecimento”, conta.

O DJ já espalhou um pouco dos seus ensinamentos musicais pelo Brasil afora, tocando em Florianópolis, Recife, Maceió, Aracajú, Santos, Campinhas, Cachoeira e Feira de Santana. “O que eu quero é ver música africana tocando em todos os lugares. Cada dia é um desafio. Eu não sei de onde tirei esse espírito, mas me dá vontade de ir até o fim”.

Pedras no caminho

O contato com o racismo, coisa que, segundo ele, não existe em seu país de origem, foi apenas a primeira das barreiras que o DJ precisou superar. “Depois da abertura do Bar, o que já era difícil ficou ainda pior. A perseguição, a pressão por parte de diversos policiais para fechar a casa, mas eu não desisti”, comenta com ar sombrio. 

No mês de agosto, a Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (Sucom), em operação conjunta com a polícia militar, apreendeu o equipamento de som da casa sob as acusações de pendência no alvará para uso de som e de volume de decibéis acima do permitido no horário. Sankofa questiona a ação, “o Pelourinho sempre foi um local de entretenimento, essa não foi a primeira vez que a polícia veio aqui me provocar. Há alguns anos os policiais entraram no bar querendo acabar com a festa, eu os enfrentei e disse que só estavam fazendo aquilo por causa da farda. Desacato! Fui preso”, argumenta indignado.

Na opinião de Sankofa, a omissão do poder público é um ponto crucial na extinção de iniciativas culturais como o bar que ele hoje luta para manter em funcionamento. “Todos os projetos e iniciativas que me envolvi até hoje nunca tiveram qualquer incentivo do governo ou de órgão públicos. Na maior parte das vezes, tiro dinheiro do meu próprio bolso ”. É assim com o programa na Educadora FM, a Rádio África, que há seis anos espalha a música africana todas as quintas, às 21h. “É o primeiro programa na FM brasileira a ser inteiramente voltado para a música africana. Amo fazer”, conta. Seu projeto no Vale do Capão, parado há dois anos sem incentivo, mobilizava famílias locais para ensinar a plantar no solo fértil de seus quintais.

Já cansado de seus impasses com a justiça, Sankofa pensa em fechar o bar apenas por motivos de exaustão. “Eu vou continuar de outra forma. Eu faria tudo de novo, mas agora estou cansado de opressão. O problema de Salvador é tão grave que se as comunidades se mobilizassem, eles conseguiriam resolver os seus problemas”, explica.


DJ em entrevista no Sankofa African Bar

Aos 39 anos, é pai de Zara Zorzoli, 10 anos, e marido da baiana Soraia Santiago Ankai Macaidoo. E, apesar de sentir falta da comida típica e dos temperos de Gana, ainda não tem planos de voltar ao país de origem. “O Brasil me deu oportunidades, o Brasil me deu uma filha, me deu patrimônio. Eu não consigo falar mal daqui, foi neste lugar que conquistei coisas que nem o meu próprio país pôde me dar, ganhei amigos, hospitalidade. Talvez depois de velho volte para meu país, mas agora não tenho nada disso na minha mente”, revela, contando ainda que pretende trazer seu pai ao Brasil, de presente de 70 anos. “Mas se ele vier, tenho que trazer as duas esposas, se não vai dar briga e aí vai ser problema”, ri.

O especial Somos é produzido pelo time de focas da quinta turma do Correio de Futuro. Acesse o blog.


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