DNA baiano: sucesso do multicampeão Palmeiras tem raízes na Bahia

esportes
08.03.2021, 19:29:00
Atualizado: 08.03.2021, 23:24:24
Legião de baianos na base: Wesley Carvalho (treinador), Eliezer Ferreira (roupeiro), Ricardo Palmeira (preparador de goleiros), João Paulo, Sérgio Passarinho (observador técnico), Hamilton Mendes (treinador; voltou ao Bahia), Gilmey Aimberê (aux. té (Acervo pessoal)

DNA baiano: sucesso do multicampeão Palmeiras tem raízes na Bahia

João Paulo Sampaio, nascido em Feira de Santana e dedicado ao Vitória por anos, coordena legião de conterrâneos na base do clube paulista

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O Palmeiras venceu a Copa do Brasil pela quarta vez em sua história ao bater o Grêmio no último domingo (7). Foi mais um troféu na temporada 2020 do alviverde paulista, que também faturou o estadual e a Libertadores. O ano marcou também um Palmeiras mais jovem, recheado de talentos da divisão de base. Esse sucesso nascido das categorias inferiores tem DNA baiano.

Coordenador da divisão de base do clube paulista, João Paulo Sampaio é baiano de Feira de Santana e chegou à terra da garoa em 2015. Jogador de futebol até os 22 anos, ele decidiu cursar Educação Física. "O futebol estava me usando muito, era momento de estudar", resumiu. Pouco depois, foi chamado para trabalhar no Vitória, onde ficou nove anos como coordenador da base e outros seis meses como gerente do time profissional, em ciclo encerrado no fim de 2014. 

Nesta entrevista ao CORREIO, o feirense falou sobre o trabalho no Palmeiras, desde o início até a consagração dos garotos formados na Academia. João Paulo também abordou sua relação com o futebol baiano, especialmente o Vitória, e com os colegas de trabalho conterrâneos, seja nas comissões técnicas da base alviverde ou na descoberta de garotos como o volante Danilo e o atacante Wesley, descobertos na Bahia e titulares do campeão da América e da Copa do Brasil.

Trata-se de uma legião de baianos escolhidos a dedo para trabalhar nas categorias inferiores do clube, do infantil ao júnior. Além da turma presente na foto acima (destes, Hamilton Mendes saiu em janeiro para ser auxiliar do time de transição do Bahia), ainda faltam os preparadores físicos Lucas Itaberaba e Vinícius Martins Franco e a mais nova aquisição: o treinador de goleiros Luciano Oliveira Júnior, que deixou o elenco profissional do Vitória em fevereiro para assumir o cargo no sub-20 do Palmeiras. 


João Paulo Sampaio coordena as divisões de base do Palmeiras
Foto: Arquivo pessoal


Muitos profissionais baianos trabalham nas divisões de base Palmeiras também. Foi você que os levou para o clube?
Sim. A comissão do sub-20 é basicamente feita de baianos. Muitos deles eu conheci no Vitória, e lá é uma grande escola, também, de profissionais para a base. Esses caras trabalharam junto comigo, cresceram comigo lá, então é mais fácil trabalhar com quem já te conhece. Eles sabem como eu gosto do trabalho.

Em relação ao Vitória, qual o maior legado que você acredita ter deixado para o clube?
Acho que o maior legado foi ter deixado bons profissionais, inclusive depois eu tive que vir buscar Wesley (risos). Mas sem dúvida ter ajudado a revelar uma geração com caras como David, Léo Ceará, Ramon, antes disso com Gabriel Paulista, Elkeson. O Vitória continuou como uma marca forte na base depois que eu saí, e com profissionais competentes que permaneceram no clube.

Você acha que Bahia e Vitória utilizam bem as suas divisões de base, no que se refere a desenvolvimento, aproveitamento e venda de atletas?
Acho que sim. Claro que o Vitória diminuiu o investimento por conta da queda para a série B, mas segue aproveitando muito bem. O Bahia vem se consolidando como clube forte, até nos eliminou na Copa do Brasil sub-20, está no caminho para uma situação melhor. O Vitória vai sempre aproveitar a base por ser uma marca maior. Ainda mais nesse cenário de crise, é preciso olhar para a base para ser a solução do futebol, é um caminho para salvar o clube, no sentido dele ser autossustentável.

O que te fez aceitar a proposta do Palmeiras à época?
Antes de tudo eu estava desempregado, porque saí do Vitória em 2014. Tive proposta para trabalhar no profissional, mas não queria no momento. Apesar do Palmeiras não ser referência da base naquele momento (2015), o clube era uma potência, além do próprio estado de São Paulo. Foi logo na profissionalização da divisão de base do clube, com a chegada de Cícero Souza (gerente de futebol) e Alexandre Mattos (diretor de futebol), então o projeto era bem interessante, tanto pelo clube quanto pela cidade.

Você chegou ao Palmeiras na época que o clube acertou patrocínio com a Crefisa. Essa injeção financeira mudou o clube na base também?
A Crefisa não interferiu no investimento da base, pelo contrário. Eu tive que cortar custos quando cheguei, e o gasto que era de R$ 18 milhões virou de R$ 13 milhões, R$ 14 milhões nos primeiros anos. Esse cenário só mudou com o trabalho e os resultados dentro de campo, para consolidar o Palmeiras como uma referência de formação de atletas, títulos na base, até a chegada nas seleções brasileiras das categorias.

Qual foi a maior mudança que você viu acontecer na base do Palmeiras nesse tempo?
O Palmeiras não era referência na base, nem para revelação de atletas nem para venda. Entre 2015 e 2019, o clube arrecadou R$ 293 milhões com venda de atletas da base, enquanto gastou R$ 90 milhões. A maioria desses jogadores sequer chegou ao profissional. Tem uns que a gente tem porcentagem também, a exemplo de Patrick de Lucca e Matheus Bahia, que são titulares do Bahia.

O sucesso do Palmeiras de 2020 passa muito pela base. Quando você percebeu essa mudança, depois de tantos anos com poucos garotos projetados?
Entre 2017 e 2019, o Palmeiras conquistou muitos títulos na base e chamou atenção pela consolidação. Todo mundo viu que a gente estava vendendo jogador para a Europa, e que era o momento dos meninos brilharem. Já na pré-temporada, planejamos levar de 10 a 12 garotos para a Flórida Cup. Lá eles já chegaram com a confiança dos títulos que estavam levando na base. Eles não chegaram lá para serem coadjuvantes, e já tomaram a posição de protagonistas. Ao todo, fizemos 16 estreias em 2020, sendo 13 com idade de base ainda (até 20 anos).

Você tem participação direta no futebol profissional?
É uma demanda diária. Como o calendário das categorias menores diminuiu por conta da pandemia, viajei com a delegação no Mundial de Clubes, antes na Libertadores, também vou assumir algumas coisas no Campeonato Paulista. São demandas do presidente e do clube, que queriam que eu trabalhasse só no profissional, mas eu não aceitei. Atualmente tem 15 funcionários que eram da base e estão no profissional, e querem que eu esteja lá também. Quem apresentou a estrutura para Abel Ferreira (atual técnico) fui eu, na época de (Vanderlei) Luxemburgo também estava lá.

Quais são os próximos objetivos do Palmeiras para a base, após essa temporada muito bem sucedida?
Eu digo que é sempre manter a fome alta. O sarrafo aumenta, a própria procura pelo Palmeiras na base também. A ideia é ter sempre uma divisão de base com jogadores para servir o profissional, e isso tem. O clube vai ter um futuro de muitos anos brilhantes pela frente. Hoje, 40% a 50% do elenco profissional é de jogadores da base, que custam 10 vezes menos que um cara que vem de fora. Em 2020 nós baixamos em R$ 5 milhões (por mês) a folha salarial do clube.


*Sob orientação do editor Herbem Gramacho

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