Do Curuzu ao Vaticano: os bastidores de quando o Ilê Aiyê 'invadiu' a cidade do papa

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07.11.2020, 06:04:00
Atualizado: 07.11.2020, 22:19:01

Do Curuzu ao Vaticano: os bastidores de quando o Ilê Aiyê 'invadiu' a cidade do papa

O Mais Belo dos Belos representou a Bahia no Festival de Cinema em Roma e encantou os italianos

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Em 2008 eu tive o privilégio de presenciar um fato muito significativo. Em Roma, também chamada de Cidade Eterna onde fica situado o Vaticano maior símbolo da igreja católica com seus papas seculares, o Ilê Aiyê - que completou 47 anos essa semana -  foi participar da 3ª edizione del Festival internazionale del film di Roma com todo o simbolismo de um bloco afro, nascido no Curuzu, chancelado por um terreiro de candomblé o Ilê Axé Jitolu, comandado por Mãe Hilda Jitolu.

Na capital italiana todos ficamos hospedados num hotel em Campo de Fiore e a apresentação do Ilê estava programada para a abertura do evento na Piazza Navona,  uma das mais célebres praças de Roma. A sua forma assemelha-se à dos antigos estádios da Roma Antiga. E é nesta mesma praça que fica localizada a Embaixada do Brasil que serviu de base para o pessoal do Ilê se concentrar até iniciar sua apresentação.

Com suas belas vestimentas e um som contagiante sob o comando do maestro Mário Pam, o Ilê Aiyê, que viajou para representar a Bahia a convite do músico Arto Lindsay, deu um show que emocionou não somente os brasileiros como os italianos que pareciam extasiados com o que via. Além do Ilê se apresentaram também Vanessa da Mata, Davi Moraes e Spok Orquestra de Frevo de Recife. Passados 12 anos, Mário Pam relembra daqueles momentos que ele considera inesquecíveis.

Foto: Acervo Pessoal

“Essa viagem foi muito importante para a gente, foi um grande encontro de artistas com o Ilê Aiyê representando a Bahia com sua música afro. Esse convite chegou em boa hora. Imagine, meninos jovens do Curuzu, bairro da Liberdade em Roma, passeando naquele lugar maravilhoso, visitando o Vaticano e ainda tocando como artistas. A gente tocou nas ruas de Roma e o povo ficou enlouquecido com aquela percussão forte. E a gente estava muito empolgado também. E Graças a Deus a gente conseguiu fazer aquela missão. Bloco afro com Orquestra de ciganos, Orquestra de frevo de pernambucano tocando juntos. Aquela loucura positiva. Eu acho que quem ficou feliz foi o povo italiano, os brasileiros que moram na Itália. Para a gente foi maravilhoso. Acho que a nossa música se enquadra m qualquer ambiente. E esse festival serviu para mostrar que a música afro tem poder”.

Além da apresentação na Piaza Navona, a turma do Ilê chamava a atenção por onde passava. Do Vaticano ao Coliseu aquelas pretas lindas com seus turbantes suas roupas coloridas o belo sorriso e todo o dengo baiano encantavam os romanos. Alguns mais atirados “paqueravam” abertamente, jogavam charme. Uma festa. No meio do caminho encontramos um italiano que tinha morado em Salvador no bairro de Itapoã e quando viu o grupo ele não se conteve: “eu já morei em Salvador e conheço o ilê. Que saudade eu senti agora”, falava emocionado num português misturado com italiano.

Responsável por levar o Ilê Ayé para Roma, o músico Arto Lindsay também tem muita importância na discografia do Mais Belo dos Belos. Batizada com o nome de "Canto Negro", é composta por quatro discos. No CD "IV Canto Negro", lançado em 1998 e produzido por Arto Lindsay, foram gravadas músicas que fizeram sucesso ao longo dos primeiros 25 anos do bloco. Pela Band'Aiyê já passaram grandes mestres da percussão baiana, como Mestre Bafo, Mestre Carneiro, Mestre Eron, Mestre Mulçumano, Mestre Valter, Neguinho do Samba, Mestre senac, Mestre Prego, Ninha, Robertinho Alazarrô, Carlinhos Brown, Ademir. O Ilê Aiyê já se apresentou em inúmeros países, a exemplo de Angola, Benin, Estados Unidos, França, Alemanha, Dinamarca, Equador, Colômbia e Argentina.

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