É possível falar sobre doenças e temas difíceis com as crianças

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24.05.2021, 05:00:00
O livro Bia Liga-Desliga aborda a epilepsia (Ilustração: Micaela Ferreira/Divulgação)

É possível falar sobre doenças e temas difíceis com as crianças

Especialistas apontam que o lúdico dos livros é um importante aliado

Como falar sobre doenças e temas difíceis com o público infantil? Epilepsia, morte, relacionamento abusivo e racismo são assuntos para um papo “de criança”? Especialistas defendem que não só devem ser abordados com os pequenos, como existem formas leves e atraentes de fazer isso. É aí que entram os livros e outras linguagens artísticas para facilitar o diálogo.

Com o suporte do lúdico talvez tivesse sido uma experiência menos traumática ver o filho de 2 anos desacordado no chão, pondera a professora Cátia Simone Paim, 51. Vice-diretora de uma escola de ensino fundamental e ciente do número de alunos que passam por isso, Cátia conta que a realidade do ataque epilético era conhecida por ela, mas a partir do que lia nas revistas científicas e no Google, “de forma aterrorizadora”.

“Um livro para crianças é importante porque traz esclarecimento e leveza”, defende Cátia, sobre a ferramenta que pode auxiliar na compreensão dos pequenos, da família e dos colegas de escola.

“Acho pertinente que existam ferramentas assim, porque as crianças têm que ter acesso a essa informação para quando presenciar o colega ‘desligando’ não se assustar, nem ficar com medo”, justifica.

Cátia optou por não tentar definir à risca o que era a epilepsia para explicar ao filho a necessidade de tomar remédio diariamente, mas, sim, dizer que “se não tomar esse remedinho aqui, você desmaia, desliga”. “O termo ‘epilético’, ao invés de passar a leveza para a situação, pode colocar o foco na doença”, defende a professora que usa o carinho materno para suavizar qualquer susto do caçula, hoje com 11 anos.

Liga-Desliga
“Essa menina sente tontura, mesmo sem rodopiar” foi a forma singela e lúdica encontrada pela escritora baiana Joelma Queiroz para abordar a epilepsia, por exemplo, no livro Bia Liga-Desliga (Editora Inverso | R$ 42), lançado na última semana. Também professora e coordenadora pedagógica, Joelma explica que a ideia do livro surgiu depois de escutar depoimentos de pais e filhos em relação ao preconceito enfrentado nas escolas.

Muitas das crianças se isolam, alerta. “As pessoas acabam se afastando delas por não ter a informação de como apoiar, como proteger. A gente precisa trazer essa informação de forma lúdica, leve”, justifica a autora. No livro, Joelma mostra como é possível controlar o problema e levar uma vida normal, citando pessoas importantes que tiveram a doença, como Machado de Assis, Van Gogh e Dom Pedro I.

Capa do livro Bia Liga-Desliga, da escritora baiana Joelma Queiroz, que aborda a epilepsia

Ter epilepsia não é sinal de fracasso, reforça, e “informação é a melhor maneira de combater o preconceito”. “O livro é um convite à reflexão desses estigmas, porque temos mais de 3 milhões de brasileiros com epilepsia, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), e no mundo são mais de 50 milhões de pessoas. Meu objetivo é fazer com que o leitor se mobilize e realmente viva a empatia”, deseja.

Tempo
A dislexia e outros distúrbios de aprendizagem, por outro lado, vão virar personagens do livro Tempo que será lançado em 2022 pelo filósofo, ator, roteirista e diretor carioca Rodrigo França, 43. Diagnosticado com dislexia e famoso por sua participação no Big Brother Brasil, Rodrigo também é autor de O Pequeno Príncipe Preto (Nova Fronteira | 32 páginas) e O Pequeno Príncipe Preto para Pequenos (Nova Fronteira | 32 páginas), versões do clássico do francês Saint-Exupéry (1900-1944) que aborda temas como morte, autoestima e relacionamento abusivo.

Habilitado para educação infantil e ensino fundamental, com especialização em psicopedagogia clínica institucional, Rodrigo acredita que o adulto “hipervaloriza tudo e constrói o juízo de valor que cria o preconceito, a discriminação”. Autor que escolheu um protagonista negro para o clássico infantil, ele defende que “se você naturaliza a história, não está hipervalorizando o grupo que você participa nem preterindo outro”.

O Pequeno Príncipe Preto para Pequenos é uma versão adaptada com textos mais curtos para os leitores mirins
O Pequeno Príncipe Preto para Pequenos é uma versão adaptada com textos mais curtos para os leitores mirins
O Pequeno Príncipe Preto é uma versão do clássico do francês Saint-Exupéry (1900-1944)
O Pequeno Príncipe Preto é uma versão do clássico do francês Saint-Exupéry (1900-1944)
Autor de O Pequeno Príncipe Preto, Rodrigo França é formado em filosofia, é ator, roteirista e diretor carioca
Autor de O Pequeno Príncipe Preto, Rodrigo França é formado em filosofia, é ator, roteirista e diretor carioca (Foto: Robson Maia/Divulgação)
Joelma Queiroz é autora do livro Bia Liga-Desliga
Joelma Queiroz é autora do livro Bia Liga-Desliga (Foto: Divulgação)

Constantemente questionado sobre como viabilizar uma educação antirracista para crianças e jovens, Rodrigo defende que o primeiro passo é o adulto ser antirracista. “Por mais que essa criança seja alfabetizada, o adulto deve estar junto, em diálogo após a leitura porque é quando vem a naturalização de temas que a gente acha espinhosos. É aí a gente constrói uma criança com maturidade e um adulto com maturidade”, indica.

Por isso, Rodrigo defende ser possível falar de quase tudo com as crianças, “mas a gente tem que utilizar o lúdico”. “Ele tem uma vantagem: naturaliza alguns temas que nós achamos que são difíceis. O lúdico possibilita que esses temas possam ser falados desde sempre, com afeto, com carinho, com o filtro da tranquilidade”, resume.

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