"É uma questão de cunho moral", diz Vilas-Boas sobre venda da vacina da Pfizer

bahia
22.01.2021, 06:30:00
Atualizado: 22.01.2021, 07:03:24

"É uma questão de cunho moral", diz Vilas-Boas sobre venda da vacina da Pfizer

Secretário de Saúde da Bahia critica empresa por, depois de realizar testes, se recusar a vender imunizante ao estado

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Na manhã de quinta-feira (21), o secretário de saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, publicou no seu perfil em uma rede social a declaração de que a farmacêutica Pfizer, mesmo tendo feito testes com voluntários no estado para o desenvolvimento da sua vacina, estaria agora se recusando a vender doses para a Bahia. 

Em entrevista ao CORREIO, Vilas-Boas falou sobre o contato estabelecido entre o governo da Bahia e a representante da Pfizer no Brasil, ainda em 2020. “Nós tivemos uma reunião com o presidente da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, e com toda a diretoria deles no dia 23 de setembro. Eles ofereceram a vacina para nós comprarmos, mas eles queriam que nós pagássemos antecipado. Nós explicamos que não era possível pagar antecipado porque a vacina não tinha nem registro na época no Brasil”, conta.

Segundo o secretário, a vacina foi colocada à disposição do estado da Bahia mas, agora, não poderá ser adquirida porque as doses produzidas já foram alocadas para outros países que assinaram acordos com a Pfizer ainda no ano passado.

“É uma questão de cunho moral, compromisso, porque a empresa não pode simplesmente se servir de um povo e, depois, na hora que o benefício está disponível, virar as costas e vender para outro. Isso eu considero algo de uma infração ética e moral da Pfizer”, acusa Vilas-Boas.

De julho a novembro, cerca de 2.900 brasileiros participaram como voluntários do estudo da BNT162b2, vacina contra a covid-19 desenvolvida pela Pfizer e BioNTech. Na Bahia, foram 1.549 voluntários durante a Fase 3 do estudo clínico, que foi conduzido pelo Centro Paulista de Investigação Clínica (Cepic), em São Paulo, e pelas Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), em Salvador. De acordo com o secretário de saúde, a Bahia investiu tempo e dinheiro tanto para contribuir com os testes quanto para receber as doses da vacina. 

Foram cerca de R$ 1,5 milhão investido na Osid e na aquisição de 30 ultracongeladores com capacidade de chegar a até 80 graus negativos, temperatura em que deve ser mantida a BNT162b2, especificamente.

“Nós baianos nos oferecemos como voluntários para a pesquisa deles. Nós fizemos o apoio financeiro ao centro de pesquisas de Irmã Dulce para ajudá-los a desenvolver essa pesquisa. [...] Em função disso, ainda que não tenha sido feito um contrato com pagamento antecipado, que era uma coisa ilegal, que não poderíamos fazer, ainda assim, nós preparamos o estado para receber a vacina e estamos aptos”, pontua o secretário.

Vilas-Boas revela que a representação da Pfizer no Brasil afirmou que novas negociações com os estados brasileiros só poderão ser feitas após tratativas da farmacêutica com o governo federal. 

Procura pelo CORREIO, a Pfizer respondeu, em nota, que a condução dos estudos para elaboração da vacina não esteve atrelada a aspectos comerciais e confirmou que mantém conversas com o governo federal para um possível fornecimento da vacina. 

“Em setembro de 2020, a Pfizer teve reunião com o governo da Bahia para entender o interesse do estado sobre uma possível compra antecipada de doses. Participaram do encontro o governador do Estado da Bahia e o Secretário de Saúde Fábio Vilas-Boas, entre outras pessoas, e naquele momento, a proposta foi declinada. O cenário de disponibilidade da vacina tem mudado significativamente, priorizando os países que fizeram uma aquisição antecipada ainda no ano passado”, diz a nota. 

Pfizer começa a vacinar quem tomou placebo
A Pfizer anunciou que começará a imunizar neste mês os voluntários que receberam placebo durante os testes no Brasil da vacina contra covid-19 desenvolvida pelo laboratório em parceria com a BioNTech. Em comunicado, a companhia informou que participantes do estudo em São Paulo e Salvador vão receber gratuitamente duas doses do imunizante.

Apesar de a vacina não ter sido avaliada para uso no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Pfizer disse em nota que “o procedimento está de acordo com as tratativas definidas” junto aos órgãos reguladores brasileiros e “faz parte do termo de consentimento assinado pelos participantes no início da pesquisa”.

O Centro de Pesquisa Clínica das Obras Sociais Irmã Dulce informou ao CORREIO que já está entrando em contato com os voluntários do grupo placebo para agendar o dia da vacinação. A meta é entrar em contato com todos os participantes até domingo e a aplicação da vacina irá ocorrer na próxima semana, a partir de segunda-feira. Dos 1.549 voluntários baianos que participaram do estudo, metade recebeu a vacina e metade o placebo.

O comunicado da Pfizer diz ainda que os resultados da pesquisa, ainda em andamento, demonstraram que o imunizante tem 95% de eficácia contra o novo coronavírus e que todos os participantes seguirão em acompanhamento no estudo, conforme estabelecido em protocolo. 

“Países como Estados Unidos, Japão, Israel, Canadá, Reino Unido, Austrália, México, Equador, Chile, Costa Rica, Colômbia e Panamá, assim como a União Europeia e outros tantos, já garantiram um quantitativo de doses da vacina desenvolvida pela Pfizer e BioNTech para dar início à imunização de suas populações. No Brasil, a empresa segue com o processo regulatório de submissão contínua de sua vacina junto à Anvisa”, finaliza.

A promessa da Pfizer, porém, era de que, em dezembro, quem tivesse recebido placebo, recebesse a vacina. O correio revelou em matéria publicada nesta quarta que os voluntários da Pfizer - e da Oxford/AstraZeneca - ainda não sabem se tomaram a vacina ou o placebo. A demora para fornecer respostas e completar a imunização de todo o grupo provocou irritação.

“Eu acho que é uma demonstração de falta de compromisso com as pessoas que serviram como voluntários para eles”, diz o secretário Fábio Vilas-Boas.

A voluntária no estudo da Pfizer e empresária Bárbara Martins, de 31 anos, concorda. Ela ainda não foi informada se tomou a vacina ou o placebo. “Soube pelo jornal do início da vacinação de quem tomou placebo. É um alívio, porque partimos de uma perspectiva de ‘talvez nunca’ para um ‘talvez na semana que vem’. Mas, acredito que a demora seja culpa do processo burocrático do país. Só fico chateada porque o mundo já está se vacinando com a Pfizer e, para que essas pessoas se vacinassem, precisou que eu, aqui no Brasil, fosse voluntária. Eu, que tornei possível que a Pfizer vendesse a vacina para o mundo inteiro, nem sei se fui vacinada ou não”, desabafa Bárbara.

Esperança na Sputnik V

A Hungria se tornou o primeiro país da União Europeia a aprovar o uso emergencial da vacina russa anti-Covid Sputnik V. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (21) pelo fundo soberano da Rússia (RDIF), que financia o imunizante. 

Na última quarta (20), o RDIF pediu à Agência Europeia de Medicamentos (EMA) autorização para uso emergencial da Sputnik V na União Europeia. Caso a EMA aprove o pedido, uma lei brasileira de maio de 2020, pode levar a Anvisa a aprovar também. É que a Lei 14.006 obriga o órgão a avaliar em até 72 horas, ou três dias corridos, "quaisquer materiais, medicamentos, equipamentos e insumos da área da saúde sujeitos à vigilância sanitária" que tenham sido aprovados por quatro agências estrangeiras consideradas referências, entre elas, a EMA. 

A regra vai além e estabelece que, caso a Anvisa não analise o pedido neste prazo de três dias, a autorização será "concedida automaticamente".

O diretor do RDIF, Kirill Dmitriev, afirmou na quinta que a União Química, farmacêutica brasileira responsável pela produção da vacina experimental contra covid-19 Sputnik V, já começou a fabricar o imunizante no Brasil.

Outra pressão contra a Anvisa vem aqui da Bahia. O governo do estado entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo permissão para comprar os imunizantes russos. A Bahia tem um acordo de cooperação firmado com o fundo responsável pela distribuição do imunizante, prevendo o fornecimento de até 50 milhões de doses. 

Agora, a Anvisa tem até sexta (22) para confirmar ao STF se recebeu o pedido de autorização temporária para uso emergencial da Sputnik V formalizado pelo Governo da Bahia. A entidade também deverá informar o estágio de análise do requerimento e eventuais pendências para a aprovação do imunizante.

O cenário é de corrida contra o tempo, já que a União Química, que já tem 10 milhões de doses disponíveis para serem encaminhadas ao Brasil, não deve aguardar por muito tempo. Na previsão da farmacêutica, as doses produzidas em solo brasileiro podem ser destinadas a países vizinhos que já autorizaram a vacinação com a fórmula russa, como Argentina e Bolívia.

Para o secretário de saúde do estado da Bahia, Fábio Vilas-Boas, a situação do fornecimento de vacinas no país é caótica,

“Nós estamos na iminência de ter um apagão de vacinas, de termos recebido essa primeira quantidade e passarmos alguns meses sem qualquer vacina para o povo brasileiro, não só para a Bahia”, afirma. 

Vilas-Boas ainda acrescenta que a Bahia não vai ficar aguardando o governo federal. “Nós estamos ativamente nos mexendo. Demos entrada no STF, estamos pressionando a Pfizer, estamos buscando diretamente a aquisição na China. Não estamos parados, estamos fazendo todo o possível para encontrar uma solução para a Bahia”, afirma.

*Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo

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