Em Salvador, Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá falam sobre política, literatura e ódio nas redes sociais

Literatura
11.05.2016, 12:15:00
Atualizado: 11.05.2016, 15:28:22

Em Salvador, Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá falam sobre política, literatura e ódio nas redes sociais

Capital baiana recebeu estreia do projeto Você É o Que Lê nesta terça-feira (10)

Xico Sá escreveu sobre Maria Ribeiro, que elogiou Gregório Duvivier, que não “curtiu” nenhuma das postagens feitas por ela em quatro anos de admiração intelectual.

Essa matéria começa inspirada nos versos do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, um dos poetas preferidos de Duvivier que veio a Salvador participar da estreia do 'Você é o Que Lê', ao lado de Maria Ribeiro e Xico Sá. Pelos próximos meses o projeto irá percorrer outras cidades-sede da Livraria Cultura no Brasil: Recife, Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e Belo Horizonte.

(Foto: Carla Galrão/ Divulgação)

Futebol, política e literatura
O encontro propõe um diálogo sobre a influência da leitura na infância e na formação dos autores, mas a conversa em Salvador começou mesmo com a pauta da semana: a conquista do título de Campeão Baiano 2016 pelo Vitória, no último domingo.

“Eu não acredito nessa tal maldição de vice do Vitória. Agora, a outra maldição de vice…”, disse Xico Sá, em referência ao vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB). Durante todo o evento, o trio "esquerda caviar", como são ironicamente chamados pelos oposicionistas, não poupou críticas ao jornalismo, à TV e à conjuntura política brasileira. 

Após alguns minutos de conversa, os três já começavam a desfilar os autores que os influenciaram a ler e também a escrever. Num papo cheio de afinação, até mesmo as referências às obras de iniciação se cruzaram. Duvivier e Maria Ribeiro lembraram a importância da coleção Para Gostar de Ler, que reunia crônicas de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade. 

“Eu sou muito grato à crônica, ela é arrebatadora. Comecei a escrever querendo imitar o estilo de Paulo Mendes Campos, de Luis Fernando Veríssimo, de Antônio Prata – eu comprava a revista Capricho para ler as colunas de Antonio Prata! E assim como a crônica, a poesia tem uma penetração maravilhosa. Bandeira, Drummond, esses caras têm poesias dignas de agendas de adolescentes. Acho que há uma irmandade entre poesia e crônica, já que as duas são positivamente apelativas”, conta Duvivier.

(Foto: Matheus Buranelli/ CORREIO)

Maria Ribeiro disse ainda que até uma série da Globo, O Tempo e o Vento (1985), foi estímulo para iniciar uma nova leitura. “Li Érico Veríssimo e escutei Tom Jobim por causa da série. A TV às vezes é legal [risos]”, afirma. Criado no interior do Ceará, Xico Sá lembrou que os livros chegaram através de um professor. “Minha família não era letrada. Lá em casa, nem a Bíblia chegava, que a gente ainda não estava nesse tempo dos neopentecostais”, brinca.

Dentre os livros lidos mais recentemente pelos três, destaque para Depois a Louca Sou Eu, de Tati Bernardi; Livro dos Bichos, de Roberto Kaz; Saturno nos Trópicos, de Moacyr Scliar e Divórcio, de Ricardo Lísias. 

Bomba-relógio
Os três escritores concordam que o livro é a grande vítima dos tempos modernos e do fracasso da concentração, sobretudo por conta do uso dos celulares conectados às redes. E isso não implica no fim da literatura, nem em termos de qualidade, nem de quantidade. Muito pelo contrário. 

O mote do último livro escrito por Duvivier, aliás, é um pouco esse. Percatempos: Tudo Que Eu Faço Quando Não Sei o Que Fazer nasceu do momento em que ele se viu sem smartphone e com um bloquinho sempre à mão. O livro reúne "brincadeiras de uma pessoa com a mente debilitada, sequelada, mas que gosta de brincar com a linguagem", segundo definição do próprio autor.

“Tudo depende do celular hoje em dia, vivemos coma síndrome da perna vibrando – pensando que o celular está tocando, mesmo com ele a metros de distância. Quando tenho que produzir, escrever, o celular tem que ficar em outro cômodo, só assim consigo me concentrar. Se ele estiver por perto, vou sempre pensar que é um nude, e a gente nunca fica em paz com a possibilidade de ser um nude – mesmo que nunca seja um nude [risos]. Inclusive, para aliviar essa síndrome, costumo sair sem carregador. Deus deu esse tempo, se a bateria acabar, é porque você usou demais”, confessa Duvivier.

(Foto: Carla Galrão/ Divulgação)

Ah, e ele tem uma tática. Nas redes sociais, pouco interage. “Publico meus textos e saio correndo”, diz. Para ele, ainda é muito perturbador interagir com todo mundo que elogia ou critica o que ele publica. Por isso, nem sequer “curtiu” os diversos elogios feitos por Maria a ele nas redes sociais. “Não curti, mas sou muito grato. Sabe aquela florzinha da gratidão no Facebook? Zuckberg criou para eu mandar pra você!”, respondeu ele, aos risos, à intimação pública feita por ela durante a discussão de ontem.

O tempo também parece cada vez mais curto nas redes sociais. “Um vídeo na internet tem de ter três minutos, porque se tem cinco, a pessoa já cansa. Isso é preocupante e uma pena, simplesmente porque tem coisas que não conseguem ser ditas em três minutos ou em 140 caracteres. Isso não é sinônimo de fim de nada, mas é aflitivo e a gente ainda está aprendendo a lidar com isso a nosso favor”, diz Gregório.

Para Maria, viciada confessa em Instagram e Twitter, tudo é mesmo uma questão de formato. Nessas redes, nem ela, que gosta de ler, consegue ler coisas muito longas. Coisas curtas, no entanto, deram vontade a ela de procurar textos maiores. “Acho que as novas gerações vão lidar melhor com isso que eu, que hoje tenho 40 anos. Mas ainda acho que transitar entre todos esses formatos depende de um estímulo sim”, diz.

O livro dela, Trinta e Oito e Meio, é uma reunião de crônicas inéditas e de algumas publicadas enquanto colaboradora da revista TPM. E Maria já prepara outro: 40 Cartas e 1 E-mail que Nunca Mandei. "Escrever sempre foi meu lugar no mundo, mas sempre tive medo, achava que era algo para Clarice Lispector. Eu ainda acho que o grande autor não fala de si, mas eu falo de mim e, no meu primeiro livro, estampei um coração na capa, até para parecer fofo - depois me arrependi, não é fofo, é cruel". Segundo a autora, o livro é resultado de 20 anos de terapia e foi escrito no intuito de tornar as coisas que ela conta melhores, para quem sabe, mais tarde, ela achar que só aconteceu coisas boas. 

(Foto: Matheus Buranelli/CORREIO)

Já o último livro de Xico Sá, intitulado Os Machões Dançaram, é uma espécie de continuidade e revisão do Modos de Macho & Modinhas de Fêmea e também de Chabadabadá – Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea Que se Acha.

A trilogia de crônicas de costumes revela as mudanças de comportamento nas relações amorosas do final do século XX até hoje. Para o autor, o livro é um registro do homem ruim que ele é, mas que tem melhorado e se transformando com o tempo, principalmente com as discussões acerca do feminismo. 

"Eu acho que o feminismo veio para libertar a todos, tanto homens quanto mulheres, assim como o racismo. Faz muito bem e é muito importante. Eu, como homem, acho importante ser constrangido. Tenho vários amigos machistas que têm ficado constrangidos em elogiar uma mulher de forma mais agressiva e isso é fundamental. Faz parte de um processo civilizatório, no qual o Brasil está atrás de vários países", afirmou Gregório Duvivier no bate-papo com a imprensa pouco antes de começar o evento.

Leitor todo poderoso
Falando em mudanças de tempos e de comportamentos, no futuro, tanto escritores, quanto leitores talvez aprendam a se portar melhor na internet. Gregório provoca: "Já pensou comprar Os Lusíadas e com o livro, vir uma série de comentários que todos os leitores já fizeram sobre ele?".

Para ele, é isso que acontece com seus artigos no site do jornal Folha de S. Paulo. "Há uma valorização grande do leitor. O lugar do leitor não é o mesmo do escritor. Você não tem de ter acesso aos comentários feitos por ele ao lado da obra, no mesmo lugar, com a mesma fonte. Não dá pra ter esses conteúdos em pé de igualdade, até mesmo porque muitas vezes os leitores que comentam são bestas reacionárias que se escondem atrás de um apelido para xingar. E isso só empobrece a leitura", opina.

Maria e Xico Sá discordam em parte desse pensamento. Para eles, é sempre enriquecedora a possibilidade de ter muitas pessoas, na maioria das vezes desconhecidas na vida real, comentando sobre algo."Tudo o que tem acontecido nas redes sociais, desde memes, notícias falsas ou ódio, é sintoma de uma época. Temos de estar nesses lugares para dar nossa opinião, mas esperar senso crítico das pessoas não rola", disse Xico Sá.

Ódio e falta de memória
O ódio nas redes sociais, inclusive, é algo que deixa Gregório entristecido. "Para não me afetar a crítica, eu não me importo com o elogio. Eu sou frágil, não gosto de me sentir odiado por ninguém e não sei ser imune ao ódio", desabafa. E ainda há o risco de a escrita se alterar por conta do que dizem.

Mas os três garantem que não vão deixar de tomar partido. "Partido da dúvida. Instaurar a dúvida onde há certeza demais. O jornal é um mar de certeza, há um trilhão de regras para se conseguir isso. A crônica no jornal é justamente deslocar esse lugar da certeza", diz Gregório.

"Uma hora dessa é muito difícil escrever sem uma posição. Tenho andado muito chato, forçado os amigos próximos a escreverem, justamente porque tenho medo de como tudo isso vai chegar nos costumes, no comportamento", completa Xico. 

Para eles, muito do que está acontecendo se deve à falta de memória do país. Para Xico Sá, o deputado Jair Bolsonaro "não é 'Bolsomito', não é Bolsonada, não existe". "Olhem a forma cruel como ele falou da Dilma, isso não existe, isso é crime e espero que não vingue", concluiu. 

Ao falar da importância de se manter viva a memória, Gregório criticou o fato de não ter, no Pelourinho, em Salvador, uma placa em alusão ao tráfico e castigo de escravos no local, nem um museu da ditadura. "Um país que não tem memória e que rejeita seu passado, está condenado a repetir os erros. Vai acontecer! Há um exército de Bolsominions por aí", disse .