‘Estamos vivendo uma crise de civilização’, diz filósofo francês

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12.09.2018, 06:00:00
O filósofo francês Gilles Lipovetsky (foto) debate com o historiador gaúcho Leandro Karnal (Foto: Divulgação)

‘Estamos vivendo uma crise de civilização’, diz filósofo francês

Convidado do Fronteiras Braskem do Pensamento, Gilles Lipovetsky é destaque do evento que acontece dia 17, no TCA

“Estamos perdidos”. É com essa e outras frases de impacto que o filósofo francês Gilles Lipovetsky, 73 anos, chega a Salvador para participar do Fronteiras Braskem do Pensamento 2018. “A consequência da crise das instituições públicas é uma espécie de democracia esvaziada de cidadania, doente, empobrecida”, defende o convidado do evento que acontece segunda-feira (17), às 20h30, no Teatro Castro Alves, com ingressos esgotados.

A partir do tema O Mundo em Desacordo – Democracia e Guerras Culturais, Gilles promete fazer um debate com o historiador gaúcho Leandro Karnal sobre “a nova cara que a democracia assumiu desde a globalização”. Em entrevista ao CORREIO, Lipovetsky deu uma prévia do encontro e conversou sobre temas como crise política, individualismo e educação: “A vida não é somente o consumismo, a vida é criação, pensamento, cultura, arte, e a escola deve preparar o homem para isso”. Confira.

Essa é sua primeira vez na Bahia, certo?
Vim ao Brasil várias vezes, mas não à Bahia. Sou até doutor honoris causa em uma universidade de Porto Alegre! Estou muito encantado em visitar o Nordeste, em descobrir Salvador, que acredito ser muito bonita, ir ao Centro Histórico, patrimônio da humanidade, e conhecer os baianos.

O que irá abordar no encontro com o historiador e escritor Leandro Karnal?
Vamos tratar da nova cara que a democracia assumiu desde a globalização. No que me diz respeito, gostaria de falar sobre o impacto da cultura individualista sobre a democracia, sobre como o individualismo hipermoderno transformou a relação dos homens na vida política. Estamos numa democracia que chamo de hipermoderna, que se caracteriza por uma série de fatores, mas, sobretudo, por uma crise. Vivemos numa época de crise da representação política. Os cidadãos estão decepcionados, não acreditam mais nos líderes políticos, estão desconfiados dos partidos, e é esta nova situação que será objeto de nosso debate. Vamos falar da falta de participação das pessoas nas eleições, sobre aqueles que desistiram de votar, sobre a corrupção, em particular no Brasil, mas também em outros países, e sobre o aumento do populismo na América do Norte, com Trump, e na Europa.
 

O historiador gaúcho Leandro Karnal participa do evento com Gilles (Foto: Tatiana Ferro/Divulgação)

A que se deve a crise das instituições públicas e quais são as consequências?
A consequência dessa crise é  justamente a existência de cidadãos decepcionados com a vida política. Há uma crise de confiança, em particular no Brasil, onde as pessoas não acreditam mais nos partidos de direita, nem nos de esquerda. No Brasil, o ex-presidente está preso, Dilma sofreu impeachment, o atual presidente é amplamente rejeitado pela opinião pública, além dos grandes escândalos que marcam o país permanentemente. Na América Latina, em especial, houve ditaduras, golpes de estado.

É muito grave, numa democracia, quando os cidadãos não têm mais confiança e muitos nem votam mais. A consequência é uma espécie de democracia esvaziada de cidadania, doente, empobrecida.

A primeira causa para essa crise é o colapso das grandes utopias que marcaram a modernidade, desde o século XVIII. Durante mais de dois séculos, os desafios estavam presentes, as grandes esperanças, motivadas pelo progresso, a democracia, de onde brotavam as revoluções. Todos esses sonhos, todos esses ideais não existem mais. As pessoas não acreditam mais nessas coisas, há um mal-estar, e, como também não há mais uma grande crença em relação à história, há uma grande desorientação.

A segunda causa é a impotência da política em relação à economia. No século XVIII, o Estado aparecia aliado à justiça, o Estado deveria salvar os homens das injustiças provenientes das desigualdades sociais. O Estado era a esfera maior, aquele que inspirava confiança, mas, o problema é que com o aumento do poder do mercado econômico, e da globalização, o estado político tem sempre menos poder. É o mercado econômico que comanda tudo. O estado tem muito pouco poder para acabar com o desemprego e reduzir as desigualdades, por exemplo.

Mas, quanto mais o mercado econômico domina, mais aumentam as desigualdades sociais. O Brasil é campeão do mundo nessa questão, existem os muito ricos e os muito pobres.

A terceira causa encontra-se mais na Europa do que na América Latina, são as crises migratórias. Os imigrantes que vêm da África, ou do Oriente Médio, os que passam as fronteiras do mediterrâneo, assim como acontece agora na Venezuela. Na América do Norte, Trump quis construir um muro para impedir que os mexicanos entrem nos Estados Unidos. Esse problema incita o ódio, gera uma espécie de xenofobia que é muito grave para os nossos ideais democráticos e humanistas.

As causas, portanto, muito contemporâneas, são o fim das ideologias, o aumento da globalização capitalista, a falta de poder do Estado e as crises migratórias, que levam as pessoas à desorientação. Quarto fator, sem dúvida, as paixões individualistas provocadas pela busca do bem-estar, do dinheiro, que contribui para a falta de democracia.
 

(Foto: Divulgação)

No Brasil e nos países subdesenvolvidos, a educação funciona bem para as elites, mas não para os pobres. Há solução para esse problema que persiste?
Claro! Eu vejo duas soluções. A primeira diz respeito ao mundo todo, mas em particular, à América Latina: é necessário que todos os países reservem grandes quantias do seu orçamento para investir no sistema educacional. Na América Latina, em geral, os professores não são respeitados. Não podemos ter uma boa educação se os professores são desrespeitados e mal remunerados. É necessário considerar a educação como um investimento para o futuro, não como uma despesa, pois ela permite que o país se desenvolva. Portanto, é necessário que a educação seja prioridade permanentemente, no mundo inteiro. A segunda solução, muito importante, diz respeito às desigualdades que surgem dentro do sistema educacional. Essas desigualdades aparecem muito cedo, já no primeiro ano das escolas onde estudam crianças menos favorecidas. Para essas escolas é preciso encontrar soluções. Por exemplo, é necessário manter salas de aula com poucos alunos, pois só assim é possível ajudá-los.

Ao invés de salas com 25, 30 estudantes, é preciso ter dez ou 12, pois só assim é possível apoiar, acolher e ajudar essas crianças, que, globalmente, vêm de ambientes desfavorecidos.

Se nós desejamos um sistema educacional mais justo, devemos fazer um esforço suplementar nessa fase, ou seja, no primeiro ano escolar, dando melhores condições às crianças pequenas.

Há quem defenda que os governos de países com grandes desigualdades sociais, como o Brasil, não têm interesse em formar pessoas que pensam. O futuro da democracia é a educação?
Sim, absolutamente! A educação é o futuro da democracia do século XXI. O Brasil é um país muito rico por sua vegetação, por seus recursos minerais, mas não é nada disso que vai gerar o emprego do futuro. É necessário investir na educação para dinamizar a economia. Então, acho que a educação pode ser justificada por pelo menos duas razões: a primeira é a necessidade de se formar profissionais que sejam capazes de ter responsabilidades e que possam assumir profissões criativas que o novo mercado propõe.

Não podemos ter desenvolvimento se não tivermos profissionais desenvolvidos também. Isso só pode acontecer a partir da educação.

Uma segunda grande razão é que a democracia tem um ideal humanista, que é justamente de formar pessoas que sejam capazes de ser outra coisa além de simples consumidores.  A vida não é somente o consumismo, a vida é a criação, o pensamento, a cultura, a arte, e a escola deve preparar o homem para isso, para ser mais rico, não só com mais dinheiro, mas mais rico em suas personalidades, com seus gostos e cultura. É uma exigência da democracia. E ela não significa apenas votar, ela é um exemplo de sociedade que tem como ideal o desenvolvimento integral dos homens. É por isso que acho que o século XXI deveria ser o século da educação.

Os estudantes da França estão proibidos de usar celulares nas escolas. O que acha disso?
Essa é uma ótima notícia! A escola não é televisão, não é para se divertir. A escola deve ser um espaço de ruptura da vida cotidiana. Nela, não são os amigos, nem as redes sociais que contam. O professor está lá para elevar os alunos a um estado de cultura superior. Mas, quando os alunos saem da escola, eles podem usar seus celulares e fazer o que quiserem. Nós fizemos uma pesquisa que comprovou que quando os alunos não têm acesso ao celular, durante as aulas, ficam mais satisfeitos, eles ficam mais atentos. Usar o celular quebra a atenção. Acredito que essa é uma medida necessária e que seria ótimo se o Brasil tomasse a mesma decisão. Os pais também devem dar o exemplo e limitar o tempo de uso do celular, eles devem incentivar seus filhos a fazerem outras coisas, tem muito na vida a se fazer.

(Foto: Divulgação)

No livro Da Leveza: Rumo à Civilização do Ligeiro, o senhor aborda o culto contemporâneo à felicidade. De onde vem a leveza postada nas redes sociais?
No livro eu trato do paradoxo de nossa época: nossa civilização valoriza, de todas as formas, a leveza. A leveza técnica, os smartphones, os tablets... Somos a civilização do consumo, do divertimento, do turismo, das férias, da televisão, dos jogos virtuais. Sim, tudo isso é leve, mas, ao mesmo tempo, quanto mais a civilização se apresenta como leve, mais a vida das pessoas não é leve. As pessoas vivem com dificuldade essa época, elas têm muitas incertezas, inseguranças. A família não organiza mais os encontros, a religião existe, mas não prega verdadeiramente o que fala. Assim, nós somos a civilização do leve, mas estamos desorientados.

Os homens criaram uma situação de insegurança existencial e psicológica completa e aí está o problema. Nós vivemos uma espécie de contradição entre o que é mostrado e o que as pessoas vivem realmente. Claro, é essa contradição que encontramos nas redes sociais. As pessoas buscam formas de se encontrar, elas buscam soluções, e desejam um mundo sem tristezas, sem angústias, mas a existência de cada um é pesada.

O casamento, a vida familiar, o trabalho, a educação das crianças, a forma de se alimentar, a inquietude sobre o futuro, a poluição, o aquecimento global, tudo isso nos coloca em situações extremamente difíceis, e que não são, de jeito nenhum, leves. A leveza, em grande parte, é mitológica, não é sentida de fato pelas pessoas. Eu acho que nós temos que enfrentar essa contradição e isso é muito difícil. Não é uma mudança de governo que poderá resolver essa questão, já que a mesma é inerente à civilização. A escola e o governo não existem para nos dar felicidade; o governo não existe para administrar a felicidade das pessoas, pois, do contrário, estaríamos no totalitarismo.

Não devemos ter uma política da felicidade, porque é muito perigoso, mas, nós devemos encontrar ocasiões de nos dar momentos de felicidade e de afastar certas infelicidades, o que é mais modesto, mais viável. Para a felicidade ninguém tem solução.

Em relação às redes sociais, existe uma figura importante, o narcisismo, que leva as pessoas a falar delas mesmas o tempo todo, a fazerem seu próprio marketing. O que elas esperam? Elas querem ser vistas e muitas esperam, como no Facebook, os likes. Essa é uma forma de existir, de serem reconhecidas, uma forma de obter satisfação. Você coloca fotos e espera a manifestação das pessoas, se curtiram ou não. Você conta os likes obtidos... É outra figura do narcisismo, além do culto ao corpo, à estética. Agora nós temos o narcisismo virtual, na web, em que as pessoas falam de si próprias, se mostram... É a tecnologia que torna possível comportamentos que talvez existissem antes e que hoje têm enorme visibilidade.

(Foto: Divulgação)

O que explica, em sua opinião, o crescimento da extrema direita no Ocidente?
Há um crescimento inegável da extrema direita no Ocidente. O encontramos na Itália, Áustria, Alemanha, na França já há muito tempo. O encontramos, sobretudo, na Polônia, na Hungria, e está acompanhado dos movimentos populistas. A explicação para esse crescimento não é somente econômica, pois existem partidos de extrema direita que crescem na Suécia e lá não há uma significativa crise econômica. Na Alemanha, recentemente, houve ataques aos estrangeiros, e a Alemanha tem uma saúde econômica magnífica. Acredito, profundamente, que esse crescimento deve-se à insegurança psicológica e existencial à qual já me referi nesta entrevista.

Estamos vivendo numa sociedade da insegurança e ela não nos leva apenas à violência. As pessoas se sentem sem proteção mesmo quando não há violência, e isso é novo. Novo porque as religiões, as tradições, os grupos sociais, não abarcam mais a vida. As pessoas estão perdidas, nós estamos perdidos.

O passado não governa mais, e o futuro não nos faz mais sonhar. Estamos numa situação de insegurança, ansiedade, de desorientação geral. E isto não está apenas ligado à vida política, é o conjunto de tudo que coloca as pessoas nesse estado de insegurança. E quem são os responsáveis? As elites políticas e intelectuais, as mídias. Acredito que estamos vivendo uma crise de civilização ligada à ansiedade, à insegurança pessoal que tem origem na globalização, no individualismo e na crise política.

Em tempos de fake news, qual é a importância dos meios de comunicação na formação da opinião pública?
Muito se escreveu sobre a manipulação das mídias ao longo de todo o século passado, quando denunciamos o poder na formação da opinião pública e também o poder da televisão. Hoje, nós estamos numa época de hiper individualização que se caracteriza pelo fato dos indivíduos serem muito críticos em relação às mídias. Não é verdade que as mídias formatem a opinião, pois existem muitos exemplos que mostram divergências entre a posição divulgada pela mídia e a posição da opinião pública.

Eu penso que numa época de hiperindividuação, as mídias de massa têm menos importância que antes. É como em relação aos partidos políticos, em que as pessoas não confiam mais. Vivemos uma crise política e também uma crise das mídias. E para o benefício de quem? Das redes sociais, das falsas informações que encontramos por lá.

A crise, de certa maneira, é mais grave, porque é uma crise dos intermediários. Antes, havia, entre os políticos e os cidadãos, as grandes mídias de política e de massa, hoje não mais. As pessoas leem as notícias no Facebook, no Twitter, nos canais onde elas encontram sempre as mesmas respostas. Acho que vale mais à pena ler jornais, porque nas redes sociais há muita manipulação. Grosso modo, eu acredito que as mídias políticas, a imprensa política, não têm mais muito peso e que as mídias de massa têm importância, mas menos que antes. São as redes sociais que têm um novo papel hoje, porque não precisa mais ter um verdadeiro papel de intermediação. Será importante encontrarmos respostas para essa situação tão grave, e quanto às fakes news: não poderemos impedi-las.

*Tradução gentilmente feita pela professora de francês e poeta Lúcia Santori Carneiro

Serviço
| Fronteiras Braskem de Pensamento |
Programação: Gilles Lipovetsky e Leandro Karnal, no dia 17, às 20h30; Marcelo Gleiser, no dia 15 de outubro, às 20h30
Onde: Teatro Castro Alves (Campo Grande)
Ingressos: Dia 17: esgotados. Dia 15/10: R$ 50 | R$ 25. Informações: 3003-0595. Vendas: bilheteria do TCA, SAC’s dos shoppings Barra e Bela Vista e pelo site www.ingressorapido.com.br.


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