"Estou louca pra ir. Bora?", diz Marisa Monte sobre o Festival do Capão

entretenimento
23.07.2021, 06:00:00
(Foto: Léo Aversa/divulgação)

"Estou louca pra ir. Bora?", diz Marisa Monte sobre o Festival do Capão

Cantora falou com o CORREIO sobre o álbum Portas e sobre a tentativa de censura ao evento de música

Os fãs de Marisa Monte nunca esperaram tanto por um álbum: desta vez, foram dez anos de intervalo entre O que Você Quer Saber de Verdade, de 2011, e Portas, que chegou às plataformas de música neste mês. É bem verdade que, neste período, ela não parou e realizou até uma esperada turnê de muito sucesso com os parceiros tribalistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.

Com 16 canções, o álbum tem composições da cantora junto com velhos conhecidos como o próprio Arnaldo e Nando Reis. Mas há também gente com quem ela nunca havia criado, como Marcelo Camelo - que assina uma música sozinho e duas com Marisa - e Chico Brown - filho de Carlinhos Brown -, que divide com a cantora a autoria de cinco faixas.

Gravado durante a pandemia, o álbum ficou pronto em março. "Foi um grande desafio, reinventar métodos de produção e abrir novos caminhos e experimentar num momento tão duro e de tantas incertezas", diz Marisa.

Nesta conversa por e-mail com o CORREIO, a cantora fala sobre suas parcerias, revela quem são suas cantoras contemporâneas brasileiras favoritas e comenta sobre a atitude da Funarte, que reprovou o apoio da Lei Rouanet ao Festival de Jazz do Capão, mais tarde financiado por Paulo Coelho. "A tentativa de opressão virou uma grande divulgação. Eu mesma estou louca pra ir. Bora?", convoca Marisa.

Pela primeira vez em sua carreira, você levou dez anos para lançar um álbum solo gravado em estúdio. Houve algum motivo especial para isso?
Não foi programado…  Fiz tantas coisas durante esse período que nem senti o tempo passar. Grandes turnês, DVDs, Samba Noise, Paulinho da Viola e Tribalistas...

Apesar do momento angustiante por que o mundo e, especialmente, o Brasil passam, você conseguiu fazer um álbum "pra cima" e considerado "otimista" por alguns. Isso foi intencional para o momento ou é mesmo uma marca sua?
Eu compartilho todos os sentimentos de incerteza, angústias e medos desse momento trágico que estamos vivendo, mas através da arte quis oferecer uma resistência poética, criativa e amorosa. Isso é uma postura política civil, campo onde percebo os movimentos mais inspiradores. Apesar de todas as dificuldades, acredito que estamos no processo evolutivo civilizatório, e que se avaliarmos uma curva de tempo mais larga, de 50 ou 100 anos certamente perceberemos os avanços no campo da ciência, do comportamento, dos direitos civis e das liberdades individuais. Isso é uma construção coletiva social, que demora tempo, não é tão rápida quanto gostaríamos, mas segue sempre no fluxo constante em direção ao progresso, apesar dos momentos de retração conservadoras como infelizmente estamos vivendo. Nesses momentos, a arte nos oferece um campo de exploração do imaginário onde tudo é permitido e que serve de alento e esperança e nos reconecta com o futuro.

Marcelo Camelo é autor ou, ao menos, coautor de três canções de "Portas". Como se deu a aproximação com ele e que tipo de "sintonia" houve entre vocês?
Gosto muito de trabalhar em parceria, com somas e misturas. A parceria com o Marcelo se deu a partir da admiração e respeito mútuo, e das identificações musicais naturais em nossas referências comuns. Ele foi um interlocutor atento e generoso durante todo esse período de produção, e fez arranjos belíssimos pelos quais sou eternamente grata.

Capa do álbum é da artista plástica Marcela Cantuária

E com Chico Brown, como se deu a parceria? Tem algo de comum com Carlinhos do ponto de vista musical?
Conheço o Chico desde que nasceu, e ele cresceu convivendo com a nossa forma de colaboração coletiva, com muita liberdade e admiração mútua. Ele é um grande músico, multi-instrumentista, de ouvido absoluto, formado em produção musical e apaixonado pelo seu ofício e, assim como o Carlinhos, um compositor virtuoso e fecundo. Nossa parceria aconteceu no campo do afeto, da confiança, da intimidade e da alegria.

"Portas" foi muito elogiado pela crítica musical, mas houve também quem dissesse que há uma certa sensação de "dèja vu" (o que está muito longe de dizer que seja ruim). Acha que a sonoridade de seus discos era mais "ousada" no início da carreira, especialmente em seu primeiro álbum?
Não.

Com frequência, ouve-se que você é a melhor voz feminina surgida no Brasil dos anos 90 para cá. Que cantoras reveladas após você chamam mais sua atenção e quais você costuma ouvir? Por que?
Teresa Cristina, Alice Caymmi, Mãeana, Ava Rocha, Ana Frango Elétrico, Letrux, Maria Gadú, Mallu Magalhães, entre muitas outras que eu admiro e acompanho sempre com atenção e interesse na produção contemporânea.

O samba está muito presente em sua carreira desde o primeiro álbum, quando você gravou Cartola. Chegou também a gravar um álbum dedicado só ao ritmo, que também está presente em "Portas". Qual a importância do samba em sua formação como cantora e quais os/as intérpretes que mais gosta no gênero?
Sou carioca e o samba é a principal expressão musical da minha cidade. Aprendi admirar os grandes valores e mestres na minha casa ainda na infância. Trabalhei com vários bambas, produzi álbuns da Velha Guarda da Portela e Argemiro do Patrocínio, produzi um filme sobre o samba “O mistério do samba”, e tenho uma relação próxima com o Paulinho da Viola com quem fiz vários shows recentemente. Gosto muito de escutar Candeia, Clementina, Cartola, Nelson Cavaquinho, bem como Pedrinho Miranda, Teresa Cristina, Moreira da Silva, Noel Rosa, Zeca Pagodinho, Glória Bomfim, Pretinho da Serrinha, entre tantos outros. Samba é um gênero repleto de tradição e se renova constantemente.

Você acompanhou o problema da censura ao Festival de Jazz do Capão na Bahia? O que achou da proibição e da atitude de Paulo Coelho, de bancar os custos do evento?
Achei que a proibição foi lamentável, mas acabou causando um grande interesse no Festival de Jazz do Capão, que já existe há muitos anos. Ficou bem mais conhecido e gerou uma curiosidade grande. A tentativa de opressão virou uma grande divulgação. Eu mesma estou louca pra ir. Bora? Achei a atitude do Paulo Coelho exemplar.

A cultura brasileira passa por dois sérios problemas: além da pandemia, os artistas queixam-se do descaso deste governo em relação à arte. Como os artistas brasileiros vão sair desta crise?
O impacto da pandemia foi inegável já que a maioria das atividades culturais depende de encontros e aglomerações que se tornaram arriscados. Por outro lado, a indústria cultural brasileira e a economia criativa são um motor potente de geração de riqueza material aquecendo a economia, gerando emprego, trabalho, impostos, turismo etc. E acho que assim que for possível voltaremos com tudo. Quem sustenta a produção cultural desse país é o amor que o povo tem por sua arte, pela alegria e pelo prazer de viver. Esperamos que um novo governo recrie o Ministério da Cultura e mecanismos de fomento compreendendo o potencial econômico da arte e não desperdice essa enorme capacidade por motivos ideológicos. Todos os estudos mostram o quão importante é o incentivo oficial e o quanto retorna no balanço positivo para a economia do país cada centavo investido em cultura. Países que compreenderam esse valor tiveram enormes benefícios econômicos com políticas públicas voltadas para cultura.


 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas