Eu não sou "sapatão" (mas não me importaria de ser)

flavia azevedo
11.03.2018, 12:21:55
Atualizado: 11.03.2018, 12:38:53

Eu não sou "sapatão" (mas não me importaria de ser)

No último dia 8, esta coluna fez um ano. Dias de luta, dias de glória. A cada semana, um (entre tantos) olhar feminino sobre questões que cruzam o meu caminho. Opinião de uma mulher que encontra acolhimento e contestação. Que às vezes viraliza. Que outras vezes é solenemente ignorada. Consegue imaginar algo mais natural que isso? Eu não. 

Pra não dizer que não falei de espinhos, desde a primeira coluna, leio e escuto ataques dos mais raivosos. Perco o sono? Só na primeira vez (sério, foi difícil). Dou risada? Muita! Encontro inspiração para outros textos? Claro que sim. Tipo para este comemorativo que, diante de insistentes questionamentos, traz a "relevante" (só que não) informação: eu não sou "sapatão" (mas não me importaria de ser).

As tentativas de ofensas envolvem muitas coisas. Amarga, mal comida, traumatizada... já estou até apegada a esses adjetivos tão frequentemente direcionados a mim. Na imensa maioria das vezes, vindos de homens que "caem atirando" quando o tema da semana mexe demais com eles. Nessas ocasiões, o "xingamento" campeão é: essa mulher é "sapatão". A mulher, no caso, sou eu.

Nada mais longe de me ofender do que a ideia de que eu possa ser "sapatão". Logo eu, binho, que andava vestida de "menino", cabeça raspada, me divertindo horrores quando alguém me confundia com um rapaz? Logo eu que me sinto honrada com cantadas femininas? Sempre vi muita graça em confundir e nenhum problema com qualquer orientação sexual. Nesse aspecto, sou saudável desde que me lembro de mim. Zero homofobia, zero medo de novos desejos que possam se revelar, zero preocupação com o que o vizinho possa pensar da minha vida sexual. 

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Pra completar (e deixar logo tremendo os dedinhos de agredir dos caretas de plantão) eu sempre quis ser bi porque aquele papo de duplicar as chances de um encontro no sábado à noite me parece maravilhoso até dizer chega. Sério: se eu pudesse ser "hetero" e "sapatão", a depender do cenário, acho que minha vida seria infinitamente mais divertida. Mas as coisas não são tão simples assim.

Tenho incontornável devoção ao falo, desde a mais tenra juventude, fazer o quê? Não há sexo (pra mim!) sem pênis (não vale de borracha) funcional na parada. Um órgão da minha mais alta estima. Sou o tipo de mulher que, se pudesse, mandava celebrar missa pra certos pintos. Alguns, merecem agradecimentos, bênçãos e votos de vida longa, ereta e feliz.

De forma que sou meio refém e só não digo que "o problema é o que vem junto com os pintos" porque não quero ofender quem já sabe se comportar. Inclusive porque hoje acordei até com vontade de mandar um cartão de "agradecemos a visita, volte sempre" pra um determinado rapaz. Um desses homens (e já existem muitos, pode crer) pelos quais eu ainda aposto na viabilidade das relações heterossexuais. Esse modelo de amor homem&mulher que já pensei ter ficado inviável diante da disparidade dos níveis de evolução entre nós. 

Mulher passou na frente, tá claro. E não é de agora não. Mas dá pra acertar o passo. Principalmente entendendo coisas básicas como: nem toda mulher que gosta de mulher (e de si mesma) é, necessariamente, "sapatão". E se for, isso não é coisa que se precise mais esconder. 

(E "sapatão" não é xingamento mais não)

Flavia Azevedo é produtora e mãe de Leo

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