"Existe um saudosismo exagerado no Brasil", diz Luciano Matos

entretenimento
12.04.2020, 06:00:00
Divulgação (Livia Nery, Dona Onete e Zé Manoel estão nas dicas musicais da semana)

"Existe um saudosismo exagerado no Brasil", diz Luciano Matos

Convidado da coluna Meu Domingo, jornalista e curador indica cinco novos artistas para ouvir na quarentena

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Curador do programa de rádio e do festival Radioca, o jornalista Luciano Matos está atento às novidades musicais, sobretudo àquelas mais interessantes. Por isso, afirma, não gosta deste papo de que não há uma música brasileira e atual rica.  "Existe um saudosismo exagerado no Brasil", resume Luciano, convidado da coluna Meu Domingo. Para o CORREIO, ele preparou uma lista que sai da Bahia, vai ao Pernambuco e ao Pará, mas se conecta com as boas vibes musicais que chegam da América Latina e do deserto do Saara. 

Para ele, muito desta sensação que de o bom ficou no passado vem do fato da mídia hegemônica brasileira, especialmente emissoras de Rádio e TV, não darem atenção à nossa diversidade. "Existe uma produção farta, fértil e muito criativa em todo país, com muitos nomes produzindo música de excelente nível, criativa e diversa. O melhor é que vivemos um tempo único em que quase tudo isso está a um clique de nossos ouvidos. Não só essa produção brasileira, mas quase toda a música do mundo está disponível como nunca e devemos aproveitar isso, ao invés de nos contentarmos apenas com o que nos é oferecido. Hoje temo acesso fácil ao que é produzido na América Latina, na África ou nos confins da Ásia. Tudo pode ser acessado de uma forma como nunca antes", afirma. Confiram as dicas dos álbuns brasileiros e de vários cantos do planeta, todos lançados há menos de 10 anos:


systema

1. Systema Solar – La Revancha del Burro (2013)

Uma das cenas musicais mais interessantes do mundo há alguns anos é a da Colômbia, com uma profusão de novos artistas mostrando uma música afro caribenha que flerta com as tradições, mas é totalmente atual. O System Solar é um dos principais nomes dessa cena. Com origem na Colômbia caribenha, eles se consideram um coletivo audiovisual que fazem o que chamam de "Berbenautika". A ideia é promover espetáculos inspirados nos pikós (sound systems) e na festa popular verbena, unindo ritmos locais como champeta, língua de boi e cumbia com música eletrônica e hip hop. Este é o segundo álbum da banda, divertido, dançante, mas também político e rebelde. Ouça também Bomba Estereo e Meridian Brothers


zé

2. Zé Manoel - Canção e Silêncio (2015)

Sempre que conheço ou encontro alguém com mais de 40 dizendo que não há nada de interessante na música brasileira atual eu sugiro que ouça Zé Manoel. Ele é um pernambucano de Petrolina, pianista, compositor e cantor de mão cheia, que faz uma música com extrema competência e delicadeza. Esse disco pra mim é um dos mais bonitos da música brasileira contemporânea e já um clássico. De uma beleza comovente que remete a Edu Lobo, Dorival Caymmi e a várias de nossas tradições, ao mesmo tempo que é totalmente contemporâneo. Se delicie e se emocione com algumas das mais belas canções que você vai ouvir atualmente.


 

dona onete

3. Dona Onete – Banzeiro (2016)

Cantora, compositora e poetisa, Dona Onete só lançou seu primeiro disco aos 73 anos, em 2012. Ela já lançou outros dois discos na sequência e em pouco tempo se tornou um dos principais nomes da música paraense. Nesse segundo trabalho, de 2016, apresentou mais uma coleção de ótimas músicas de sua lavra, tendo como inspiração sua própria vivência histórico-cultural. São carimbós safados, boleros deliciosos, além do frenético banguê, um ritmo tradicional herança dos negros escravizados que foram trabalhar nas lavouras de cana do Pará. Destaque para ”No Meio do Pitiú”, “Tipiti”, “Proposta Indecente” e a música título, que foi regravada por Daniela Mercury. Mesmo aos 80 anos, Dona Onete continua circulando com seu show pelo mundo e deve lançar outros discos, já que tem mais de 300 composições inéditas guardadas.


bombino

4. Bombino - Deran (2018)

Nas possibilidades de navegar pelo mundo, uma das descobertas mais ou menos recente é o Desert Blues, ou blues do deserto. Uma música que faz parte da cultura milenar produzida pelos povos nômades do Saara e tem como um dos destaques Omara Moctar, mais conhecido como Bombino. Sua marca é a virtuosa guitarra elétrica com tonalidades e timbres tradicionais mesclados ao rock mais tradicional. Esse disco marca o retorno do artista à terra natal, depois de rodar o planeta. Nascido tuaregue, ele canta na língua tamasheq sobre a vida de seu povo, mas mesmo sem entender nada do que ele fala, é possível se emocionar com a beleza de sua arte. Para conhecer melhor o Desert Blues, existem outros excelentes nomes como Tinariwen, Ali Farka Touré , Songhoy Blues, Mdou Moctar e Vieux Farka Touré.

livia nery

5. Lívia Nery - Estranha Melodia (2019)

Demorou para Livia Nery lançar seu primeiro disco, mas as expectativas foram superadas. A cantora, compositora e produtora baiana já havia mostrado suas qualidades, mas nesse álbum ampliou ainda mais as possibilidades de sua música. Como poucos, conseguiu unir canções e beats eletrônicas, manter unidade sendo urbana e rural, cosmopolita e rústica, diurna e noturna. Namora o trip hop, flerta com a Jamaica e se une à música brasileira com a intimidade de uma veterana. Uma estreia primorosa.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas