'Existem outras negritudes no subúrbio', diz rapper baiano

entretenimento
15.11.2017, 06:30:00
OQuadro é formado por DJ Mangaio (programações), Rodrigo DaLua (guitarra), Ricô (baixo e voz), Jef Rodriguez (voz), Vic Santana (bateria), Jahgga (percussão) e Nêgo Freeza (voz) (Foto: Rafael Ramos/Divulgação)

'Existem outras negritudes no subúrbio', diz rapper baiano

Nêgo Freeza é vocalista do grupo OQuadro, que lança disco na Caixa Cultural, sexta

Para além de batizar o novo álbum do grupo de rap baiano OQuadro, Nêgo Roque é o nome de um sujeito muito comum na periferia. É aquele que “está no subúrbio, mas antenado com o mundo”, que “está fora dos padrões, mas sabe sua origem”, explica um dos vocalistas da banda de Ilhéus, Nêgo Freeza, 39 anos.

Existe um padrão de negritude que “acaba caindo no estereótipo” e Freeza ressalta que a ideia da banda em seu segundo disco, lançado pela Natura Musical, é romper com esse padrão. “Existem outras negritudes ali no subúrbio”, justifica. Assim, o “nêgo roque” é o negro que faz rock, além do rap, e que tem “atitude rock”, completa o também vocalista Jef Rodriguez, 39.

Assim, mostrar que o rock também faz parte do rap é o que OQuadro faz na temporada de shows que acontece de sexta a domingo, na Caixa Cultural, no Centro. O repertório passeia por músicas do novo álbum, além de incluir singles e músicas do disco homônimo ao grupo, de 2012. Artistas locais que exaltam a cultura negra são os convidados dos shows: o grupo de rap Opanijé (sexta), o músico Letieres Leite (sábado) e o grupo ÀTTØØXXÁ (domingo).

“A gente queria um álbum que saísse do lugar comum, do estereótipo. Quando se fala de rap tem uma coisa meio engessada e quando se fala de rock, no Brasil, se remete à coisa de garagem, dos anos 80. Existe outro rock. A origem do rock é africana e falar disso, no rap, é até preconceituoso. Se criou certa resistência do rap em relação ao rock”, critica Freeza. “A gente quer tomar de volta essa atitude rock que o rap tem, de se portar no palco, de quebrar limites”, completa.

Outro mundo
Além do rock, a sonoridade híbrida do grupo de rap transita por zouk, soul e eletrônica, com referências que vão do ijexá ao afrobeat. Com participação de Emicida, BNegão, Raoni Knalha, Indee Styla, Pedro Itan e DJ Gug, o álbum Nêgo Roque aborda questões sociais, além do conceito de humanidade, negritude, fé e militância.

Na música-título, por exemplo, que conta com participação do rapper carioca BNegão, a guitarra anuncia: “É Nêgo Roque/ Eu sei que tudo é preto sangue/ Meu santo é tipo afropunk/Africa is not a country/ (...) Nasceu no gueto, nêgo/ (...) Raízes, antenas, é parte do sangue que pulsa nas veias/Tá no DNA/Diáspora/África, Brasil, Bahia, Angola/Todas as escolas/Cidadão do mundo eu sou”.

A música Muita Onda, por outro lado, questiona “concepções, visões e privilégios” em sua letra. Resultado do encontro entre OQuadro e o rapper paulista Emicida no projeto Conexões Sonoras,  Muita Onda é composta por trechos combativos como “Onde algorítimo nazista/Bota preto em seu óbito diário/Sou Marcus Garvin, Bob Marley, Zumbi, Marvin Gaye”.

Já a música Ainda é Cedo denuncia as dificuldades enfrentadas diariamente por um negro na periferia. “Quanto vale o corpo no chão ou na prisão, na mira do caveirão?/Fudido de crack, tristezas mil pra família, audiência pro Bocão/O preço de uma bala pra indústria bélica, o choro de uma mãe evangélica, às margens do mundo, feio demais pro padrão, convocado pra facção”, diz um trecho.

“Ainda é Cedo fala sobre esse martírio que é ser negro periférico, especificamente na Bahia, onde somos a maioria depois da África, mas sofremos um extermínio diário”, denuncia Jef Rodriguez, autor da letra com Ricô. “Quando acontece uma tragédia na França, todo mundo se emociona, coloca no Facebook, mas a coisa do ‘ser negro’ parece que está ligado à miséria, à tragédia. A gente não se emociona, parece que já faz parte. Até que ponto ‘ainda é cedo?’”, questiona Jef.

Em Trabalho, por sua vez, Jef e Freeza questionam a lógica excessiva do trabalho com trechos como “sangue suor e lágrima pra temperar/Mentes colonizadas trocam sua própria raiz/Por um mal que nem plantou”. Vindo de família de trabalhadores rurais, da cultura do cacau, Jef defende que a extensa jornada de trabalho “tira o direito do ócio criativo” e o “direito do povo”.

“Hoje, com tudo o que está acontecendo, a tendência é que isso se legitime ainda mais, porque existe um espírito escravagista”, denuncia. Essas e outras questões, ressalta Jef, são abordadas no álbum Nêgo Roque que “é um disco combativo sim, é uma força, uma vontade de gritar, é essa atitude rock”.

“A partir de um nome comum, Nêgo Roque, a gente levanta pautas que estão presentes”, explica. “A gente precisa ter uma nova perspectiva, porque a História é contada por quem está no poder. Isso vai fazer com que a gente comece a reconstruir nosso olhar sobre o mundo. Também é papel da arte fazer isso e a gente chamou essa responsa pra gente”, garante Jef.