Exposição celebra 80 anos de Tom Zé que garante: 'Não sou gênio'

Vida
07.06.2017, 05:15:00
Atualizado: 07.06.2017, 12:32:41

Exposição celebra 80 anos de Tom Zé que garante: 'Não sou gênio'

Gratuita e inédita, a mostra Tom Zé 80 Anos abre para visitação do público nessa quinta (8), na Caixa Cultural

Ao falar sobre a exposição inédita Tom Zé 80 Anos, que celebra suas oito décadas de vida a partir de amanhã, na Caixa Cultural, o cantor e compositor baiano Tom Zé humildemente evita falar sobre a importância de sua própria obra. “No sertão, dizem que elogio de boca própria é vitupério. Quem fala muito, não faz. É preciso ficar calado para o coração continuar trabalhando”, justifica o artista nascido em Irará e considerado um dos gênios da MPB. “Não sou gênio, sou um trabalhador maníaco”, diz com simplicidade.

Quem acompanha a trajetória do artista tropicalista e até mesmo quem tem pouca intimidade vai poder mergulhar em sua vida e obra a partir de trabalhos gráficos, digitais e interativos que fazem parte da exposição Tom Zé 80 Anos,  que abre hoje, para convidados, e segue em cartaz a partir de amanhã, com visitação gratuita até 6 de agosto.

Vida e obra de Tom Zé são traduzidas em instalações multimídia, textos, fotos e vídeos na exposição Tom Zé 80 Anos (Foto: André Conti/Divulgação)

Instalações com músicas, fotos, textos, depoimentos em vídeo e instrumentos inventados por Tom Zé também integram a mostra idealizada pela cantora, produtora cultural e amiga Bete Calligaris. “Essa exposição tem muito conteúdo para as pessoas conhecerem esse fenômeno que é o Tom Zé”, resume o curador  da exposição, o designer, produtor de mídia interativa e poeta paulista André Vallias, 53, também responsável pela mostra Gil 70.

“O nome dele é conhecido, mas a obra não. Quanto mais informação, melhor para entender o método de Tom Zé de fazer as coisas, o gestual, a performance. Isso requer tempo. A exposição é uma forma de mergulhar de maneira mais intensa nessa cultura oral nordestina”, acredita Vallias.

(Foto: Marina Silva/CORREIO) 

Poético-didática
Definida pelo curador como uma “exposição poético-didática”, Tom Zé 80 Anos inclui recriações de suas obras, como os poemas visuais feitos a partir de canções emblemáticas. Ao mesmo tempo, a mostra apresenta uma linha do tempo que detalha a trajetória do artista batizado Antonio José Santana Martins, desde a vida em Irará, passando pela Tropicália e pelo reconhecimento internacional provocado pelo multiartista americano David Byrne, ex-Talking Heads.

Outro destaque da mostra é o espaço Estudando o Sampler, uma instalação audiovisual interativa que vira uma máquina de sampler a partir do movimento do corpo de cada um dos visitantes, controlado por sensor. A instalação que explora a identidade visual de arames e cordas criada por Tom Zé no disco Estudando o Samba (1976) é assinada pelo coletivo Sangue no Silício, da cidade de Cachoeira.

A instalação Estudando o Sampler vira uma máquina de sampler a partir do movimento do visitante
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

O público vai poder revisitar, ainda, toda a discografia de Tom Zé. Além de se conectar com os 28 discos, o visitante vai poder ler as letras comentadas das 238 composições que fazem parte do acervo que vai do álbum Grande Liquidação (1968), até Canções Eróticas de Ninar, lançado no ano passado.

“Tom Zé tem muito a ensinar a esse país megalomaníaco do desenvolvimentismo, das obras faraônicas, mesmo sabendo que apenas o investimento em educação é o que faz o país avançar”, opina Vallias. “Tom Zé tem uma estética que é um antídoto a tudo isso, de valorização da cultura de subsistência. Acho que tem a ver com o sertanejo, que aprende a lidar com o que tem ali no sertão”, completa.

Delinquente
“Isso é uma coisa que me dá força”, agradece Tom Zé, que chegou a ser tachado de “futuro delinquente”, quando ainda era um menino tímido em Irará. Criado em uma época na qual a cultura da convivência importava mais do que a cultura da escola, Tom Zé lembra que o hábito de jantar com a família às 18h era um marco e fazia a conversa reinar naturalmente. “Fui criado em uma família onde a conversa era a grande transmissão de cultura, nos anos 40. Era uma coisa importantíssima”, explica.

Os vaqueiros, inclusive, eram sempre convidados a dar seu testemunho sobre a vida na terra, “com alto respeito e consideração”, conta Tom Zé. O então garoto Antonio José ficava atento às conversas em casa, aos depoimentos do vaqueiros e dos fregueses que frequentavam a loja do pai, onde começou a trabalhar ainda criança, “o que não era nenhum mal”, acrescenta.

“Eu não fazia sucesso como rapazinho no clube. Então, por acaso, os livros também me atraíram. Veja que era resultado das conversas em casa. Isso formou minha concepção de mundo e cresceu junto comigo. Comecei a me salvar pela paixão nos estudos”, lembra orgulhoso. “Tudo isso foi mudando meu coração”, completa Tom Zé.

Enceróscopio e Buzinório são alguns dos instrumentos criados por Tom Zé (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Tímido
Feliz de ver sua trajetória contada na exposição que estreia em Salvador e passa depois por estados como Rio de Janeiro e São Paulo, onde mora, Tom Zé conta que está ansioso para revisitar sua terra e rever os amigos, parentes, professores e mestres, citando um a um nominalmente (o que seria difícil de reproduzir nas poucas páginas dessa matéria). Alguns ele vai encontrar pessoalmente, outros em memória ou nas fotos que integram a mostra.

“É uma maravilha voltar e encontrar coisas dos meus tempos ginasianos. Vou encontrar todas essas pessoas da minha Bahia, da minha timidez”, conta Tom Zé. Timidez? “Eu era tímido”, insiste. “Morria de vergonha de andar nas ruas de Salvador com minha farda de Irará”, conta.

A timidez, segundo o artista, só começou a ser vencida quando descobriu que poderia usar o humor como aliado depois de fazer um tio de Nazaré das Farinhas rir sem parar, ao contar uma piada ainda criança. Além disso, quando entrou na Escola de Música da Ufba e os professores foram dando valor ao seu trabalho, ficou mais confiante. “Mas só fiquei bom mesmo depois de 30 anos de psicanálise”, garante. “Ainda assim, fiquei mais ou menos”, completa rindo.


Relacionadas
Correio.play
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/acusado-de-injuria-isidorio-falta-a-audiencia-de-conciliacao-com-daniela-mercury/
Cantora ingressou com queixa-crime contra o deputado por injúria após ser chamada por ele de 'escrava de satanás'
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/oscar-2019-anuncia-indicados-veja-lista-completa/
Pantera Negra, Nasce Uma Estrela, Roma e Bohemian Rhapsody são cotados a Melhor filme
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/video-mostra-desespero-de-baleado-pela-pm-em-portao-cade-minha-filha-eu-amo-ela/
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/o-ultimo-suspiro-foi-no-meu-colo-diz-mae-de-menina-morta-por-padrasto/
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/moradores-negam-tiroteio-com-pm-em-portao-desceram-atirando/
Polícia Militar apura ação em jogo de futebol; testemunha relata pânico
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/tentativa-de-assalto-a-carro-forte-acaba-em-tiroteio-no-engenho-velho-da-federacao/
'Muitos tiros', diz testemunha de confronto entre bandidos e seguranças
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/povo-de-santo-se-une-e-realiza-atos-de-combate-a-intolerancia-religiosa/
Lagoa do Abaeté e Pedra de Xangô foram os palcos escolhidos
Ler Mais
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/lutador-brasileiro-do-ufc-salva-adolescente-de-afogamento-nos-eua/