Família de adolescente desaparecido há 14 dias acusa PM: "não sei em quem confiar"

salvador
07.11.2014, 10:58:00
Atualizado: 07.11.2014, 11:35:52

Família de adolescente desaparecido há 14 dias acusa PM: "não sei em quem confiar"

O rapaz de 16 anos conversava com vizinha quando foi levado. Família diz que PMs amarraram os pés do jovem e o colocaram no porta-malas de um Gol

A família de um adolescente de 16 anos, morador da Estrada Velha do Aeroporto, tenta descobrir o paradeiro do rapaz há quase duas semanas. No dia 24 de outubro, nas vésperas do segundo turno das eleições, Davi Fiúza foi levado de onde morava por um grupo de homens. A ação aconteceu por volta das 7h30, na rua Vila Verde. O garoto conversava com uma vizinha no momento do sequestro.

Os familiares do jovem acusam policiais militares de envolvimento no desaparecimento do jovem após uma abordagem policial. "Meu filho estava na rua, conversando com uma moradora, policiais da PM, Rondesp e Peto chegaram no local", disse a mãe de Davi, Rute Fiúza. Segundo a dona de casa, o grupo também dirigia dois carros descaracterizados, um Gol prata e uma Sandero cinza. 

Família de Davi Fiúza compartilhou denúncia do desaparecimento nas redes sociais
(Foto: Reprodução/Facebook)

"Eles chegaram coagindo os moradores a entrar dentro de suas casas, e botaram uma arma na cara do meu filho e da vizinha", conta a mãe de Davi. A mulher se defendeu da polícia, dizendo que era mulher. Foi neste momento que a polícia teria voltado a atenção para o adolescente.

"Eles tiraram a camisa do meu filho, colocaram um capuz no rosto dele, e amarraram as mãos e os pés. Em seguida, colocaram Davi no porta-malas do Gol e foram embora", relata. A família contesta a ação, dizendo que Davi não era envolvido com drogas. "Ele não tinha arma, não se envolvido com isso. Não houve flagrante. Não tinha porque levarem ele", defende a mãe.

Durante o período eleitoral, a prisão de qualquer eleitor só pode ser feita em flagrante durante sete dias - cinco dias antes das eleições, e 48 horas após o fim do segundo turno. Os familiares de Davi deram queixa sobre o caso na Corregedoria da Polícia Militar, mas até a manhã desta sexta-feira (7) ainda não tinham recebido um posicionamento sobre o caso.

"Eles me disseram que estão com imagens de câmeras de segurança, que vão averiguar a situação, mas o problema é que ninguém fala nada", protesta Rute Fiúza. "Aí a gente não sabe em quem confiar. Quem estava trabalhando naquele dia? Quem pegou meu filho? Eu quero respostas", pede.

Davi é o único homem entre os quatro filhos de dona Rute. Segundo a dona de casa, ela tinha voltado de viagem com o adolescente na madrugada da terça-feira (21),  três dias antes do desaparecimento, quando foram visitar parentes em outro estado.

O adolescente tinha problemas de aprendizado, e não estava matriculado em nenhuma escola atualmente. "Ele não tem problemas mentais, mas tem uma dificuldade grande de aprendizado. Por conta disso, ele fugiu das escolas e parava de frequentar", conta dona Rute. "Desde o ano passado a gente vinha conversando com ele, para saber o que ele ia fazer da vida. Já tínhamos decidido que ele ia entrar em uma escolinha de boxe".

Apesar disto, a família garante que Davi era um adolescente normal, com hábitos comuns. No momento em que foi levado, ele estava somente com o celular da mãe. "O telefone está desligado desde então. A gente já foi no IML, em todos os hospitais de Salvador, da Região Metropolitana e até em Feira de Santana. Mas ninguém sabe onde está o meu filho. Eu só quero que devolvam ele", pediu dona Rute.

Ainda de acordo com a mãe do rapaz, há dois dias a família voltava do estabelecimento comercial da filha quando percebeu a presença de um carro prata, de placa desconhecida, parada na porta da casa deles. "O carro tinha o vidro todo fumê. Ele ficou parado por uns 15 minutos aqui na porta, e depois foi embora sem ninguém sair para dizer nada. Quase como se fosse um aviso: 'estamos observando vocês'. Mas eu continuo saindo na rua normalmente, ninguém me ameaçou. Não descanso até meu único menino voltar", garante a mãe de Davi.

Além de dar queixa sobre o desaparecimento do adolescente na Corregedoria da Polícia Militar, a família Fiúza também procurou o Ministério Público da Bahia. Ao ser procurada pelo Correio24horas, a assessoria da PM divulgou uma nota onde fala que "já adotou todos os procedimentos para apurar a denúncia sobre o suposto envolvimento de policiais militares no desaparecimento de Davi Fiuza".

Segundo a Polícia Militar, a mãe do adolescente e outras testemunhas do caso já foram ouvidas e "não informaram dados precisos que possam identificar os supostos autores". O caso segue sendo investigado pela PM.

Caso similar aconteceu em agosto

Geovane desapareceu após abordagem da PM
(Foto: Arquivo Correio)

Geovane Mascarenhas de Santana, 22 anos, desapareceu em agosto de 2014 após uma abordagem policial no bairro da Calçada.

A abordagem, considerada “fora das normas” pela corporação, foi gravada por câmeras de segurança. Geovane morre após ser decapitado e ter o corpo carbonizado.

A guarnição da Rondesp Baía de Todos os Santos, comandada pelo subtenente Cláudio Bonfim Borges, acompanhado pelos soldados Jailson Gomes de Oliveira e Jesimiel da Silva Resende, o abordou no bairro da Calçada após uma denúncia de  roubo.

As mãos e a cabeça de Geovane foram deixadas em Campinas de Pirajá. Já o tronco e os membros foram encontrados no Parque São Bartolomeu.

A denúncia foi feita com exclusividade pelo CORREIO, que mostrou a peregrinação e a investigação por conta própria do comerciante Jurandy Silva de Santana na busca pelo paradeiro do filho, que trabalhava lavando veículos em uma empresa de ônibus.

Os policiais militares acusados pelo sumiço e principais suspeitos pela morte de Geovane Mascarenhas de Santana, 22 anos, não estão mais presos. No dia 12 de outubro, eles deixaram o Batalhão de Polícia de Choque, em Lauro de Freitas, para onde foram levados no dia 15 de agosto, após a juíza Ângela Bacelar, do 1º Juízo da 1ª Vara do Tribunal do Júri, decretar suas prisões preventivas.

Embora ainda não tenha concluído o inquérito policial que apura a morte de Geovane, a Polícia Civil informou, ontem, que não solicitou nova prorrogação da preventiva. A justificativa é que não havia novos elementos que sustentassem o pedido. A apuração está sendo feita pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que busca, de acordo com a assessoria de imprensa da Polícia Civil, o indiciamento dos responsáveis pelo crime o mais rápido possível, mas não divulgou prazos.

Em nota, a Polícia Militar da Bahia ressaltou que, com a soltura dos PMs, apenas cumpriu uma decisão judicial. “Tal decisão, que inicialmente decretava a prisão temporária pelo prazo de 30 dias, foi renovada por mais 30 dias e culminou com a liberdade dos custodiados, no último domingo, após o decurso do prazo e nenhuma outra decisão que determinasse o cerceamento da liberdade dos investigados”, informou a nota.

Após 28 dias de prisão, no dia 12 do mês passado, o delegado Jorge Figueiredo, diretor do DHPP, pediu a renovação da preventiva, temendo que as investigações fossem comprometidas.  Agora, os policiais voltam ao trabalho, porém apenas para cumprir serviços administrativos, de acordo com a nota divulgada pela PM.

A equipe de advogados que acompanha os policiais investigados, contratados pela Associação de Policiais da Bahia (Aspra), preferiu não dar detalhes do trâmite da soltura, justificando que todas as movimentações ocorrem em segredo de Justiça, para preservar as partes do processo.

“Aguardamos a conclusão do inquérito para provarmos que os policiais são inocentes”, limitou-se a dizer o advogado Dinoemerson Nascimento.  Já o Ministério Público (MP-BA) não se posicionou sobre o caso. O Grupo de Atuação Especial para o Controle Externo da Atividade Policial (Gacep) acompanha as investigações.



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