Filha de Regina Casé desabafa sobre surdez: 'Tinha pavor de ser vista como vítima'

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04.09.2019, 14:08:00
Atualizado: 04.09.2019, 14:25:59

Filha de Regina Casé desabafa sobre surdez: 'Tinha pavor de ser vista como vítima'

Benedita Zerbini descobriu problema na infância, quando médicos disseram que ela não desenvolveria fala

Filha de Regina Casé, Benedita Zerbini, 30 anos, escreveu um relato emocionante para a revista Vogue no qual conta detalhes de sua surdez, descoberta na infância, e só tornada pública recentemente, quando usou as redes sociais para falar abertamente sobre o assunto. No texto, publicado na revista nesta quarta-feira (4), Benedita admite que o fato de ter demorado a se pronunciar sobre sua condição de saúde se deu pelo "pavor de ser vista como vítima". 

Apesar de ter nascido ouvinte, Benedita perdeu a audição ainda criança, após uma complicação grave decorrente de uma pneumonia. Ela precisou tomar uma série de medicamentos – entre eles a Gentamicina, antibiótico que era aplicado em recém-nascidos e que podia provocar perda de audição. 

"Minha surdez foi descoberta aos 3 anos de idade. Meus pais só notaram que havia algo errado porque apesar de falar, era difícil identificar o que eu dizia. No início, eles acharam que era um problema de dicção que poderia ser resolvido com sessões de fonoaudiologia. Mas, desconfiados, insistiram em ter outras opiniões e continuar investigando. Um dia, ao fazer uma audiometria, veio o diagnóstico: o que eu tinha era surdez bilateral neurossensorial severa, uma perda auditiva causada por danos ao nervo que liga o ouvido ao cérebro e que não permite ouvir sons que estejam abaixo de 70 a 90 decibéis. Ou seja, perdi todos os tons agudos, um tanto dos médios e muito pouco dos graves. Não ouço campainha, apito, passarinho...", detalha ela no texto.

Por conta disso, os médicos diziam que ela também não seria capaz de desenvolver a fala, e que teria de usar a linguagem dos sinais e estudar em um colégio especial, pois não conseguiria ter outro tipo de comunicação. "Mas o ser humano é impressionante: até o diagnóstico final, já havia aprendido, naturalmente, a fazer leitura labial", recorda.

Benedita faz parte da campanha Surdos que Ouvem, do blog Crônicas da Surdez  - veja vídeo no fim desta matéria (Foto: Divulgação)

Aos 4 anos, foi matriculada em uma escola regular e começou a usar aparelho auditivo. "Isso mudou minha vida, pois apesar de ele não ser suficiente para ouvir absolutamente tudo, me possibilitou escutar tons e frequências que antes eram impossíveis. Também mudei minha relação com a música", conta ela, ao classificar como "um acontecimento" a primeira vez que ouviu todas as nuances de uma música de Bob Marley em uma loja de discos. "Minha mãe e um amigo que nos acompanhava ficaram superemocionados. Saí da loja com uma caixa de CDs do Bob Marley, que nunca mais parei de ouvir".

As dificuldades, no entanto, a acompanharam até a fase adulta. Formada em Design Gráfico pela PUC do Rio, ela destaca no texto que ficava constrangida em pedir ajuda na sala de aula. "Na faculdade, era comum o professor dar aulas de costas ou com a luz apagada, o que me impedia de ler seus lábios. Apesar de conseguir me virar, tinha dificuldade de me colocar – ficava constrangida em pedir ajuda, achava que iria atrapalhar o andamento das aulas. Minha mãe sempre insistiu para que eu me abrisse com as pessoas, mas tinha pavor de ser vista como vítima", desabafou. 

Repercussão
Desde a primeira vez que falou sobre o assunto nas redes sociais, há cerca de quinze dias, o tema tem sido assunto recorrente para ela. "Apesar de toda a repercussão, fiquei aliviada em poder contar minha história. Ao fazer aquele post, usei minha visibilidade para mostrar que é possível ter uma vida normal e inclusiva", diz a empresária, que tem uma produtora de audiovisual junto com o marido João Pedro, pai de Brás, de 2 anos.

Benedita ao lado do marido, João Pedro, e do filho Brás  (Foto: Divulgação)

Junto ao blog Crônicas da Surdez, ela tem discutido e desmistificado o assunto. "Com eles faço parte da campanha Surdos que Ouvem, que mostra a diversidade na deficiência e leva informações para esta comunidade. É muito bom encontrar pessoas que têm um discurso parecido com o meu e que acreditam que é possível sim, ter uma vida leve e alto-astral", conclui.

Veja vídeo da campanha Surdos Que Ouvem:

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