Filme revê a imagem de dedo-duro que carimbou Simonal

entretenimento
08.08.2019, 06:00:00
Fabrício Boliveira é Wilson Simonal (Fotos: Parica Fotofgrafia/divulgação)

Filme revê a imagem de dedo-duro que carimbou Simonal

O baiano Fabrício Boliveira brilha no papel de Wilson Simonal

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Wilson Simonal (1938-2000) é um dos maiores cantores da história do Brasil. Num levantamento realizado pela edição brasileira da revista Rolling Stone, em 2012, especialistas apontaram o carioca como a quarta maior voz do país, atrás de Tim Maia, Elis Regina e Ney Matogrosso.

Além disso, Simona - como era chamado pelos amigos - foi um dos artistas mais populares da história da música brasileira. Não há exagero algum em dizer isso: basta ver as imagens de seus shows e a idolatria que está na cara do público. E ele tinha aquela coisa que ninguém sabe explicar direito o que é, mas que todo mundo entende direitinho: carisma.

E não se pode esquecer que Simonal foi um dos primeiros artistas negros brasileiros a falar sobre como é ser negro num país que sempre mentiu ao dizer que não é racista.

Mas, se para uns, Simonal era um artista completo e brilhante, para muitos, não passava de um bajulador dos poderosos, um delator da ditadura militar. E essa segunda imagem foi a que ficou no imaginário brasileiro.

Justiça
Mas o filme Simonal, que chega aos cinemas, está aí para recontar a história e mudar a imagem que se tem de uma das primeiras estrelas pop do país. “O filme pode fazer justiça à imagem do Simonal e é importante para o próprio país entender os erros do passado, ver quem sangrou frente à ditadura e para entender realmente o que aconteceu a Simonal”, diz o baiano Fabrício Boliveira, 37, que brilha ao interpretar o cantor no filme dirigido por Leonardo Domingues.

Mas Fabrício diz que não buscou imitar Simonal: “Não sou parecido com ele, então não tinha como imitá-lo. Imaginei que eu era um artista contando a história de Simonal naquela época. E vi um swing comum entre nós dois, porque eu dava aula de dança e a dança me trouxe muito do jeito dele, sem ser imitação”.

No auge da carreira, como se vê no filme, Simonal adquiriu muitas dívidas e perdeu controle da fortuna que havia feito. Desconfiado do contador, pediu a um policial conhecido que desse um “aperto” no funcionário e arrancasse dele a confissão. Resultado: os policiais foram além da conta e torturaram o contador. Simonal acabou sendo condenado por sequestro, foi preso e passou alguns dias na cadeia, tendo direito depois a prisão domiciliar.

Simonal então foi logo apontado como um apoiador dos  militares. E nem se pode falar que daí em diante sua carreira entrou em descendência, porque esse seria um processo gradual. Ele foi bruscamente condenado ao ostracismo e entrou num processo de definhamento emocional.

Imperial
Ao lado dele, sempre esteve Tereza, sua mulher, interpretada por Ísis Valverde. Mas, entre os coadjuvantes, o destaque é mesmo Leandro Hassum, como Carlos Imperial, responsável por descobrir o talento de Simonal e de outras artistas fundamentais da música brasileira, como Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

Hassum finalmente mostra que pode ir  além do histrionismo e das comédias. O Imperial que ele interpreta tem a pilantragem e a cafajestice que o caracterizavam. Chega a ser absurda a diferença entre este Imperial e aquele que foi criado por Bruno de Luca em Minha Fama de Mau, a biografia de Erasmo Carlos.


Como outras cinebiografias recentes nacionais, Simonal reconstitui muito bem o figurino e a maquiagem dos anos 1960/70, o que só confirma o amadurecimento da produção audiovisual brasileira e isso não pode ser interrompido nem com a adoção de medidas que podem ser desastrosas ao setor, como a  ameaça do governo federal de extinguir a Ancine.

Além disso, faz um registro importantíssimo sobre a história do racismo no país e mostra que o simples mergulho de um homem negro numa piscina frequentada por brancos estava repleto de significado político, como mostra uma cena do filme.

“Claro que Simonal tinha consciência do racismo e qualquer corpo negro no Brasil já é um corpo político. Acho estranho alguém dizer que ele era alienado: esse cara gravou um tributo a Luther King!”, defende Fabrício.

Cotação: Ótimo

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