Fisioterapeuta morta era professora e marcou geração de colegas

salvador
13.04.2020, 13:40:00
Atualizado: 13.04.2020, 15:32:44
Renilda queria lançar um projeto de Chi Kung em Salvador (Rosana Viana)

Fisioterapeuta morta era professora e marcou geração de colegas

Renilda Sampaio morava em Brotas, queria lançar projeto de Medicina Chinesa e deixa um filho

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Logo após a confirmação do falecimento de Renilda Santana Sampaio, no último sábado (11), surgiram incontáveis manifestações de luto nas redes sociais. Quase todas descreviam a fisioterapeuta, de 62 anos, como uma professora. Não só da profissão, que ela exerceu por 40 anos, mas, sobretudo, da vida.

Renilda marcou toda uma geração de fisioterapeutas formados na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, onde lecionou no começo dos anos 1980. À época, o ensino de Fisioterapia ainda estava engatinhando no estado. Aquele era o único curso por aqui.

A prática da fisioterapia era apenas um das facetas de Renilda. A mulher negra, nascida em Salvador, e que criou raízes no bairro de Brotas, também deixou a sua contribuição para o movimento negro da cidade, do qual era militante.

“Eu fico pensando... Em plenos anos 1980 ela se destacou na fisioterapia sendo mulher e negra. Numa profissão tão nova, que enfrentava tantos desafios. E ela se impôs. Sempre pela competência e pela busca do conhecimento. Ela abriu o caminho para muita gente”, reflete Eliana Brito, ex-aluna de Renilda e depois colega de hospital.

Renilda foi mais uma vítima da violência urbana. Estava internada no Hospital Geral do Estado (HGE) desde a segunda-feira (6) passada, depois de ter sido baleada nas costas durante um assalto na orla de Salvador. Ela foi submetida a uma cirurgia para retirada da bala, mas teve complicações e acabou falecendo.

Quando foi baleada, Renilda estava dirigindo, retornando para casa após atendimento à mãe de uma amiga, no bairro de Pituaçu. O assalto foi por volta das 15h. A fisioterapeuta reagiu tentando escapar. O assaltante atirou, a bala atravessou a lataria do veículo e a atingiu.

Uma das amigas mais próximas da fisioterapeuta, Gilda Oliveira conta que Renilda estava vivendo uma das fases mais radiantes da sua vida: “Estava muito feliz, cheia de planos, de projetos, de vida. A gente fazia muitos cursos de Medicina Chinesa juntas em outras cidades, e estávamos empolgadas com o que poderia vir”.

“Fizemos a última viagem em fevereiro, durante o Carnaval, para cursos em São Paulo e Florianópolis. Foi uma viagem muito linda, estávamos cheias de vida e de sonhos. Acho que era o auge da vida dela, voltamos para Salvador com a ideia de criar um projeto de Chi Kung. Era essa a minha amiga, linda”, completa Gilda.

Professora desde nova

Segundo os amigos, Renilda morava há anos na Ladeira da Cruz da Redenção, em Brotas, numa casa construída pelo pai e que abrigava toda a família, composta por mais três irmãos. A fisioterapeuta não era casada e criou sozinha o único filho, Dorjan, de 28 anos.

Num dos andares, Renilda fez o seu consultório, onde atendia sobretudo usando técnicas das medicinas ayurvédica e chinesa, paixões às quais vinha se dedicando nos últimos anos.

A maior parte da carreira, no entanto, ela construiu entre as salas de aula e os hospitais. Formou-se em 1980 na Escola Bahiana de Medicina e Sáude Pública. No ano seguinte, ainda aos 23 anos, tornou-se professora da faculdade, ensinando fisioterapia respiratória.

Foi nessa época em que Renilda começou a tocar a vida de muitos fisioterapeutas. “Ela era muita nova ainda, recém-formada, e já tornou-se professora. E era justo, porque era um destaque, realmente. Naquela época, fazia supervisão de estágio no Hospital Santa Izabel, onde tive o prazer de ser coordenada por ela”, lembra a fisioterapeuta Sandra Cohim.

“Ali, criamos uma ligação muito forte. Menos de um mês depois de formada, em 1984, ela me chamou para substituí-la num consultório em que trabalhava no IDAB, do Canela. Passei dez anos trabalhando lá. Ou seja, Reni (como os amigos gostam de chamá-la) me ajudou a começar tudo”, relata Sandra.

“Reni me ensinou a ser fisioterapeuta de uma forma diferente. Deixava uma mensagem de que é preciso um tratamento com outro olhar, mais humanista, enxergando o paciente pela empatia. Atender como se estivesse atendendo alguém da sua família. Ela tinha uma espiritualidade enorme”, conta Eliana Brito.

Renilda se dedicava à Medicina Chinesa (Foto: Rosana Viana)

Após deixar as salas de aula, Renilda dedicou-se ao atendimento hospitalar. A maior parte do tempo no Hospital São Rafael, onde trabalhou por 18 anos. “Eu e mais três colegas éramos pioneiras no São Rafael, que estava inaugurando àquela época. Quando quisemos ampliar o serviço, decidimos por unanimidade em convidar Renilda. Ela era professora de todo o grupo e era uma referência para todas nós”, lembra Sandra Cohim.

Junto a Sandra, Eliana e outras colegas de profissão, Renilda fundou no início dos anos 1990 a Unifisio, a maior cooperativa de fisioterapeutas do estado. Até hoje, a entidade oferece assistência hospitalar, atendimento domiciliar, ambulatorial e empresarial.

“Naquele tempo a fisioterapia ainda estava começando a ganhar o seu espaço e ela marcou época. Era uma fase em que você tinha que mostrar muito conhecimento para se impor dentro de uma cultura em que o médico era ‘dono’ do paciente. E ela mostrou a todo mundo que o atendimento hospitalar era feito por uma equipe, e os fisioterapeutas faziam parte dessa equipe”, lembra Eliana Brito.

Ainda na época de São Rafael, Renilda e colegas criaram um curso de educação continuada para fisioterapeutas recém-formados, e ela seguiu dando aulas na graduação da Universidade Católica de Salvador.

“Como legado acho que ela expandiu, foi além da fisioterapia. Pessoa de alma leve, passou por diversos desafios pessoais na carreira, criou um filho sozinha. Então era uma mulher guerreira, que iluminava as pessoas com quem convivia”, conta Sandra.

Moderna e militante

Também fisioterapeuta, a amiga Gilda conta que Renilda estava pensando em dar aulas de Chi Kung, uma das disciplinas da Medicina Chinesa, por videoconferência nos próximos meses durante o período de pandemia. Porém, num ato de altruísmo, saiu de casa para realizar o atendimento à mãe de uma amiga em Pituaçu.

“Reni era minha amiga há mais de 35 anos. Fizemos amizade por ser uma pessoa muito amiga, fiel, companheira, mesmo. Muito sincera, leal. Falar dela nesse momento é muito difícil, porque ela vai fazer muita falta em nossas vidas. Era minha irmã de estrela, de coração, de confidências”, lamenta Gilda, emocionada.

Fisioterapeuta queria criar projeto em parques de Salvador (Foto: Rosana Viana)

Olhando o seu perfil no Facebook, Renilda também era uma dedicada militante do movimento negro. Logo após o falecimento, recebeu homenagens de figuras políticas ligadas à luta, como o vereador de Salvador, Sílvio Humberto.

Segundo os amigos, a fisioterapeuta era, entre outras atividades, uma das colaboradoras mais fieis do Instituto Steve Biko. A organização beneficente combate a desigualdade racial e oferece, entre outras ações, aulas de pré-vestibular a jovens negros.

“Renilda era uma das apoiadoras do nosso instituto de primeira hora. Uma das nossas contribuintes, e o filho dela, Dorjan, foi nosso aluno. O símbolo do Instituto é uma árvore, e ela com certeza foi uma das pessoas que regaram para que virasse uma árvore frondosa de tantos frutos”, conta Sílvio Humberto, um dos criadores do Biko.

Humberto, que era amigo de Renilda, conta que a fisioterapeuta tinha na família um alicerce: “É uma família muito unida, muito forte. Temos uma relação bem afetuosa com os irmãos dela. Um deles, Lande (Onawale), é um escritor brilhante, importantíssimo para a Bahia. São parte do que a gente chama de família extensiva, oramos durante toda a semana pedindo para que ela superasse essa violência urbana terrível”.

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