Flavia Azevedo: Mulher de grelo duro

flavia azevedo
15.04.2017, 13:32:00
Atualizado: 22.11.2017, 14:25:44

Flavia Azevedo: Mulher de grelo duro


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“Mulher do grelo duro”. Outro dia escutei de novo. Tem gente que acha machista, mas eu vejo uma imagem linda, cheia de força e prazer. Na época em que a expressão ganhou mídia, ouvi mulheres ofendidas. Lembro de uma, acima dos 30, que dizia não saber que grelo ficava duro nem por que deveria ficar. 

Tive vontade de explicar, mas deu preguiça e preferi esperar pelo Globo Repórter que, com fé na deusa, um dia, vai chamar assim: “Clitóris, esse mundo desconhecido. Onde fica? Para que serve? Como vivem as mulheres que se tocam? E os homens que já conhecem esse órgão enigmático? Conheça a história do senhor de 75 anos que descobriu que a penetração nem sempre é suficiente para fazer uma mulher gozar. É hoje, não perca”! Utilidade pública.

Num mundo em que mulheres ainda tem seus clitóris extirpados com cacos de vidro, encontramos, em qualquer site “feminino”, dicas de como melhor tocar o pênis, esse deus. Num mundo em que somos todas treinadas para “enlouquecer seu homem na cama”, ainda há mulheres – urbanas e bem informadas – ignorando o fato de que esse órgão que tem entre as próprias pernas é erétil, sim, e precisa ser estimulado para que faça o seu trabalho: dar prazer. 

Simples, às vezes múltiplo e sempre transformador. Descobrir isso muda tudo. Depois desse encontro, é óbvio que mulher não vai curtir filme pornô. Pelo menos uma grande maioria. Porque não é aquilo, tá bem longe de ser aquilo. Depois de ganhar o próprio corpo, nenhuma mulher vai se torturar pra seduzir alguém, pra apenas dar prazer. É outra onda. Ou vamos juntos ou não vamos.  

Só abrir as pernas é tédio profundo, acreditem. É também tédio o que eu sinto quando vejo alguém repetir a tese caduca de que existem dois tipos de orgasmo feminino. E que o clitoriano (aquele que acontece quando estimulamos o clitóris externamente) é imaturo se comparado ao vaginal, aquele que se consegue quando o pênis (esse deus) entra e sai da vagina repetidamente. Que é assim que mulher (que é mulher mesmo) tem que se satisfazer.

É não, gente. Cada uma se satisfaz como pode e quer. E num dia de um jeito, em outro de outro. Mulher é assim, tem mais possibilidades. O povo não quer é ter trabalho, tem preguiça de entender que uretra é uma coisa e o clitóris é outra, por exemplo. Não quer ouvir as instruções, entender os sinais, porque cada mulher gosta de um jeito, de uma velocidade, de uma intensidade. Na cama e na vida.  

E a “mulher de grelo duro” tem manual escrito por ela mesma. Na cama e na vida. É tudo a mesma coisa. Se extirpar clitóris resulta em mulheres submissas, mulheres que vivenciam seus corpos com prazer são mais donas de si. Não engolem qualquer sexo, qualquer relação. Não tem medo de “pau na mesa”. O povo tem é medo de mulher que sabe gozar. 

Então, eu quero dizer duas coisas à moça que ficou ofendida com a expressão e disse não saber que grelo ficava duro nem por que deveria ficar. Primeiro, que fica sim. Que fica duríssimo e que eu gostaria que ela tentasse descobrir como o dela funciona. Que não adianta andar gostosa por aí se esse corpo todo lindo não lhe dá prazer. Segundo, que, num mundo onde você, moça, não sabe que seu próprio grelo pode ficar duro, “mulher de grelo duro” é, sim, uma belíssima metáfora, uma lembrança, um forte chamado para a liberdade e força que todas nós podemos ter.

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