Flavia Azevedo: Mulheres impostoras

salvador
05.05.2017, 15:02:00
Atualizado: 22.11.2017, 14:26:40

Flavia Azevedo: Mulheres impostoras


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Numa noite carioca, entre chopes e bolinhos de camarão, ela me disse: “às vezes penso que sou uma fraude, que não mereço estar onde estou, que engano as pessoas, que na verdade não sou competente”. A minha amiga é uma mulher foda, profissional reconhecida, grande no que faz. Eu disse “eu também” e ficamos tentando entender que maluquice era essa de não se sentir merecedora daquilo que é conquistado com suor e competência.

Anos depois, me adicionaram num grupo chamado “Mulheres Impostoras” e eu descobri que esse sentimento, que parecia só uma viagem de amigas, tem nome e tudo. “Por que a ‘síndrome da impostora’ continua atormentando as mulheres?” é o título da matéria em que mulheres – inclusive famosas e bem sucedidas - confessam que se sentem como se enganando o mundo.

Há estudos, infinitas matérias sobre o tema. E relatos, muito relatos de mulheres que, simplesmente, acham que não merecem estar “ali”. O “ali” pode ser a conta recheada, milhões de discos vendidos ou um cargo de chefia. Não importa.

Perdi a conta das vezes em que passei um trabalho para alguém que eu julgava mais competente do que eu. E já aconteceu de virar “conselheira” (remunerada ou não) da pessoa que eu coloquei “ali”, no lugar para o qual me julguei insuficiente.

Dar a vez, abrir mão é atitude honesta e natural, quando reconhecemos limitações reais. Convidar é bom, dividir oportunidades é saudável e abre portas.

Eu não sou capaz de pilotar um avião, construir uma casa ou cozinhar para 150 pessoas, por exemplo. Mas, e quando você chama alguém para fazer o trabalho para o qual foi convidada e passa a ser “o cérebro” dessa pessoa em conversas intermináveis? Daí, vê a pessoa executar todas as suas ideias e ganhar cinco vezes mais do que você, que passou a ser apenas uma assistente no projeto? E pior: acha justo. Ele era um homem, obviamente. Um querido, mas que jamais disse “essa ideia foi dela”, em qualquer reunião com a chefia. Essa ficha só caiu pra mim anos depois. Morro de vergonha.

Há feridas femininas coletivas e precisamos lamber cada uma delas. A construção da autoestima pode durar uma vida e passa por lugares bem mais profundos (e doloridos) do que a aceitação dos nossos cabelos e pernas. A gente pode começar por aí, mas precisa de outras curas. É preciso, além de gritar pro mundo, aceitar profundamente que merecemos as nossas vitórias.

Além de vencer, convencer a nós mesmas de que são legítimos os aplausos na linha de chegada. É preciso aceitar, profundamente, elogios além do “você é linda”, muito além dessa existência de bastidores, de suporte, de escada que parece perfeita pra nós. Não é. A gente também tá no front. E sabe atirar.

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