Flavia Azevedo: Você não gosta de mulher

flavia azevedo
08.03.2017, 12:05:00
Atualizado: 22.11.2017, 14:36:03

Flavia Azevedo: Você não gosta de mulher


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Bronzeada e tranquila, relaxadinha aqui no conforto da minha cama, em paz e confortável com o meu gênero, pensando no 8 de março, gostaria de mandar um recado prum pessoal:

Para a mulher casada com um amigo meu de infância que disse à minha mãe (que estava em minha casa para me ajudar nos primeiros meses do meu filho) “deixa ela se virar sozinha”: você não gosta de mulher. 

Pro cara que um dia disse que eu queria “me igualar aos homens” porque estava bebendo, rindo e jogando, num churrasco: você não gosta de mulher. Para a esposa do meu chefe que me prejudicou profissionalmente, por ciúmes, ainda que eu jamais tenha mostrado qualquer interesse pelo homem dela: você não gosta de mulher. 

Para a ex-sogra que entrou no quarto, enquanto eu me vestia, segurando um sutiã da filha insistindo que era importante eu passar a usar essa peça: você não gosta de mulher. Pro homem que disse “que saco, você só vive chorando” quando eu estava cuidando de um bebê que quase não dormia, em plena depressão pós-parto: você não gosta de mulher. 

Para todas as pessoas que me importunaram durante os meus quatro anos e meio de amamentação: vocês não gostam de mulher.

Pro cara que, ao ouvir que eu não queria mais estar com ele, levantou a mão direita e tentou me bater: você não gosta de mulher. 

Para o ex-namorado que se sentiu no direito de me agredir verbalmente porque sentia ciúmes de uma relação minha do passado: você não gosta de mulher. 

Para o ginecologista que fez questão de me exibir uma ereção enquanto me fazia uma ultrassonografia transvaginal: você não gosta de mulher. 

Para os trabalhadores que pavimentaram a rua em que eu morava, inviabilizaram a entrada do meu carro em minha garagem e me assistiram tirar sozinha, com uma enxada, toda a terra da frente do meu portão, dizendo gracinhas: vocês não gostam de mulher. 

São infinitos casos. São muitas agressões cotidianas cujo alvo é o feminino e tudo que ele traz. Poderia escrever por horas, mas por hoje é isso. Nunca fui eu a questão dessas pessoas. É quando o feminino se manifesta. É quando o feminino transborda, sai do padrão, não se curva. Nunca fui eu indivíduo. Nunca foi com uma só mulher.

Eram genéricas tetas, era a amamentação, eram as gargalhadas insuportáveis de uma mulher feliz. Era a vida amorosa de uma mulher livre. Era uma mãe ajudando a filha, uma mulher sendo apoiada. Era a vulnerabilidade das pernas abertas na mesa de exames. Era uma mulher dizendo “não quero mais você”. Era uma mulher mostrando que se virava bem com uma enxada. E disso, muita gente não gosta. Mesmo algumas mulheres. Mesmo que não saibam. Reagi todas (todas, como pude!) as vezes. E agora me sinto mais acompanhada. Estamos mais juntas e muito mais fortes. Não tem mais volta. Oba!

Flavia Azevedo é produtora e mãe de Leo

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