Foi o primeiro round de uma luta entre os candidatos ao governo da Bahia

armando avena
10.08.2018, 05:00:00
Atualizado: 10.08.2018, 09:09:52

Foi o primeiro round de uma luta entre os candidatos ao governo da Bahia

O encontro dos principais candidatos ao Governo do Estado Bahia, promovido pelas federações de comércio, indústria e agropecuária e realizado na última terça-feira, deu o tom de como será a disputa entre o governador Rui Costa e o candidato da oposição José Ronaldo.  Os candidatos se apresentaram de forma separada, mas foi possível perceber que Rui Costa, que lidera com folga as pesquisas de intenção de votos, vai focar seu discurso naquilo que fez, especialmente as obras de mobilidade urbana, saúde e infraestrutura, e naquilo que fará,  colocando a culpa pelo que não fez no governo federal e nos órgãos de  controle.
   Já o candidato da oposição, José Ronaldo, em desvantagem nas pesquisas, vai centrar seu discurso nas promessas não cumpridas pelo governo estadual e no ataque aqueles que considera os pontos fracos do governo Rui: segurança pública, educação, economia e infraestrutura. O governador vai tentar federalizar a eleição e trazer o governo Lula para o palanque, enquanto Zé Ronaldo vai focar nos problemas locais e na suposta fadiga política do grupo que está há 12 anos no poder.
A fala de cada um foi ilustrativa.  Rui disse que a Ferrovia de Integração Oeste Leste (Fiol) e o Porto Sul continuam sendo prioridades e que não saíram ainda porque, embora tivesse solicitado a gestão da obra  ao governo federal, seu pleito não foi atendido. Destacou obras como o metrô, os investimentos em saúde e os recursos de R$ 1,2 bilhão destinados à agricultura familiar, mas reclamou afirmando que o governo federal não vem repassando recursos para o estado. Criticou fortemente  os órgãos de controle e corporações, referindo-se aos Tribunais de Contas e ao Ministério Público, que estariam atrasando investimentos em logística e tornando difícil a busca de recursos para o estado.
Disse explicitamente  que a duplicação da estrada Ilhéus-Itabuna não saiu por causa do TCU e afirmou que a reforma da Previdência prometida e não realizada por Temer levou a um aumento acentuado nas aposentadorias, agravando o déficit da previdência estadual que, segundo ele, chegará a R$ 3,2 bilhões este ano e R$ 4 bilhões no ano que vem. Por fim, fechou com o discurso de que o país não pertence aos governantes e corporações e, referindo-se claramente ao Ministério Público e órgãos de controle, disse que seus ocupantes “por terem feito concurso público” se acham donos do Estado.
O candidato Zé Ronaldo, pelo contrário, sequer tocou na questão nacional, focou diretamente no governo com críticas à gestão fiscal e às obras que, segundo ele, foram prometidas e nunca concretizadas e que andam “mais devagar do que um cágado”, citando a ponte Ilhéus-Pontal, a Fiol, a ponte Salvador-Itaparica, a duplicação da estrada entre Itabuna e Ilhéus e um trem de alta velocidade entre Salvador e Feira, cuja construção foi aventada em algum momento pelo vice governador Joao Leão.
 Agressivo, acusou o governo Rui Costa de elevar a carga tributária, prejudicando  a atividade produtiva, e disse que o governo do estado aumentou o ICMS da gasolina em 5% e do diesel em 7%, implantou uma taxa que está sendo  paga pelos distritos industriais e criou uma contrapartida de 10% para os incentivos já concedidos e, imediatamente,  prometeu que vai acabar com esses dois últimos impostos. Emendou a critica afirmando que, com isso,  a economia baiana perdeu dinamismo e que, por isso, entre 2007 e 2014, o PIB da Bahia cresceu 27%, enquanto o PIB do Brasil cresceu 34%. Disse que na recessão o PIB da Bahia caiu cerca de 7%, enquanto o PIB do Brasil caiu apenas 5%, para então ironizar: “Quando o PIB do Brasil cresce, o PIB da Bahia cresce menos e quando o PIB do Brasil cai, o PIB da Bahia cai mais”. 
Questionou também a gestão fiscal do estado, exatamente um dos pontos altos do governo Rui, afirmando que houve um crescimento descontrolado da dívida pública que já estaria em R$ 6 bilhões e que o desequilíbrio fiscal do governo chegou a tal nível que obteve nota C na capacidade de pagamento auferida pelo Tesouro Nacional.
Foi o primeiro round de uma luta cujos assaltos vão se estender pelos próximos meses e não houve ganhadores, mas é esse o tipo de debate que a população quer ver e, nesse sentido, só cabe parabenizar a Fecomércio-BA, a Fieb, a Faeb e todas as lideranças empresarias  que saíram na frente em uma campanha que promete ser mais aguerrida do que
parecia.


A importância do comércio

Ao falar para os candidatos que se apresentaram no encontro promovido pelas federações da agropecuária, indústria e comércio, o presidente da Fecomércio-BA – Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia, Carlos Andrade, destacou a importância do segmento que representa, lembrando que ele é responsável por quase 70% do PIB baiano, emprega cerca de 80% da mão de obra e é composto por milhares de micro, pequenos e médios empresários. Andrade pediu que os próximos governantes deem mais atenção ao setor. A demanda procede, afinal, faz mais de 20 anos que não se vê um nome ligado ao setor comercial e de serviços assumir a Secretaria de Desenvolvimento Econômico.


Cai mais um gigante do varejo

A Máquina de Vendas, rede de varejo especializada em eletrodomésticos, que surgiu em 2010 com a fusão da Ricardo Eletro com a rede baiana Lojas Insinuante, não resistiu à crise e vai protocolar pedido de recuperação extrajudicial. A empresa deve R$ 1,2 bilhão e 70% de seu capital será vendido para o fundo americano Starboard por R$ 500 milhões. Com esse dinheiro, a empresa, que já teve 1.050 lojas e 24 mil funcionários, vai pagar suas dívidas.


Aposentadorias no Judiciário

O governador Rui Costa disse, no encontro de pré-candidatos, que na Bahia, como em todo Brasil, o Poder Judiciário não quer divulgar o valor das suas aposentadorias. Quem paga as aposentadorias é o Poder Executivo que quer rolar a folha conhecendo o valor das aposentadorias para assim avaliar e controlar o montante de cada uma. Mas, atendendo a uma ação da associação de juízes e de uma associação ligada ao Ministério Público, foi concedida  liminar para não dar transparência as aposentadorias de juízes e funcionários do poder.  Ou seja, o governo repassa o dinheiro das aposentadorias ao Judiciário, mas não sabe quem está recebendo, nem quanto.


As declarações do vice de Bolsonaro

As declarações do candidato  a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão, sobre os brasileiros terem a cultura do privilégio, a malemolência e a indolência de negros e índios caracterizam crime de racismo explícito e mostram desconhecimento da formação brasileira. Mourão assume, na verdade, o discurso do opressor que tachava índios e negros como preguiçosos porque desejava extrair deles mais trabalho, explorando-os até o limite de suas forças. Já a cultura do privilégio não era de todo brasileiro, mas apenas da classe dirigente, que usava os impostos arrecadados de todos em benefício de poucos.