História: Confira as principais transformações do cortejo do 2 de Julho

bahia
29.06.2019, 06:30:00
Cortejo do 2 de Julho em 2002, com forte participação popular (Paulo Macedo/Arquivo CORREIO)

História: Confira as principais transformações do cortejo do 2 de Julho

Evento é realizado desde 1824; em 1828, festa ganhou caráter popular

Tudo começou no dia 2 de julho de 1824. A data marcava o aniversário de um ano desde a expulsão das tropas portuguesas de Salvador, episódio que ficou conhecido como Independência da Bahia e que marcou as lutas pela libertação do Brasil do domínio português. Ali começaram as celebrações – hoje, é feriado no Estado -, com festividades organizadas pela própria sociedade. Desde então, religiosamente, todo ano, chova ou faça sol , acontece a mistura de festa cívica e popular.

A festa, contudo, passou por diversas transformações no decorrer dos seus 195 anos de existência. Mudanças no trajeto, inserção da figura da cabocla, construção do monumento do caboclo no Campo Grande e tantas outras transformações que contribuíram para o evento ganhar a dimensão e importância que tem para os baianos.

O CORREIO, a partir de relatos do jornalista e pesquisador Jorge Ramos, integrante da comissão de cultura do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e do jornalista e escritor Nelson Cadena, autor de 'Festas Populares da Bahia', mostra nesta reportagem quais foram as principais mudanças ocorridas no cortejo. Confira:

Primórdios

Segundo Cadena, os festejos do 2 de julho começaram na Ilha de Itaparica, no dia 7 de janeiro de 1824. A festa em Salvador aconteceria quase seis meses depois, de forma semelhante. Embora a participação popular seja a principal marca da festa, no início não foi bem assim.

"A nossa primeira celebração de 2 de Julho foi oficialíssima, mesmo, com desfile de tropas, salvas e vivas ao imperador na passagem do cortejo e no palanque. O povo, como já era praxe desde as festas reais do Brasil Colônia, participava apenas como espectador, aplaudindo e ornamentando as casas de quem residia no percurso com colchas e flores", conta Cadena.

O povo só passou a participar ativamente do evento em 1828, acrescenta o pesquisador. 

Já a figura do caboclo está presente desde o início, carregada por uma carreta tomada dos portugueses na batalha de Pirajá. Entretanto, a imagem usada até hoje foi esculpida em 1826, dois anos após o início das festividades. Antes, uma pessoa de descendência indígena simbolizada a figura.

Registro de 2001 mostra as alas de pastorinhas dos Ternos da Lapinha no cortejo (Foto: Haroldo Abrantes/Arquivo CORREIO)

Cabocla

Já em 1846, a imagem da cabocla é incorporada à festa, a pedido do Marechal Andréa, então governador da província da Bahia.

"Português de nascimento, ele achava difícil essa coisa de os portugueses serem massacrados com a imagem do caboclo amassando uma serpente, que representava Portugal. Ele dizia que os portugueses eram hostilizados. Então, ele mandou fazer uma cabocla para representar Catarina Paraguassu", conta Jorge Ramos.

Outra mudança importante foi a construção do Monumento ao Dois de Julho, no Campo Grande, em 1895, o que provocou, consequentemente, alterações no trajeto do cortejo, que agora não terminava mais no Terreiro de Jesus. E assim, o desfile foi dividido em duas partes. A primeira, da Lapinha ao Terreiro, com o desfile festivo, e a segunda, cívica, até o Campo Grande.

Organização

A organização também passou por mudanças. Até 1917, o desfile era organizado pela Sociedade Patriótica Dois de Julho. Contudo, a sociedade enfrentava dificuldades financeiras e não tinha mais dinheiro para bancar os desfiles, segundo Jorge Ramos. Foi então que Cosme de Farias, que integrava a sociedade, decidiu passar ao IGHB a organização da festa.

Em 1918, já sob a responsabilidade do IGHB, é inaugurado o Pavilhão da Lapinha, onde ficam guardados os carros emblemáticos e as esculturas do caboclo e da cabocla. "O poder público passou a ter maior participação na organização a partir daí também", revela Ramos.

Primeira cobertura do CORREIO da festa do 2 do Julho, em 1979 (Foto: Carlos Catela/Arquivo CORREIO)

Te Deum

O Te Deum - um hino da Liturgia das Horas, rezado nos domingos e dias solenes em ação de graças - também passou por mudanças. Ele era celebrado no dia 2 de julho, quando o desfile já estava acontecendo. "Era tumultuado, porque acontecia quando o desfile estava acontecendo. Ou esvaziava o desfile ou o próprio Te Deum", diz Ramos.

Assim, ele complementa, a celebração passou a acontecer no dia 1º, para evitar a concorrência. Este ano, o Te Deum acontece amanhã, a partir das 10h, e voltará a ocorrer na Catedral Basílica do Salvador, no Terreiro de Jesus, com a presença de autoridades civis e militares. A catedral foi reaberta em setembro do ano passado após uma reforma de três anos e oito meses, que custou R$ 17 milhões. Antes, a celebração vinha ocorrendo na Lapinha.

Fachadas

Uma grande marca do desfile são as fachadas enfeitadas. Essa tradição, segundo Jorge Ramos, começou por volta das décadas de 1930 e 1940. Inicialmente, a motivação foi um concurso, que premiava as melhores decorações. Depois, mesmo com o fim da competição, os moradores do trajeto mantiveram o costume e continuaram enfeitando suas casas, usando inclusive personagens que marcaram o 2 de Julho, como Maria Quitéria, Joana Angélica, General Labatut e outros. Atualmente, a Fundação Gregório de Matos realiza o concurso de premiação da fachada mais bem decorada do trajeto.

Os principais heróis do 2 de Julho:

Maria Quitéria - Primeira mulher a lutar no Exército Brasileiro. É considerada a “Heroína da Independência”

Maria Felipa de Oliveira - Conhecida em Itaparica como a "Heroína Negra da Independência", liderou grupos populares que fortificaram com trincheiras e vigiaram as praias da ilha para evitar o desembarque das tropas portuguesas

Joana Angélica - É considerada ‘Mártir da Independência’. Foi morta ao tentar impedir que os soldados portugueses invadissem o Convento da Lapa

General Labatut - Foi escalado por D. Pedro I para comandar o exército rebelado contra os portugueses

João das Botas - Liderou uma flotilha de saveiros que travou épicas batalhas navais contra a esquadra portuguesa na baía de Todos os Santos. Cortou as linhas de abastecimento de suprimentos para as tropas inimigas, levando ao enfraquecimento do exército luso.

Lorde Cochrane - Assumiu a patente de primeiro-almirante e comandou a esquadra brasileira nas Batalhas pela Independência

Ladislau Titara - Foi um militar, historiador e poeta. É o autor de 'Paraguaçu: Epopeia da Guerra da Independência na Bahia', inspirado na obra ‘Os Lusíadas’, do poeta português Luiz de Camões

Barão de Pirajá -  Título concedido a Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, um dos responsáveis por defender a entrada de Salvador por Pirajá, principal acesso por terra para a capital baiana, que era alvo do exército luso.

Políticos

Se hoje o 2 de julho é considerado um termômetro de popularidade para políticos no estado, no começo não era assim. As manifestações políticas começaram a partir da década de 1910, de acordo com Jorge Ramos, mas ganharam força há cerca de 50 anos.

"Na parte da manhã, o 2 de julho se transformou num palco de manifestações de todo o tipo. No próprio perído da ditadura, mais no final, o desfile era espaço de  protestos, que pediam eleições diretas e anistia", lembra ele, que era  estudante na época. "Houve muitos confrontos durante o desfile entre pessoas que defendiam bandeiras diferentes", complementa o jornalista e membro do IGHB

Cosme de Farias, por exemplo, tinha participação política ativa, defendendo a bandeira do fim do analfabetismo. Octávio Mangabeira e Régis Pacheco também passaram pelo crivo do 2 de Julho. "Naquela época se dizia que os políticos que não fossem ficavam queimados com a população", recorda.

Por outro lado, uma tradição que se perdeu foi a dos oradores populares. Ramos conta que era comum que, ao longo do cortejo, pessoas pegassem o microfone para discursar em homenagem à data e lembrando inclusive dos heróis da independência. "As pessoas se emocionavam muitos nos discursos. Era até um momento para quem queria ser candidato aparecer", diz. 

Imagem do Caboclo no Campo Grande vista de perto durante restauração da estátua. Monumento tem quase 26 metros de altura (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Novidades

O gerente de Promoção Cultural da Fundação Gregório de Mattos (FGM), Felipe Dias Rego, coordenador geral do Dois de Julho, diz que o desfile este ano tem algumas novidades. Uma delas foi o concurso cultural “Aos pés do caboclo”, que levou quatro pessoas, na quinta-feira (27), para conhecer o monumento de perto. 

A visita foi conduzida pelo professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), José Dirson Argolo, 74, restaurador responsável pela recuperação da estrutura do Caboclo. Rego conta que esse ano será gravado um documentário chamado "Patrimônio do Povo", tema da festa em 2019. "Vai ser bem focado nessas participações populares. É uma festa essencialmente popular", conta. 

A outra mudança é o retorno do Te Deum à Catedral Basílica. No ano passado, o cortejo teve que começar uma hora antes, às 8h, por conta do jogo do Brasil contra o México pela Copa do Mundo de 2018. Este ano, a programação retorna ao horário normal, com o cortejo começando às 9h. 

Principais mudanças do 2 de Julho ao longo dos anos:

1826 - A imagem do caboclo é criada. A figura representa os heróis populares da guerra, como os soldados, índios, negros escravizados e libertos, os sertanejos e a população voluntária que se organizou por conta própria.

1846 – A imagem da cabocla é inserida na festa com esse mesmo objetivo de celebrar o heroísmo popular.

1895 - Construído o monumento no Campo Grande. Tem quase 26 metros de altura e o autor é Carlo Nicoliy Manfredi, vice-cônsul do Brasil em Carrara (Itália), com a colaboração de outros artistas italianos. O percurso do desfile é ampliado até o Campo Grande e as comemorações começam a ocorrer a partir do dia 1º de Julho, com a chegada do fogo simbólico à Pirajá.

1918 - IGHB passa a ser o principal organizador do cortejo, com a construção do Pavilhão da Lapinha. A celebração do Te Deum - ofício de ação de graças - passa a ocorrer no dia 1º

Anos 1930/40 - Começa a ocorrer o Concurso que premia a fachada mais decorada no trajeto do cortejo. A tradição de oradores populares no cortejo deixa de ocorrer 

2006 – A comemoração do Dois de Julho passa a ser considerada Bem imaterial do Estado

2019 – A celebração do Te Deum volta a ocorrer na Catedral Basílica
 

Programação

A programação comemorativa para o dia 2 de julho terá início neste domingo (30), quando haverá a saída do Fogo Simbólico da cidade de Cachoeira, passando pelas cidades de Saubara, Santo Amaro da Purificação, São Francisco do Conde, Candeias, Simões Filho, até chegar ao bairro de Pirajá, em Salvador, conduzido pelos soldados do Exército e atletas baianos. O município de Cachoeira, ponto de partida da chama, teve extrema importância na luta pela libertação, por ter rompido com a Coroa Portuguesa, em 25 de junho de 1822, e ter se tornado quartel general das tropas libertadoras que lutaram na Bahia contra o exército e a esquadra de Portugal. 

No dia 1º de julho (segunda), os atos comemorativos começam às 16h, com a chegada do fogo simbólico ao bairro de Pirajá. No mesmo horário, haverá o acendimento da Pira, no Largo de Pirajá, o hasteamento das bandeiras por autoridades e a colocação de flores no túmulo do General Labatut. 

No dia 2 de julho (segunda), ápice das comemorações, uma alvorada com queima de fogos na Lapinha, às 6h, abre a programação da data. Às 8h30, acontece o hasteamento das bandeiras por autoridades, com a execução do Hino Nacional, pela Banda de Música da Marinha do Brasil. 

Em seguida, acontece a Colocação de Flores no monumento ao General Labatut e, na sequência, os carros emblemáticos do Caboclo e da Cabocla iniciam o desfile pelas ruas do bairro da Liberdade, Santo Antônio Além do Carmo, Pelourinho, Praça Municipal e Avenida Sete de Setembro, em direção ao Largo Dois de Julho (Campo Grande). 

O 196º ano de comemorações do Dois de Julho será finalizado por volta das 17h, no Campo Grande, em ato simbólico de hasteamento das bandeiras do Brasil, Bahia e Salvador, colocação de coroas de flores no Monumento ao Dois de Julho pelas autoridades presentes; além do acendimento da Pira do Fogo Simbólico pelo atleta olímpico de natação Edvaldo Valério. 

Serviços

O trânsito e o transporte de Salvador sofrerão alterações na terça-feira (2) por conta do cortejo do Dois de Julho. Nove linhas de ônibus que operam no Centro da cidade serão reforçadas, circulando com frota máxima das 10h às 20h. A Estação da Lapa receberá nove veículos da frota reguladora para a fiscalização, das 16h às 23h. 

Diversos bairros receberão intervenções no trânsito por conta do feriado. No trajeto, realizado pelo cortejo, que inicia no Largo da Lapinha e termina na Praça Municipal, haverá a proibição de estacionamento e circulação de veículos a partir de 0h de terça-feira (2). 

Já o trecho que vai da Praça Municipal até o Largo do Campo Grande ficará interditado para estacionamento a partir das 5h do dia 2 e, a partir de 13h do mesmo dia, terá a proibição da circulação de veículos. 

Também haverá modificações em algumas ruas dos bairros que compõem o trajeto, como o desvio do tráfego da Rua Lima e Silva para a Rua Pero Vaz, na Liberdade a partir de 5h de terça-feira (2). 

A Rua Emídio dos Santos, no Barbalho, terá sentido duplo de tráfego no trecho entre a Rua Professor Viegas e a Travessa Emídio dos Santos, das 8h às 12h do dia 2. Um corredor especial de tráfego para veículos credenciados será criado na Avenida Anita Garibaldi, Dique do Tororó, Rua Djalma Dutra, Dois Leões, Estrada da Rainha, Largo do Queimadinho e Rua Campos França.

Durante a passagem do fogo simbólico, que deve começar às 14h do dia 2, uma interdição progressiva será realizada no tráfego começando na Praça General Labatut em direção à Rua da Bolívia. Ao todo, 58 barreiras, entre fixas e móveis, serão instaladas na cidade por conta do cortejo.

Na sexta-feira (5), em decorrência do evento "Volta da Cabocla", o Largo da Lapinha terá proibição de estacionamento de veículos a partir de 14h. Já a partir das 17h, a interdição progressiva será feita do Largo do Campo Grande ao Largo da Lapinha.

Este conteúdo faz parte do projeto Correio 40 anos, que tem oferecimento do Bradesco, patrocínio do Hapvida e Sotero Ambiental, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio de Vinci Airports, SESI, Salvador Shopping, Unijorge, Claro, Itaipava Arena Fonte Nova, Sebrae, Santa Casa da Bahia.


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