HQ narra trajetória de superação da autora do livro Quarto de Despejo

Literatura
26.07.2016, 13:39:00

HQ narra trajetória de superação da autora do livro Quarto de Despejo

A trajetória da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) impressiona por vários motivos

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A trajetória da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) impressiona por vários motivos. Sobretudo pela consciência artística que existia na mineira, autora do livro Quarto de Despejo. Para ela, escrever era o mais importante, mesmo com a miséria da favela, os três filhos para criar sozinha, o preconceito racial, o trabalho duro de catadora de papelão...

É esse sentimento que a HQ Carolina (Veneta | R$ 39,90 | 128 páginas) mostra muito bem. Assinada em parceria entre a professora de literatura Sirlene Barbosa e o artista visual João Pinheiro - autor de HQs sobre Kerouac e Burroughs - a biografia é uma boa maneira de se aproximar do universo difícil e injusto em que Carolina viveu.

A história começa no ano da morte da escritora. Aos 63 anos, ela está desolada no modesto sítio na cidade de Parelheiros, onde viveu os últimos dias. Depois, a trama volta ao ano de 1955, com Carolina instalada na favela de Canindé, na zona norte de São Paulo, catando papelão para alimentar os três filhos pequenos. 

Cronista da favela
O dia a dia na favela é o tema principal das incessantes anotações que Carolina fazia em vários  cadernos. Sujeira, intrigas, bate-bocas, pequenas alegrias e muitas injustiças. Ela não deixava passar nada. E ainda usava o poder da escrita para ameaçar os vizinhos: “Vou botar você no meu livro”.

Foi num desses dias de ira que o jornalista Audálio Dantas a descobriu. Ele estava fazendo uma reportagem sobre a favela para o jornal Folha da Noite, quando se deparou com aquela mulher altiva brigando com adultos sem noção que ocupavam o parquinho infantil. 

“Que livro é esse?”, perguntou Audálio, iniciando a parceria que resultaria em matérias para a imprensa - incluindo a poderosa revista O Cruzeiro - e na publicação de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, em 1960. O livro trazia uma seleção de trechos de 20  cadernos escritos por Carolina entre 1955 e 1960.

Sucesso instantâneo, o livro chegou em poucos meses a 100 mil exemplares, superando, naquele ano, o maior vendedor de livros do período: Jorge Amado (1912-2001), que lançara Gabriela Cravo e Canela. Ela foi publicada em 40 países e em 14 línguas, tornando-se um dos maiores fenômenos da literatura brasileira.

Com Quarto de Despejo, Carolina realizou seu grande sonho de se tornar escritora. Também mudou de vida. Viajou por todo o país e pela América Latina, foi a programas de televisão e fez contatos com a nata da literatura, como a escritora Clarice Lispector (1920-1977). Deixou a favela, ou melhor, “a sucursal do inferno”, xingada pelos vizinhos, que a acusavam de expor suas histórias. 

Mas o conto de fadas durou pouco. Logo, Carolina deixou de interessar a mídia. Tampouco fora aceita no meio literário, que a via como um ser exótico. Até os vizinhos do bairro de classe média de Santana torceram o nariz para a ex-favelada - o que a fez comprar e se mudar para o sítio.

Carolina ainda lançou, sem o mesmo sucesso, o livro Casa de Alvenaria (1961) e outras coisa esparsas. E chegou a gravar um disco, também chamado Quarto de Despejo (1961), com canções que ela mesmo escreveu. Mas nada impediu que caísse num longo esquecimento. Que, felizmente, começa a ser quebrado com trabalhos bacanas como a HQ Carolina.

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