Iemanjá raiz: quem realmente faz o 2 de fevereiro acontecer?

salvador
02.02.2020, 12:53:00
Atualizado: 02.02.2020, 16:31:49

Iemanjá raiz: quem realmente faz o 2 de fevereiro acontecer?

Tradição é levada a sério por quem chega cedo para começar a festa

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“Por que chega tão cedo?”, pergunta a reportagem a um senhor grisalho, que, pouco depois das 6h, já havia entregado flores azuis e brancas para Iemanjá. “Eu nasci às 11h30, há 54 anos, no meio da Baía de Todos os Santos, nos braços dela”, responde Sebastião Pereira, 54 anos. Os tambores ecoam e as pessoas gritam e batem palmas. Na praia, flores são arriadas em homenagem à orixá por devotos e pescadores. Uma reverência que mantém viva uma tradição de pelo menos 100 anos da festa que se tornou ontem Patrimônio Cultural de Salvador.  

É como se a Festa de Iemanjá fosse dividida em duas complementares: uma começa no dia 1, quando filhos de santo começam as reverências a orixá, enquanto devotos e curiosos se espalham pela orla do Rio Vermelho; outra, mais raiz, na madrugada do dia 2, quando, às custas de esforço pessoal e de força de trabalho, homens e mulheres madrugam para fazer a festa. Costumam acordar até antes das 5h e ir direto para o Rio Vermelho. 

Foto: Tiago Caldas/CORREIO 

Desde que nasceu no mar da Baía, Sebastião homenageia Iemanjá. A mãe, Marta Valente, em veraneio na Ilha de Itaparica, precisou retornar às pressas a Salvador. Sebastião não esperou e nasceu em pleno ferry-boat, no dia de Iemanjá.

“É uma coisa bonita. Sempre trago rosas, perfume e peço paz e prosperidade”, conta Sebastião.

Nas mãos, a maioria dos devotos trazia flores azuis e brancas, as preferidas da orixá - as roupas costumam ter os mesmos tons. O público, entre as 5h e 7h, é visualmente mais velho e se importa menos com registros para redes sociais.

Na entrada do caramanchão, onde são entregues as oferendas oficiais levadas pela Colônia de Pescadores Z1 do Rio Vermelho, Augusto Guia, 72, conta que ir à Festa de Iemanjá é tradição familiar. O avô, Pai Joaquim de Xangô, era Obá do Ilê Axé Opô Afonjá. 

“É um respeito muito grande à mãe de todos os orixás. Filho de qualquer orixá deve render homenagem à mãe maior que harmoniza a natureza”, diz ele, com o pescoço carregado por guias dos orixás Oxaguiã e Oxum.

Às 8h, a fila para entrega dos presentes na Casa de Iemanjá ou no caramanchão, onde são reunidos os presentes levados para o mar por pescadores, demorava até uma hora. A espera era paciente. “Estou aqui porque o propósito é agradecer pelas dádivas. Por ter saúde, por ter força, fé e livramento todos os dias”, disse Jaci Brito, 65, corretora de imóveis. 

Acompanhe cobertura em tempo real da Festa de Iemanjá

O lado ancestral 

Atrás de Augusto, candomblecistas do Ile Axe Jibayê, de Itinga, cuidavam do principal presente do dia. A imagem de Iemanjá, finalizada há um mês, ficou sob os cuidados da Casa. O artesão responsável prefere não ser identificado. Há seis meses, começaram os preparativos para a festa, quando um jogo de búzios (ifá) pergunta a Iemanjá como tudo deve ser feito. A rainha das águas participa diretamente do seu dia.

A imagem ficou protegida do sol no caramanchão. “É uma missão nossa”, acredita Elton Machado, 35, empresário, iniciado no terreiro. O Candomblé e a Umbanda são duas raízes da festa. Sem seus representantes, sequer existiria. Os tambores, agogôs e atabaques tocados por eles ecoavam desde a noite anterior. Eles ficam abaixo do caramanchão ou na areia, organizados em tendas. Alguns incorporam orixás - como a própria Iemanjá - e caboclos. Outros ficam vestidos como marinheiros.

Aos 13 anos, José Pedro Moreira tocava tambor desde as 21h da noite anterior, vindo de uma casa de Umbanda em Jandaíra, no norte da Bahia. “Desde pequenininho, eu venho”, diz ele, com os dedos das duas mãos envolvidos por esparadrapo para resistir às batucadas. Para eles, vale tudo para saudar a rainha do mar.

Na areia, sob as tendas dos terreiros, filhos de santo e lideranças religiosas tocavam músicas cantadas em português e em iorubá. As sonoridades das religiões de matriz africana são a própria festa. Pessoas dançavam, fotografadas por baianos e turistas. Elas também sabem que fazem a festa de Iemanjá acontecer.

‘A gente não cobra, só agradece’

Tarley França, 38, aponta para o mar e mostra a embarcação Rio Vermelho. É ela quem guia, a um quilômetro de distância da praia e sempre às 16h, o presente de Iemanjá para o mar. O pescador é responsável por pilotar o barco há 10 anos. Outros 10 pescadores acompanham o trajeto. “A gente não cobra, só agradece. Meu envolvimento na festa aqui é o apoio e a reverência que temos a ela”, explicou ele, às 8h, quando ainda havia espaço na areia. 

Os pescadores estão por todos os lados. No caramanchão, organizam as oferendas em balaios. Na porta da Casa de Iemanjá, um deles recepcionava as pessoas e pedia que, se possível, evitassem plástico e não acendecem velas ali dentro.

“Sem a gente não tinha festa, mas muita gente não reconhece os pescadores”, disse o pescador Marivaldo Santos, 50. Ele próprio recorre a Iemanjá em dias de tormenta no mar. 

O trabalho inclui levar para o mar quem quer depositar pessoalmente os presentes na água. Por pessoa, os pescadores cobravam de R$ 10 a R$ 15. Três ramos de flores custam, em média, R$ 10. Ao longo do dia, Marcelo Novaes, 33, leva e traz devotos. Ele próprio já havia entregado seu presente. “O pessoal que vem mais cedo é o pessoal mais devoto, que gosta mais da religião”, opinou Marcelo. “É outra galera”, resmungou uma ambulante, ao lado de Marcelo. 

Tradição é de manhã

Quem frequenta a Festa de Iemanjá por tradição costuma cumprir, ainda, outros hábitos, como a de ir até o Dique do Tororó, na noite anterior. A festa de Iemanjá começa com uma saudação a Oxum, rainha da água doce. Encostada numa pedra, Valmira Cristina Ramos, 78, conta que Iemanjá merece tanta reverência. O filho, Erlon, completa anos no dia da orixá. Enquanto o bebê vinha ao mundo, Valmira via de relance, pela televisão, a embarcação com o presente de Iemanjá.

“Ela é muito boa, caridosa, temos que vir para cá”, disse ela, no aguardo do filho.

Pouco depois das 9h, os devotos já começam a ir embora. Entra o pagodão, saem aqueles que chegaram cedo para saudar a rainha. Antes, no entanto, costumam observar rodas de capoieras e de samba que se organizam tanto na areia, quanto na orla.

Rodas de capoeira na orla do Rio Vermelho (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

A aposentada Valmira, por exemplo, já estava a ponto de ir embora. “Começamos a nos arrumar e vamos embora 11h. É entregar o balaio e ir embora”, explicou Crispina dos Santos, 78, de um terreiro de Umbanda. Na sua frente, um homem rodava ao redor de si próprio, incorporado por Obaluê. 

Dali para frente, costumam dizer os mais apegados às tradições, é mais muvuca que fé. Nesse momento, o mar já está cheio de vidros de alfazema, espelhos – cada vez menos comum, por questão ambientais –e flores, milhares delas. A rainha do mar pode descansar na certeza de que, no próximo ano, todos estarão de volta para presenteá-la. 

*A cobertura das Festas Populares do CORREIO tem patrocínio da Claro, Hapvida, Salvador Bahia Airports  e Sotero Ambiental além de apoio instituicional da Prefeitura de Salvador.

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