Caindo aos pedaços: Igreja do Carmo isola entrada após queda de reboco

bahia
28.01.2020, 06:30:00
Atualizado: 28.01.2020, 11:46:24
(Marina Silva/CORREIO)

Caindo aos pedaços: Igreja do Carmo isola entrada após queda de reboco

Tapumes foram instalados na frente da igreja que, no entanto, mantém todas as atividades

Em qualquer igreja, a entrada das noivas costuma ser pela porta principal. No casamento que ocorrerá no próximo sábado na Igreja Nossa Senhora do Carmo, no entanto, a mulher terá que entrar pelo acesso lateral devido aos tapumes metálicos que desde dezembro encobrem a fachada da construção do século XVI, ao lado do luxuoso Hotel Pestana, no Centro Histórico. Como a parte superior da igreja vem soltando pedaços, a estrutura foi instalada para evitar acidentes.

Aparentemente, parece só um desgaste simples na pintura, mas o frei Alonso Malaquias conta que trata-se de uma corrosão que vem provocando a queda de pequenos e grandes fragmentos de reboco. Segundo ele, da altura em que caem, pode até ser fatal. Então, por ordem do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a igreja instalou a estrutura para evitar o risco e passou a adotar o portão lateral como entrada.

Um funcionário do Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos (Cepaia/Uneb), que funciona em frente, testemunhou um pedaço caindo e conta que um mendigo quase foi atingido. “A gente fica com medo, claro, de começar a cair pedaços maiores”, disse.

Além dos pedaços soltando, a fachada também apresenta rachaduras nas pedras de arenito. Luana Basso, auxiliar num hostel,  classifica a situação como descaso. “Tem até vegetação crescendo em cima da igreja. Eu não temo nada pior, mas é lamentável que 90% do patrimônio de Salvador esteja assim”, diz.

Segundo o frei, o último reparo feito na igreja foi uma pintura, realizada em  2016,  pelo Ipac. “Ficou bonito para receber os turistas, mas agora tá desse jeito. Tem pouco tempo essa intervenção, mas não sei bem porque houve esse desgaste, não sei se foi pela qualidade do material usado ou se porque em cima sofre mais intempérie da chuva”, afirma.  

Fachada 
De acordo com o Iphan, a fachada da igreja é, de fato, a região mais exposta à ação de fatores como ventos, insolação e maresia. A orientação para tapar com tapumes foi dada em outubro passado, após vistoria do órgão. Para frei Alonso, os episódios recentes de chuva e sol agravaram o desprendimento de pedaços. Apesar da situação, a autarquia garante que o estado de conservação do monumento é regular e que este é um problema pontual.

Reconhecida como patrimônio material pelo Iphan em 1938, a última grande restauração da igreja foi em 1909. Segundo o Iphan, os gestores da igreja já protocolaram um pedido de intervenção para reparo, mas de acordo com o frei, o orçamento do projeto mais completo de reforma da fachada ficou em torno de R$ 280 mil.

No entanto, a igreja não tem esse recurso e ainda não sabe como captar. Além do mais, a concorrência religiosa na área é grande para angariar os fundos através dos fiéis. Como há muitas igrejas por ali para uma comunidade pequena, o custeio é difícil. Neste momento, segundo frei Alonso, a Igreja do Santo Antônio Além do Carmo, a apenas 850 metros, também está com uma campanha de arrecadação.

O arquiteto e urbanista Paulo Ormindo explica que a comunidade católica do Carmo era mais numerosa no passado, quando os imóveis eram ocupados por moradores, mas muitos deles viraram pousadas e comércios. Ormindo acredita que se não houver uma reparação imediata e os tapumes permanecerem isso pode desincentivar a visitação turística e também o próprio uso religioso.

Funcionário administrativo da igreja, Reinaldo Júnior Cerqueira explica que o conjunto arquitetônico é formado por duas igrejas, um antigo convento e também museu e sacristia, que estão fechados para visitação há 20 anos. Foi nesse conjunto que os holandeses assinaram o termo de rendição para sair do Brasil, em 1626. O local guarda mais de 2 mil obras de arte sacras, com destaque para o Cristo Atado à Coluna, esculpido em madeira e rubis pelo escravo Francisco das Chagas. “Não temos funcionários suficiente para manter tudo aberto. Só com energia a igreja gasta mais de R$ 3 mil mensalmente, além de pagamento de água e outros salários”, comenta. 

Circuitos religiosos começam a ganhar força em Salvador
Para o frei Alonso, o Centro Histórico de Salvador é digno de um roteiro turístico religioso. “É uma área muito extensa e com muita coisa boa”, defende ele, que sugere uma rota começando pelo Terreiro de Jesus, no Pelourinho, e indo até a Colina Sagrada, no Bonfim. Atualmente, a Prefeitura de Salvador está apostando no seu primeiro roteiro oficial, chamado de Caminho da Fé, que tem 1,1 Km e liga o Santuário de Santa Dulce, no Largo de Roma à Basílica do Bonfim, na Colina.

De acordo com o secretário de Cultura e Turismo da cidade, Cláudio Tinoco, a previsão é de que as obras desse circuito sejam entregues em março deste ano. Em construção desde o meio do ano passado, o caminho conta com macrodrenagem, alargamento de calçada, 14 totens com representação da Via Crucis e das histórias de Irmã Dulce e do Senhor do Bonfim. Além disso, o percurso conta com bancos que servirão como pontos de descanso.

O presidente do escritório Salvador Destination, Roberto Duran, diz que a capital baiana possui uma exuberância em turismo religioso, mas que ele não vinha sendo aproveitado. “Até porque só é considerado turismo religioso quando o visitante sai de sua casa com o objetivo específico de ver templos”, explica. Segundo ele, há cerca de cinco anos a prefeitura ouviu as sugestões do trade turístico, que rendeu na criação do Caminho da Fé.

“Quando propusemos foi na intenção de identificar um primeiro roteiro de turismo religioso já que o Senhor do Bonfim e Irmã Dulce têm a maior devoção entre os baianos. E a partir daí fazer com que as operadoras de turismo comecem a vender esse primeiro roteiro e isso está começando a acontecer, a venda de romarias”, comenta.

Segundo Duran, Salvador possui 372 igrejas católicas e mais de 3 mil templos de religiões de matriz africana, o que potencializa a consolidação de novas rotas com cunho sagrado. “O Centro Histórico é um exemplo porque tem 17 igrejas na mesma localidade. Inclusive, tem uma ideia agora de que todas toquem o sino na mesma hora para chamar atenção para a existência delas no mesmo local. Essa pequenas ações estão caminhando para formatar melhor esses roteiros”, explica.

Com essas iniciativas, Frei Alonso acredita que é possível aumentar a fé das pessoas e fazê-las conhecer figuras importantes da religião católica, como Santa Dulce, as quais considera “luzeiros da sociedade”. Para eles, os roteiros contribuem ainda para uma preservação mais sustentável do patrimônio. “Os fiéis verão que o local precisa de reformas e ajudarão”, espera ele


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