Incêndio no Flamengo: depois do fogo, a tortura

victor uchôa
23.02.2019, 05:00:00

Incêndio no Flamengo: depois do fogo, a tortura


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Primeiro o Flamengo botou seus garotos da divisão de base para dormir num espaço onde deveria haver um estacionamento, de acordo com projeto do próprio clube. O Centro de Treinamento “de primeiro mundo” sequer tinha habite-se, mas mesmo com dinheiro saltando dos cofres para fazer tudo da maneira correta, ninguém no clube ligou para isso. Até o dia que o tal alojamento pegou fogo.

Dez adolescentes perderam a vida quando estavam sob tutela do Flamengo. Ponto. A constatação é tão simples e crua quanto triste e trágica, mas o fato é este. A solidariedade imediata para com o clube é compreensível, mas virar a cara para a (ir)responsabilidade rubro-negra diante das mortes é compactuar com o cenário de “crimes sem dono” pintado todo dia nestas bandas.

“Eles estão brincando com a vida dos nossos filhos. É tortura o que o Flamengo está fazendo conosco. Viemos aqui como uns bobos”. Essas foram palavras ditas esta semana por Cristiano Esmério, pai do goleiro Christian Esmério.

As declarações se deram depois de uma reunião em que o Flamengo ofereceu às famílias das vítimas uma indenização cinco vezes menor do que aquela estipulada pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública. Observe que o cálculo não foi feito por quem perdeu seus garotos e sim pelos órgãos públicos, visando intermediar o acordo. Nada feito.

A atitude dos dirigentes flamenguistas? Ir embora no meio da reunião e deixar o caso ir parar na Justiça. Como sabemos todos, casos que vão parar na Justiça brasileira tendem a levar anos sem resolução. E, no meio do caminho, há sempre o risco de aparecer um magistrado desta ou daquela instância disposto a aliviar a barra de quem tem dinheiro (e poder) em troca de sabe-se lá quanto ou de qual inconfessável favor, coisa que acontece o tempo todo.

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, não se dignou nem mesmo a dar as caras na reunião em que o pretenso acordo virou fumaça. Antes, nos dias que sucederam a tragédia, limitou-se a dar explicações vazias e tentar tirar o corpo, alegando que sua gestão começou há pouco tempo.

Alguém precisa informá-lo que a instituição Flamengo era responsável pelos garotos. Se é ele quem responde atualmente pela instituição, que assuma o bônus e o ônus. Quer jogar a culpa em alguém? Faça depois, pelos caminhos corretos, não tentando se esquivar e, principalmente, desrespeitando famílias que enterraram seus filhos queimados.

Se vacilar, daqui a pouco Landim vai surgir dizendo que o Flamengo, por ter a maior torcida do Brasil e o cofre cheio de dinheiro, é uma “joia brasileira que não pode ser condenada”, que nem fez esses dias o presidente da Vale, Fabio Schvartsman – outro que tenta tirar o braço da seringa após sua empresa causar centenas de mortes e danos ambientais imensuráveis.

O roteiro é repetitivo: na hora de esfolar o outro, todo mundo sabe fazer um bonito discurso corporativo, com termos da moda como “parceria ganha-ganha”. Quando o alojamento pega fogo, a barragem rompe ou a arquibancada da Fonte Nova desaba, a culpa é sempre do acaso ou do outro – e os verdadeiros responsáveis flanam à vontade.

Neste momento, o tal “cheirinho” que se sente rondando o Flamengo é só um. O do descaso.

Victor Uchôa é jornalista e escreve aos sábados. 

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