Jô Soares foi vaidoso e genial na medida certa

entretenimento
06.08.2022, 06:00:00
Jô Soares em uma edição do Programa do Jô, que apresentou na Globo por 16 anos (Zé Paulo Cardeal/divulgação)

Jô Soares foi vaidoso e genial na medida certa

Versátil, além de humorista, ele foi escritor de sucesso, diretor e dramaturgo

As crianças não eram o público-alvo de Jô Soares. Mas alguns personagens que ele criou eram, sim, capazes de conquistar os pequenos espectadores. É o caso deste jornalista, que aos seis anos se divertia com o Jornal do Gordo, que Jô dividia com Paulo Silvino.

O quadro do programa Viva o Gordo tinha um toque de pastelão e por vezes lembrava os Trapalhões. Enquanto Silvino lia as notícias, Jô as traduzia através de uma mímica bem fajuta. Por exemplo, se a notícia falava em “brasileiros”, ele se transformava em palhaço, enquanto repetia a palavra aos berros e pausadamente, separando as sílabas: “bra-si-lei-ros!”.

Tinha ainda o Capitão Gay, pois nos anos 1980 era socialmente permitido ridicularizar homossexuais. E, para uma criança, um personagem afetado e espalhafatoso como aquele, com maquiagem igualmente exagerada, era muito engraçado. 

Lembro também de, aos sete ou oito anos, escutar um LP que meus pais tinham, que era a gravação de um show de humor de Jô. Na capa do disco, um aviso: “venda proibida para menores de 18 anos”. Aquilo, claro, era um convite para uma criança curiosa quebrar as regras e ouvir sorrateiramente.

Para atiçar ainda mais a curiosidade, o humorista aparecia na capa do álbum debruçado sobre um enorme bumbum desenhado. Era, claro, mais um motivo para ouvir escondido. E aí, vinha o momento mais esperado do show: Jô dividia a plateia em duas partes e dizia “Deste lado pra cá, vocês gritam ‘bun’ e a outra metade grita ‘da’, combinado?”.

E aí, vinha aquele grito, que, para uma criança, valia mais que qualquer piada ou um quadro inteiro dos Trapalhões: “Buuuuun-daaaa!”. Ouvia aquilo repetidamente, até acreditar que aquela palavra proibida -  quase pornográfica na época - estava mesmo sendo dita em alto e bom som.

Tal Show 
Mas tive também o privilégio de ver Jô iniciar sua carreira como entrevistador, ainda no Jô Soares Onze e Meia, no SBT, para onde ele foi em 1988. Há quem diga que ali ele era meio exibicionista ou que gostava de falar mais que os entrevistados. Sobre essas críticas, ele disse: “Então, eu era muito, muito exibido”, assumiu ao Fantástico, em 2012. “Sou muito vaidoso, nunca escondi isso. Qual é o artista que não é vaidoso? Todos. É uma profissão de vitrine de exibidos. Você nasce querendo seduzir o mundo.”

Às vezes ele excedia mesmo na vaidade e no exibicionismo. Mas, mesmo assim, era um prazer vê-lo desfilar sua impressionante cultura. Falava com incrível propriedade sobre os mais diversos assuntos, passando por cinema, música - especialmente o jazz -, política, línguas ou futebol.

Era um apaixonado torcedor do Fluminense e conhecia muito bem as histórias da Copa do Mundo. Em 1994, levou seu talk show para os Estados Unidos, onde o torneio foi realizado e o Brasil conquistou o tetra. Jô foi com toda a equipe pra lá.

O Jô Onze e Meia nasceu graças à insistência do humorista. Ele fez a proposta de um talk show para a Globo, de quem era contratado. Mas a emissora de Roberto Marinho não topava. Foi aí que, em 1987, começou o flerte com Silvio Santos, para ir pro SBT. Foi o colega Carlos Alberto de Nóbrega que sugeriu ao Patrão que contratasse Jô.

A princípio, Silvio não se interessava pelo programa de entrevista, mas só pelo humorístico. Mas o sonho do Gordo era mesmo dar uma virada na carreira e fazer um talk show - termo então desconhecido no Brasil - inspirado no The
Tonight Show Starring Johnny Carson, exibido nos EUA.

Em mais uma tentativa de convencer a Globo, Jô disse a Boni, o chefão da emissora na época:

“Ele [Johnny Carson] está no ar há mais de 30 anos na TV americana. Não é possível tantos americanos estarem errados por tantos anos”.

Mas Boni era irredutível e direto: “Não tem espaço na grade da Globo para este tipo de programa”, dizia, sem dar espaço para negociação.

Os bastidores desta história estão no excelente O Livro de Jô - Uma Biografia Desautorizada, lançada em dois volumes em 2017 e escrita em parceria pelo humorista com Matinas Suzuki Jr. O calhamaço, que totaliza mais de 700 páginas, é um deleite para quem se interessa pela história da comunicação e da arte brasileiras, afinal Jô passou por quase todos os veículos que imaginamos e também transitou com facilidade em siferentes expressões artísticas. Foi entrevistador, ator, escritor, dramaturgo, diretor, roteirista, pintor...

Vários Papeis
José Eugênio Soares nasceu no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1938. Era o único filho do empresário Orlando Heitor Soares e da dona de casa Mercedes Leal Soares. Passou a infância em colégio interno.

Como os pais gozavam de boa situação financeira, Jô teve o privilégio de, aos 12 anos, ir estudar na Suíça. Passou cinco anos lá, até que o pai passou por dificuldades econômicas e ele precisou voltar. Mas teve muito contato com a arte, especialmente o teatro. Por isso, ao retornar para o Rio, aproximou-se de artistas e logo já estava nos palcos.

“Eu pensei que ia seguir a carreira diplomática. Mas sempre ia ao teatro, sempre ia assistir a shows, ia para a coxia ver como era. E já inventava números de sátira do cinema americano”, lembrou.

Do teatro, foi para o cinema, onde esteve em musicais como Rei do Movimento (1954), De Pernas Pro Ar (1956) e Pé na Tábua” (1957). O primeiro destaque foi na chanchada O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga.

A estreia na TV aconteceu em 1958, no programa Noite de Gala, na TV Rio. Depois, passou a escrever também para a TV Continental. E, na Tupi, participou do Grande Teatro Tupi, onde contracenou com Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi e Sérgio Brito, entre outros. Em 1960, mudou-se do Rio para São Paulo e foi trabalhar na Record. Na época, era casado com a atriz Therezinha Millet Austregésilo (1934-2021), com quem teve seu único filho, Rafael, que era autista e morreu aos 50 anos.

A consagração na TV veio em A Família Trapo, que tinha Renata Fronzi e Ronald Golias. Jô inicialmente era o roteirista, com Carlos Alberto de Nóbrega. Depois, atuou como o mordomo Gordon. Em 1970, pouco antes de o Família Trapo chegar ao fim, Jô foi para a Globo, inaugurada cinco anos antes. Começou no humorístico Satiricom, programa de sátira à comunicação, no estilo do Casseta & Planeta.

Em 1977, foi para O Planeta dos Homens, onde era redator e ator. Escrevia com o Max Nunes e Haroldo Barbosa. Nunes se tornou parceiro inseparável e, com Jô, redigia textos para o programa de entrevistas que o humorista tinha na Globo. Em 1982, passou a estrelar o Viva o Gordo, onde criou e interpretou tipos inesquecíveis, como o Reizinho, o Capitão Gay e o Zé da Galera. “Os meus personagens são muito mais baseados no lado psicológico e no social do que na caricatura pura e simples. Nunca fiz um personagem necessariamente gordo. Eles são gordos porque eu sou gordo”. 

Em 1987, Jô assinou com o SBT, e em março de 1988 estreou o humorístico Veja o Gordo. Em agosto do mesmo ano, estreou aquele que era seu sonho, o Jô Soares Onze e Meia.

“Acho que descobri, também sem querer, a grande vocação da minha vida, a coisa que me dá mais prazer, mais alegria de fazer. Eu me sinto muito vivo ali”, disse.

As entrevistas, apesar de apresentadas bem tarde, fizeram muito sucesso. Tanto que o Veja o Gordo só ficou no ar até 1990, para Jô se dedicar apenas ao talk show. O programa seguiu até o ano 2000, quando a Globo decidiu contratar o humorista de novo, para apresentar o Programa do Jô, que seguia o mesmo formato da atração do SBT e foi exibida até 2016.

O humorista também teve uma bem-sucedida carreira como escritor. Sua estreia, com o romance Xangô de Baker Street (1995), inspirou um filme, adaptado para o cinema em 2001. As obras seguintes foram O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998), Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (2005) e As Esganadas (2011).

E no teatro, ealizou turnês com seus monólogos. Os mais conhecidos foram Ame um Gordo Antes que Acabe (1976), Viva o Gordo e Abaixo o Regime! (1978), Um Gordoidão no País da Inflação (1983), Um Gordo em Concerto (1994) e Na Mira do Gordo (2007).

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