Jorge Portugal, um "letrista de muito alto nível", como afirmou Caetano

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05.08.2020, 06:00:00
Jorge Portugal (Foto: Arisson Marinho/Arquivo Correio)

Jorge Portugal, um "letrista de muito alto nível", como afirmou Caetano

Ex-secretário compôs o clássico A Massa e diversas canções gravadas por Bethânia

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Para as gerações mais novas, o santo-amarense Jorge Portugal (1956-2020) tornou-se conhecido como professor de língua portuguesa. Os mais jovens também o reconhecem como apresentador do programa Aprovado!, que deu uma força a muita gente no vestibular. Há ainda os que se lembrarão dele como secretário estadual da cultura. Mas, para os baianos mais velhos e mais atentos, Portugal já era um velho conhecido desde 1980, quando seu parceiro Raimundo Sodré participou do Festival MPB Shell, da Rede Globo, cantando A Massa, parceria dos dois que acabou ficando em terceiro lugar e foi incluída no disco do festival.

Sodré e Portugal se conheceram em 1974, em Santo Amaro. Na mesma época, se aproximaram também de Roberto Mendes, outro importante parceiro do ex-secretário de cultura. “Todas as férias eu ia pra lá. Eu, Roberto Mendes e Jorge Portugal, a gente sempre se encontrava e fez um trabalho muito legal a partir de 1975. A Massa é fruto disso. É uma música bem de resistência, que escrevemos durante a Ditadura. Eu fui o porta-voz de várias letras que são atemporais”, lembra Sodré.

Ao CORREIO, o músico lembrou também como surgiu a composição: “Essa música pintou na minha vida com o refrão. Eu estava vendo um programa de televisão em 1976 e o pessoal já estava protestando. Eu eu falei pra minha namorada na época. Em 1977, eu estava cochilando em um pé de cajueiro e me veio o refrão com a melodia. Gravei em uma fita e levei pra ele. Quando foi de tarde, ele me deu a letra. A música me tirou da miséria e me jogou no mundo. A música A Massa atravessou fronteiras e ficou pra eternidade. Falou tudo o que a gente sente até hoje”, acredita.

De Santo Amaro para Salvador
O disco A Massa, que Sodré lançou em 1980, na carona do sucesso no Festival, trazia outras parcerias da dupla, como Menino Triste, Vá pra casa esse menino, viu? e Coió de Anália. Também nesse disco estavam Baião Pisado e Brasileira: Profissão Sonhar, ambas de Portugal, Sodré e Roberto Mendes.

Nos anos 1970, os três formaram o grupo Sangue e Raça, ainda em Santo Amaro. A partir de 1976, se apresentaram com frequência no Instituto Goethe, no Corredor da Vitória. Os que frequentaram aqueles shows tiveram o privilégio de ouvir A Massa alguns anos antes dela se tornar conhecida em todo o país.

“Portugal era muito ligado à palavra, por isso a poética do grupo era dele”, lembra Roberto Mendes, que considera Portugal seu maior amigo, além de ser um de seus parceiros mais fiéis na música. Mendes observa a facilidade com que o colega compunha: “Minha mulher dizia que ele não escrevia; ele psicografava, porque começava uma letra e ia até o fim direto, sem parar. Tenho certeza de que a palavra o adotou”. Juntos, compuseram canções como A Bela e o Mar e Vila do Adeus.

Em seu álbum mais recente, Na Base do Cabula, lançado no ano passado, Mendes realizou a última gravação de uma música da dupla: Baianos Luz, que havia sido composta na década de 1990. “Até que a vida nos separe/ Ou repare essa lembrança/ Outros passos de outra dança/ Vão continuar a festa” diz a letra de Portugal, em certo tom de despedida.

Bethânia
Uma das composições da dupla, Filosofia Pura, foi gravada por Maria Bethânia, que convidou Gal Costa para o registro no álbum Ciclo, de 1983. “Gravei a pedido de meu pai, santo-amarense orgulhoso de seus poetas e amigos. Meu amigo confiou à minha voz tantas palavras boas...”, disse a cantora à TV Bahia ontem.

Portugal é um dos compositores mais presentes na discografia de Bethânia, que gravou ainda outras canções dele, como A Beira e o Mar, Iluminada, Memórias do Mar e Fonte.

Jota Velloso, também músico e sobrinho de Bethânia, conviveu com Portugal em Santo Amaro e há cerca de 35 anos compôs, com ele, uma canção cujo nome não se lembra. “A canção falava de pessoas folclóricas de Santo Amaro, era uma música experimental. Me convidar para uma parceria foi um presente que ele me deu. Ele não precisava de ninguém para compor com ele”, observa Jota, cinco anos mais novo que Portugal.

Caetano Veloso também elogiou no Instagram o talento de Portugal: “Tornou-se tambe´m um letrista de muito alto ni´vel, principalmente em parcerias com Roberto Mendes. (...). Tenho orgulho dele. Estamos todos com saudade do seu papo e das suas ideias”. 

Lazzo é outro que se considera “agraciado” por ter recebido canções de Portugal. “A primeira letra que me deu foi Alegria da Cidade. Depois, veio Olhos de Xangô, que foi pra uma projeto em homenagem a Jorge Amado”, diz o cantor. No anos passado, gravou 14 de Maio, que trata da questão racial. A música está disponível no YouTube.

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