Loja na San Martin é arrombada seis vezes em quatro meses; comerciantes pedem socorro

salvador
18.05.2018, 02:00:00
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Loja na San Martin é arrombada seis vezes em quatro meses; comerciantes pedem socorro

Nas paredes, cartazes foram colados para avisar que arrombadores são vigiados

Fixado nas paredes, o recado dá a dimensão do problema: “Senhor arrombador cuidado... Estamos de olho em você! Você está sendo vigiado !!”. O texto está escrito em vários cartazes colocados na entrada de estabelecimentos comerciais na Avenida General San Martin – uma das mais movimentadas de Salvador.

Ninguém sabe dizer quem os colocou lá, mas todos têm certeza de que não foi à toa. “Não sei quem fez isso, mas aqui está demais. Os arrombamentos são constantes”, diz José Raimundo dos Santos Prisco, 48 anos, gerente da Boutique dos Pisos. A loja já foi invadida por ladrões quatro vezes só este ano.
 
Não há dados oficiais sobre os ataques, mas o Sindicato dos Lojistas do Comércio do Estado da Bahia (Sindilojas) disse que recebe uma ligação por semana de comerciantes relatando arrombamentos na San Martin. “Em média, são quatro ligações por mês, que dá uma por semana. A falta de segurança é em todo o momento, principalmente à noite, quando o patrimônio dos empresários fica mais vulnerável”, diz Paulo Motta, dirigente do Sindilojas.

Campeã de ataques
Com pouco mais de dois quilômetros de extensão, a San Martin é cercada por estabelecimentos comerciais – a maioria casas de material de construção. Os cartazes nas paredes foram fixados há cerca de dois meses.
 
Um deles está na entrada da Madeireira Curuzu, arrombada seis vezes este ano – a campeã, até agora. Só em abril, foram quatro ocorrências.

“Em uma delas, eles entraram pelo telhado. As outras, forçaram as portas. A gente já acostuma. Numa dessas vezes, deixamos só moedas e eles derrubaram tudo. Tivemos um prejuízo grande. Para que isso não se repita, a gente deixa uma ‘quantia do ladrão’. É um absurdo, mas infelizmente é assim”, disse a gerente da loja, sem se identificar.

“Acreditamos que eles são da área, por isso o medo”, justifica. Além dos arrombamentos, a loja já foi assaltada duas vezes – nos dois casos, houve reféns.

“Dois homens armados renderam os funcionários. Já na segunda vez, num espaço de cinco dias, os mesmos bandidos levaram  pânico não só aos funcionários, como também aos clientes. Todos foram trancafiados no banheiro”, lembra outro funcionário do lugar. 

Para entrar em alguns estabelecimentos, bandidos forçam laterais das portas
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Mais casos
O arrombamento mais recente aconteceu no último dia 12, na loja Mega Pisos. O bandido usou um maçarico para forçar e empurrar a porta. O alarme foi acionado, mas nem isso o intimidou.

As câmeras filmaram a ação e mostram que bastaram sete minutos para ser levado todo o dinheiro do caixa. “Não contente com o dinheiro do caixa, o infeliz revistou tudo até achar uma certa quantia que seria depositada, que estava enrolada num papel e dentro de um classificador”, conta Maria do Socorro Melo, responsável pelo setor financeiro da empresa.
 
No dia 2 deste mês, funcionários do açougue Carne & Cia levaram um susto. Quando chegaram para trabalhar, encontram a porta escancarada. “Mas não chegaram a levar nada porque o alarme disparou”, conta o açougueiro Magnoildo dos Santos Conceição, 42.

O dono da Farmácia do Trabalhador Popular, que fica em frente, não teve a mesma sorte. Quando o alarme do açougue soou, o ladrão foi para a farmácia, pois já sabia que lá não tinha. “Levaram todo o dinheiro que tinha no caixa”, afirma uma das atendentes. 

O Sindilojas avalia a situação da avenida. “O que acontece lá não é um problema isolado, acontece em outras localidades de Salvador. Mas lá se torna gritante pelo fluxo comercial. São muitas empresas no entorno, e grandes, onde a segurança se faz precária. Para se ter uma ideia, lojista nos liga pedindo providência, mas não temos como resolver. O que fazemos é orientá-los a registrar um boletim de ocorrência, comunicar a seguradora sobre danos nas instalações e roubo das mercadorias”, declara Paulo Motta, presidente do Sindilojas.

Legislação atrapalha
Em meio à papelada, pastas e caixas, o delegado Nilton Tormes recebeu a equipe do CORREIO na 4ª Delegacia (São Caetano). Apesar de estar em processo de mudança – ele deixa a unidade para assumir a 12ª Delegacia (Itapuã) –, ele falou sobre os cartazes e a situação dos arrombamentos na Avenida San Martin.

“Acredito que (a colocação de cartazes) tenha sido os próprios comerciantes para intimidar a bandidagem, visto que já orientamos várias vezes os empresários da importância do reforço da segurança, mas alguns preferem não arcar. É como aquelas pessoas que colocam o aviso ‘Cuidado com o cão’, mas às vezes não tem cachorro em casa”, afirma.

Para ele, os roubos  são trocados por droga. “É uma região cercada por localidades dominadas pelo tráfico de drogas, os bairros do Curuzu, Santa Mônica, São Caetano e Fazenda Grande do Retiro. Muito provavelmente, quem faz os arrombamentos é para trocar por droga. Eles levam uma televisão de R$ 900 pra vender na boca por R$ 100”, completa.

Cartazes foram espalhados ao longo da avendia, mas autoria ainda é um mistério
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

 
Ainda de acordo com o delegado, a explicação para que os bandidos retornem aos mesmos estabelecimentos está na legislação. “O arrombamento é um tipo de crime de furto e, como não compreende emprego de força, a Justiça agracia o criminoso com a liberdade nas audiências de custódia”, diz.

“E o problema não para por aí. Prendi um dia um desses arrombadores e ele disse que era a quarta vez que cometia o crime. Puxamos no portal da SSP (Secretaria da Segurança Pública), mas não encontramos nada sobre ele. Foi aí que descobrimos que ele não tinha identidade”, lembra. O preso simplesmente não “existia” formalmente.

Policiamento
Em nota, a Polícia Militar informou que a 37ª Companhia Independente (CIPM/Liberdade), responsável pelo policiamento no local, bem como a 9ª CIPM (Pirajá), “empregam em suas ações viaturas em rondas diuturnamente”.

“Através da ação de presença, as guarnições da 37ª CIPM são posicionadas de forma estratégica e atuam com o objetivo de realizar abordagens preventivas em locais predefinidos e/ou itinerantes com base na mancha criminal”, diz nota. Além disso, também há reforço no policiamento pelas guarnições da Companhia Independente de Policiamento Tático (CIPT)/Rondesp BTS e Operação Apolo.

Segurança privada
Cansados das ações dos bandidos, alguns comerciantes seguiram as orientações da Polícia Civil e reforçaram a segurança nos estabalecimentos. A loja de materiais de construção Irmãos Queirós foi uma dessas empresas a adotar mudanças.

“Achamos que somente as câmeras eram suficientes, mas as imagens provaram que não. Temos a filmagem de duas invasões e levaram pequenas quantias do caixa, pouco mais de R$ 300. Aqui, entra muita gente e em algum momento pode ser um ladrão fazendo um levantamento de informações da loja. Então, colocamos seguranças circulando na loja e, à noite, cães e um vigia fazem a segurança do local”, diz Luís Antônio Santana Santos, 60 anos, que trabalha no estabelecimento.

A Construpiso foi outra empresa localizada na avenida que investiu em segurança após sofrer um arrombamento. Há dois meses, bandidos levaram torneiras, R$ 200 do caixa e um monitor, após terem acesso ao local forçando uma das portas.

“Foram colocados alarmes e vigilantes fazendo rondas à noite”, relatou Júnior Soares, gerente de vendas.

Em nota, a Polícia Militar da Bahia falou da importância de prestar queixa nas delegacias a cada vez que uma situação parecida acontecer. “É importante salientar ainda que o cidadão deve registrar as ocorrências na delegacia, pois a PM trabalha a partir dos dados estatísticos de cada área. Além de ligar para o Disque Denúncia, 3235-0000, para informar dados sobre qualquer crime que aconteça nos bairros”, informa a corporação.

Loja onde José Raimundo trabalha foi arrombada quatro vezes esse ano
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Pontos de ônibus
Se o problema enfrentando pelos comerciantes é, principalmente, na madrugada, a falta de segurança não é tão diferente durante o dia. Desde quando o sol surge timidamente ou quando está ‘tinindo’, trabalhadores são assaltados no ponto de ônibus por motoqueiros ou até por bandidos parados nos próprios pontos de ônibus. Ficam ali, camuflados.
 
“Não tem três semanas que uma moça caminhavaa na avenida e foi surpreendida por dois homens numa moto. Ela segurava a bolsa firme, mas o carona puxou. A moto passou numa velocidade perto, que a reação dela foi segurar a bolsa na hora e a impressão que deu foi que ela teria perdido o braço diante da situação”, conta Ana Maria do Socorro, que trabalha em  uma padaria na região.

“Os bandidos fugiram com a bolsa e a moça ficou lá, caída no chão. Ela estava em estado de choque que não sabia dizer o nome, para onde estava indo ou o telefone de um parente”, lembra Ana Maria. 
 
Ela lembra ainda que, dias depois do ocorrido, ela estava em um ponto de ônibus quando percebeu que um senhor tirou o celular para falar com a filha que estava a caminho de casa.

“O ponto estava cheio e um rapaz bem arrumado, que estava lá primeiro do que eu, se aproximou do idoso e pôs a arma na cabeça dele e levou o celular. Fiquei horrorizada. Ninguém imaginava que ele poderia fazer aquilo. Para todo mundo, era mais um de nós que aguardava um ônibus”, finaliza.