Maioria das mulheres negras, solteiras e mães vive com menos de R$ 415 na Bahia

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14.11.2019, 05:30:00
Atualizado: 14.11.2019, 11:45:53
Edilza Santana Gomes, 35 anos, mãe de duas crianças e moradora do Aquidabã (Arisson Marinho/ CORREIO)

Maioria das mulheres negras, solteiras e mães vive com menos de R$ 415 na Bahia

Dados são do Estudo da Desigualdade por Cor e Raça, divulgados pelo IBGE

Mulher, mãe, solteira e negra. É esse o perfil do grupo mais vulnerável dentre os considerados pobres na Bahia: 75,1% das mulheres negras, sem cônjuge e com filhos menores de 14 anos  são consideradas pobres no estado, vivendo com menos de R$ 413 por mês. Em 2018, quase 8 em cada 10 habitantes do estado que viviam nesse tipo de arranjo familiar estavam abaixo da linha de pobreza, o que significava 682 mil pessoas nessa condição. 
 
O retrato dessa realidade está na história de Edilza Santana Gomes, 35 anos, mãe de duas crianças pequenas e moradora do Santo Antônio Além do Carmo. Nascida no Pelourinho, ela é a primeira filha de uma mãe também solteira. Aprendeu na rua como trançar cabelos e até hoje vive desse serviço e de outros bicos informais, como faxinas e venda de cerveja em festas.

“Hoje consigo deixar a minha filha de 3 anos na creche e o meu pequeno de 5 na escola. Não quero meus filhos na rua, como eu vivi. Pelo que eu já passei, não era nem para eu estar viva, sou guerreira”, conta ela, que é assistida pelo programa Corra Para o Abraço. Edilza começou a tocar percussão com 9 anos com as Kalundetes, atualmente, a Mulherada, onde é regente. É trançadeira e feminista da Rede de Feministas Antriproibicionistas (RENFA). 

Considerando o cenário geral no estado, o número de pessoas pobres também é maior entre aqueles que se declaram pretos e pardos do que entre os brancos. São 43,8% de pretos e pardos vivendo com uma renda ínfima, contra 38,6% de brancos na mesma situação. Todos os dados são do Estudo da Desigualdade por Cor e Raça, divulgado nessa quarta-feira (13) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 
As pessoas que se consideraram de cor preta e parda em 2018 eram 81,1% (cerca de 12 milhões), sendo que 22,9% eram pretos (3,4 milhões). Em Salvador, 82,8% da população se declaravam pretos ou pardos (2,4 milhões de pessoas), sendo 34,8% pretos (988 mil). Na capital, 15,2% dos brancos estavam abaixo da linha de pobreza em 2018, frente a 23,6% dos pretos ou pardos.

Desigualdade 
Quem estuda o assunto não vê os números com surpresa. Para os estudiosos, eles refletem uma realidade latente no país. “A pobreza no Brasil tem cor, e ela é negra. Estávamos vivendo uma crescente de enfrentamento à desigualdade e, de três anos para cá, demos uma guinada ao contrário”, avalia a socióloga Vilma Reis, também ativista do movimento negro. 
 
Para socióloga, um acesso limitado ao mercado de trabalho é um dos pontos que ainda impedem a Bahia enfrentar o cenário de desigualdade. “Tem que se criar mecanismos para enfrentar esse empobrecimento. O Brasil tem que romper com essa situação porque não é possível desenvolver deixando as mulheres negras para trás”, acredita ela. 
 
Vilma destaca ações que poderiam colaborar para a diminuição do abismo que deixa as mulheres negras tão vulneráveis. “Políticas públicas direcionadas precisam ser criadas, é preciso ter coragem para inverter a roda das prioridades e pensar políticas que vão desde creches em determinados bairros até garantir a entrada das pessoas no mercado de trabalho, tanto no público quanto no privado”, avalia.
 
Coordenadora nacional do Coletivo de Entidades Negras (CEN), a ativista Iraildes Andrade, faz um passeio pela história para explicar as raízes dos dados. “As mulheres negras chegaram nesse país na condição de escravizadas. Foram levando todos os séculos de escravidão negra nas costas”, observa. Segundo ela, mesmo após a promulgação da Lei Áurea, as mulheres negras voltaram para as casas dos seus senhores, trabalhando na informalidade nas casas de família, onde recebiam apenas comida.

“Até hoje, não tem oportunidade para elas. Esse mercado de trabalho as ignora, é excludente, racista, patriarcal. Diz-se que as mulheres não podem trabalhar porque menstruam, têm filhos, levam filhos pro médico, são elas que se ausentam do trabalho nesses casos. As empresas substituem a mão de obra feminina por masculina. Uma mãe solteira, preta e pobre é chefe de família e elas vivenciam essa exclusão”, critica Iraildes, que é pesquisadora em Estudos de Gênero pelo NEIM/Ufba.

Ela acrescenta ainda que, depois que têm filhos, as mulheres ainda enfrentam o dilema sobre onde e com quem deixá-los para poder trabalhar ou mesmo buscar emprego. As dificuldades que envolvem esse processo acabam por deixar a mulher negra fora do mercado de trabalho. “É alto o número de mulheres negras que estão na informalidade dos serviços, vendendo bala na praça. Essa mulher é dispensável para as empresas e, muitas vezes, não tem como se manter porque precisam tomar conta da casa e dos filhos”, complementa. 
 
Abandono 
O advogado e professor universitário Samuel Vida aponta outro ponto que também contribui para tornar as mães solteiras mais vulneráveis. “Esse dado sobre as mulheres negras não é uma novidade, ele se repete. Há uma série de fatores que incide em torno desse perfil majoritário da vulnerabilidade das pessoas negras. Há uma tradição patriarcal muito forte no Brasil, coincidente em todos os setores sociais da sociedade, que tem uma cultura machista que produz uma relação de baixa responsabilidade paterna, fazendo com que as mulheres tenham que assumir a gestão dos filhos e cuidados com os mesmos”, explica. 
 
Essa foi a realidade enfrentada pela técnica de enfermagem Mayara Paixão, 32 anos. Aos 23, ela engravidou do filho Miguel, que não foi assumido pelo pai. “Logo senti todo aquele peso de ser mãe solteira, de, 'poxa, o pai do meu filho não vai colar comigo' e eu tive que encarar essa realidade. Eu sou católica, era contra o aborto, eu tinha medo por ser um ser. Eu vi que teria responsabilidades e vieram ainda preconceito e pressão familiar”, conta ela. 
 

Técnica de enfermagem Mayara Paixão, 32 anos, é 'mãe em carreira solo' (Foto: Mauro Akinn Nassor/CORREIO) 

Para não se encaixar no grupo de mulheres mais vulneráveis, Mayara batalhou pela possibilidade de dar ao filho uma boa condição de vida. Por anos trabalhou em dois empregos para garantir a ele um crescimento saudável.

Nesse período, a criança cresceu ao lado de familiares da mãe, mas não teve qualquer apoio paterno.

“Meu filho me ensinou a ser forte, a não desistir, lutar pelos meus objetivos. Eu estudava e trabalhava. Meu filho foi rejeitado pelo pai, que não tenho notícias do paradeiro há quatro anos. Cheguei por um tempo a lutar pelo pagamento da pensão, mas ele não gostou, teve ameaças. Quando a gente vai em busca desse direito, tem que colocar endereço da pessoa e eu não sei onde ele anda. Então, não vou ficar atrás para no fim ele só mandar R$ 200”, conta ela sobre a experiência de ser ‘mãe em carreira solo’, como ela mesmo define. 

Hoje, nove anos depois, a possibilidade de abrir mão de um dos empregos para estar mais próxima do filho e a conquista recente da casa própria começam a mudar a realidade da técnica. “Eu tive que arregaçar as mangas e correr atrás, gritando por socorro para minha família, que me ajuda a tomar conta dele, minha mãe e minhas tias. Hoje, Miguel estuda num colégio militar e luta jiu-jítsu. Meu filho entende meus esforços e sabe que abri mão de muitas coisas para dar prioridade a ele", afirma Mayara, técnica do Hospital Geral Roberto Santos.

* Com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier


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