Mais fantasia que abadá: água viva, carro do ovo, Darth Vader, Piratas do Caribe...

carnaval
15.02.2018, 15:27:00
Atualizado: 15.02.2018, 16:01:47

Mais fantasia que abadá: água viva, carro do ovo, Darth Vader, Piratas do Caribe...

Pela primeira vez em décadas, camisas de blocos e camarotes não deram o tom na avenida

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Em vez de enigmas, o coelho e o chapeleiro de Alice no País das Maravilhas se beijam com gosto perto do “Beco da Off”. Enquanto isso, Bob Esponja absorve toda a cerveja que pode, He-Man entra desesperado em um banheiro químico e Batman é carregado pelos outros integrantes da Liga da Justiça.

“Batman deu PT, irmão! Eu avisei a ele. Tá pensando que cachaça é água?”, criticou o Homem de Ferro.

Tudo isso aconteceu sob olhares de milhares de diabinhos, anjinhos, gatinhas, coelhinhas e, claro, unicórnios. Muitos unicórnios. De vez em quando, no meio desse mundo de Nárnia, aparecia um grupo vestido de abadá. Sim, porque, pela primeira vez em décadas, o Carnaval de Salvador tem mais fantasias do que camisas de blocos e camarotes. “Tá lindo demais. Esse tem que ser o espírito do Carnaval”. 


Tinha água viva, carro do ovo, Darth Vader, Piratas do Caribe, gueixas e muito bombeiros. “As fantasias vieram para quebrar a padronização que era imposta pelos blocos”, analisa o estudante Bergue Seixas, 21 anos, vestido de Mario Bros junto com o amigo e também estudante Silas Lapa, 22 anos, o Luigi.

As plaquinhas também estão fazendo muito sucesso. “Me chama de cacto e me tira da seca”, escreveu a estudante Cássia Nascimento, 18 anos. “Tem sido um Carnaval muito lindo. A diversidade das fantasias tá incrível”, disse. 

Os motivos apontados para tanta criatividade são diversos. Desde a crise dos blocos e camarotes até a influência da Internet. “Tem muito a ver com a internet também. As pessoas começaram a postar coisas interessantes, fantasias mirabolantes e as plaquinhas. Aí todo mundo acompanhou essa onda, principalmente quem não tem dinheiro para bloco”, observou a advogada Ana Clara Silveira, 35 anos, que apostou em uma gueixa.  

Mesmo quem optou por fantasias clássicas se destacou. De diabinha e anjinha, as amigas Nathalia Michaela, de 20 anos, e Jéssica Magalhães, de 19, relataram sucesso absoluto. “O pessoal gosta bastante”, ri Nathalia. E olha que elas pensaram mil vezes antes de entrar na onda.

Mineira, Jéssica foi aconselhada pela amiga, baiana, a não se fantasiar. “Ela disse: ‘Nem invente isso porque aqui ninguém se fantasia’. Quando a gente viu aquele povo todo fantasiado no Furdunço fiquei louca. Agora é fantasia todo dia”, disse Jéssica.    

E quem disse que não tinha bloco? No sábado, mais de 50 Brancas de Neve desciam até o chão e mostravam a popa da bunda em frente ao Camarote da Caixa Econômica. Homens e mulheres juntos na mesma fantasia envoltos apenas em um elástico. Idealizador do “bloco”, Luciano Cleidisson, 31 anos, acha que a fantasia ajuda até a reduzir a violência. “Muita gente fantasiado. A galera percebeu que a fantasia é uma coisa mais lúdica e o pessoal deixa até de se envolver em brigas”.   

A galera que vestia abadá parecia meio deslocada na avenida. A cearense Nádia Michetti, 26 anos, até tentou estilizar a camisa lilás do bloco Eva, no sábado de Carnaval. Mas impossível chamar mais atenção que qualquer uma das inúmeras Carmens Mirandas. “Estou me sentindo fora da realidade. Achei que ia chegar aqui e encontrar um monte de gente com abadá e muitos blocos. Pelo visto me enganei”, disse ela, acompanhada dos amigos Douglas Leite, 25 anos, e Magnum Oliveira, 27. 

O jeito é cair na real e se render ao mundo da fantasia. “Amanhã a gente vem de unicórnio. Os três. Eu venho com uma sainha de tuli, o chifre e só duas estrelas tapando os peitos”, disse. “E a gente vem só com a sainha mesmo, com os peitos de fora”, avisaram logo Douglas e Magnum. “A gente também quer se destacar, né?”. 

A volta das fantasias até quebrou o “monopólio” de alguns blocos que sempre apostaram nas... fantasias. As milhares de Muquiranas que foram às ruas de Carmen Miranda, por exemplo, perceberam que não são os únicos a despertar a imaginação dos outros foliões. “Tem espaço para todo mundo, claro. As Muquiranas nunca vão perder o brilho, mas a concorrência aumentou”, disse o promotor de vendas Leandro Pereira, 33 anos, devidamente trajado. 

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