Majur: de catadora de recicláveis a estrela não binária da MPB

entretenimento
04.08.2020, 06:00:00
Majur durante live com Joca Guanaes, no Instagram do CORREIO (reprodução)

Majur: de catadora de recicláveis a estrela não binária da MPB

Cantora baiana participou da live do CORREIO e falou sobre carreira

Se você não assistiu à participação da cantora Majur ontem, na live do Instagram do CORREIO, fique sabendo que perdeu a chance de ouvir a próxima canção dela, Andarilho, em primeira mão. A música, que será lançada oficialmente nos próximos dias, foi uma surpresa até para Joca Guanaes, que apresenta o Segundou, live que toda segunda-feira recebe um convidado especial.

“Eu não sabia que ela ia antecipar para a gente. A live foi muito gostosa, ela se conectou de forma muito legal: Majur tem uma história sofrida, mas tem muito amor dentro dela”, comentou Joca. A entrevista  está no IGTV do CORREIO.

Joca lembrou da trajetória de Majur, desde quando ela morava no bairro do Uruguai, em Salvador, até atingir o status de estrela admirada por Caetano Veloso, Daniela Mercury e Emicida. Foi com a canção Náufrago, seu maior sucesso, que a artista  baiana conquistou a admiração de Caetano Veloso e de Paula Lavigne, esposa do músico e empresária de Majur. “Paula é extremamente correta, profissional e ama qualidade”, ressaltou Majur.

Infância
A cantora contou que o pai saiu de casa quando ela tinha dois anos de idade e a mãe estava grávida da segunda filha.

“Hoje, entendo o lugar da minha mãe, de ser mãe solo. Mas em todo esse processo ela teve foco e fé de que em algum momento ia nos proporcionar momentos melhores, de que poderíamos estudar. Mas quando meu pai saiu de casa, estávamos sem água, sem luz... Minha mãe é um exemplo, devo tudo a ela”.

Mas até chegar ao palco do Rock in Rio, onde cantou AmarElo com Emicida, Majur teve um longuíssimo percurso. “As pessoas acham que a gente aparece, ‘brota’ de repente...”, disse, com bom humor. E lembrou dos tempos em que, ainda criança, saía com a mãe e a irmã para catar material reciclável, nas festas da Ribeira. Num turno, ia à escola; no outro, estudava música na Orquestra Sinfônica da Juventude; à noite; trabalhava com a mãe. 

Majur, com Bethânia, Caetano e Teresa Cristina (reprodução)

Majur mandou um recado para os que, como ela, nasceram sem privilégios: “O governo diz para quem mora na favela: ‘é aqui que vocês têm que ficar, não saiam daqui’. Mas cada criança tem que sonhar e fazer esse sonho se tornar realidade, entender que não existe Papai Noel. Vocês precisam estudar e correr atrás de seus sonhos”. E ressaltou: “Não adianta só querer que a oportunidade chegue. Você tem que estar preparada para ela”.


Ela falou também sobre ser não binária:

“Desde os quatro anos de idade, me olhava no espelho e não conseguia me encaixar no binarismo de homem ou mulher”.

Tudo se tornou mais claro, contou, depois que leu um livro da filósofa americana Judith Butler, sobre questões relacionadas a gênero. Na faculdade de design - ela não concluiu - estou mais  o assunto e finalmente entendeu o não binarismo. “Descobri que as pessoas não são tão felizes porque elas não se olham no espelho como realmente são”.

Vítima de preconceito, especialmente por ser negra e não binária, Majur destacou a importância que o candomblé teve para ela: “Minha cabeça precisava estar bem. Fui evangélica, mas não me sentia tão completa. Mas no candomblé estudei mais sobre mim, sobre minha ancestralidade. Preciso botar os pés no chão, lembrar de onde vim, de quem são meus amigos... isso é importante pra gente manter nossa essência”.

E os deuses estiveram sempre ao lado dela: foi num 2 de Fevereiro, dia de Iemanjá, que a carreira de Majur deu um salto. Ela estava na festa da orixá no ano passado, na casa de Caetano Veloso, quando apareceram diversos convites para participar do Carnaval. Fechou sua participação nos trios de Daniela Mercury, Márcio Victor e no Expresso 2222. Do Carnaval, agora ela quer partir para o mundo e já planeja, depois da quarentena, uma carreira internacional.

Na live, Joca reforçou a importância da campanha #colecomasbaianasdeacarajé, lançada pelo CORREIO, e disse que vai doar R$ 500 para ajudar as baianas, que vêm passando por dificuldades na pandemia. As doações podem ser feitas na Caixa Econômica Federal; Operação 003; Ag 4802; Conta Corrente  000056-1; CNPJ: 02561067/ 0001-20. O titular é a ABAM - Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Beiju  e Similares.

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