Marcio Luis Ferreira Nascimento: Como uma Onda... Gravitacional

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04.04.2016, 11:39:00

Marcio Luis Ferreira Nascimento: Como uma Onda... Gravitacional

No dia posterior à quarta-feira de cinzas foi publicado na prestigiosa revista cientifica Physical Review Letters 116 um relato sobre a primeira detecção das ondas gravitacionais. Este esteve relacionado a uma perturbação no tecido do espaço-tempo devido à colisão e posterior fusão de dois buracos negros, e foi observada, analisada e estudada por mil e nove pesquisadores (incluindo sete do Brasil financiados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) que formaram um seleto time internacional, verdadeiramente multirracial e multicultural.

O evento cataclísmico ocorreu numa galáxia muito, muito distante – a mais de um bilhão e trezentos milhões de anos-luz, provavelmente na região entre as Constelações de Peixes e da Baleia, e comprovou mais uma predição da Teoria da Relatividade Geral estabelecida pelo físico alemão Albert Einstein (1879 - 1955) em célebre e centenário artigo (“Die Grundlage der allgemeinen Relativitätstheorie”, ou A Base da Teoria da Relatividade Geral, Annalen der Physik 354, 1916, págs. 769-822).

De fato, o evento ocorrido, de sigla GW150914, significando Gravitational Wave 2015-09-14, foi observado em 14 de setembro de 2015 às 6h:50min:45s de Brasília por dois detectores do Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser (sigla LIGO em inglês: “Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory”, www.ligo.org) nos Estados Unidos. Custou 1,1 bilhão de dólares, uma cifra que certamente deverá ser paga num futuro não tão longe pelas inovações e avanços tecnológicos resultantes deste incrível aparato. O mesmo consiste de potente laser cujo sinal viaja por 4 km e é refletido, retornando a um detector bastante sensível, perpendicular ao trajeto inicial. Em condições normais, tais sinais enviados e refletidos estão sempre perfeitamente alinhados, viajando em sentidos opostos – e o detector nada registra. No momento do impacto das ondas gravitacionais em nosso planeta, o sinal do laser se desalinhou quando comparado ao seu reflexo (denominado “padrão de interferência”). Pela teoria, as ondas gravitacionais criam perturbações no espaço-tempo, deformando assim objetos em seu caminho de propagação.

Tal evento durou apenas 0,2 segundos, mas foi suficiente para registrar a titânica e violenta fusão de dois buracos negros, com aproximadamente 36 e 29 massas solares, que resultou num buraco negro único de incríveis 62 vezes a massa do nosso sol, liberando praticamente 3 massas solares em pura energia, parte delas na forma de ondas gravitacionais, que se propagam à velocidade da luz. Ao serem detectadas pelo LIGO e convertidas em vibrações sonoras, estas ondas equivaleram ao pio de um passarinho. Os cientistas, poetas que são da natureza, comemoram no dia do anúncio imitando o sinal detectado (e convertido) nas redes sociais.

Buracos negros são entidades cósmicas devoradoras de planetas, estrelas e mesmo galáxias inteiras. É uma pena que tal espetacular descoberta não tenha causado impacto nas escolas e faculdades, nenhum frenesi carnavalesco, nem mesmo um pio... Talvez seja este mais um triste indício de como anda o ensino de ciências em nosso país.

Certamente, tal espetacular avanço, que também provou a existência de buracos negros no universo, marca o início de uma nova era em astronomia. Parafraseando os poetas Lulu Santos e Nelson Motta: “nada do que foi será / de novo do jeito que já foi um dia”... Deste modo, vivenciamos uma nova maneira de observar e entender o cosmos. E podemos concluir que os poetas realmente tinham razão: “a vida vem em ondas / como um mar”... de ondas gravitacionais!

 

Professor da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química e do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA