Marcio Luis Ferreira Nascimento: O que matemática e arte têm em comum?

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24.05.2017, 13:34:00
Atualizado: 24.05.2017, 14:13:32

Marcio Luis Ferreira Nascimento: O que matemática e arte têm em comum?


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É uma boa pergunta... Haveria algo comum entre matemática e arte? A resposta surpreendentemente é sim. Independentemente do tipo de arte, seja pintura, música, escultura, dança, teatro, filme ou poesia, a arte e a matemática utilizam-se da abstração, do uso da imaginação, bem como de objetos primordiais, seja a forma ou o som em contraposição ao número.

Ambas empregam termos comuns, como estética, organização, perfeição e rigor. Buscam a harmonia, o equilíbrio e a simplicidade. São consideradas linguagens. E podemos observar que anseiam pela busca de padrões – curiosamente, até mesmo uma ausência de padrões é celebrada.

Desde os tempos imemoriais, o homem primitivo manifestou sua curiosidade e criatividade através da arte, deslumbrando-se por ser a natureza constituída por padrões e formas geométricas. A evolução da pintura mostra uma clara conexão com o desenvolvimento das idéias matemáticas. Por exemplo, a noção de perspectiva na Idade Média contou com a colaboração de matemáticos italianos do porte de Piero della Francesca (1415-1492). Foi portanto possível compreender melhor como exprimir numa tela a ilusão da realidade, criando assim um novo mundo de acontecimentos ou idéias artísticas.

Mas porque seria necessário que os artistas estudassem perspectiva? Uma resposta envolve a educação e religião. É importante lembrar que na Idade Média pouquíssimas pessoas sabiam ler e escrever, tampouco realizar contas. O uso das imagens foi uma maneira bastante inteligente e eficiente que a Igreja encontrou para transmitir seus ensinamentos, ilustrando os grandes feitos dos profetas.

Abstrações em matemática são de fato muito celebradas. Podemos citar a origem do zero como uma das primeiras grandes descobertas matemáticas – no entanto, perdeu-se a procedência de seu descobridor(a), mas estima-se que ocorreu provavelmente na Índia por volta do século IX. Outro grande resultado, este mais antigo, é de conhecimento das crianças desde a mais tenra idade: o Teorema de Pitágoras de Samos (c. 571 - 495 a.C.), que consiste na primeira e mais relevante informação geométrica.

O curioso é que Pitágoras viveu por volta do século V antes de Cristo, mas existem registros anteriores ao seu próprio descobrimento, por volta de 3.800 anos atrás – conforme mostra o tablete em argila denominado YBC 7289, da Coleção Babilônica da Biblioteca de Yale, EUA (www.yale.edu/babylon). No entanto, é importante ressaltar que a compreensão deste particular resultado enquanto algo universal, conciso, verdadeiro e único somente foi concebido pelos pitagóricos. Mais recentemente, no renascimento, foi redescoberta a ‘divina proporção’ ou ‘razão áurea’, um número que representa as proporções das grandes obras de arte, seja a fachada do antigo templo grego do Partenon (dedicado à deusa Atena, construído na época de Pitágoras) ou na célebre pintura da Mona Lisa, do incrível Leonardo di ser Piero da Vinci (1452 - 1519).

Assim, em todo lugar é possível encontrar padrões matemáticos... Nos desenhos dos grandes pintores, nos rabiscos das crianças, nos bolos e quitutes da doceira, nas construções do pedreiro, no tricô e no crochê das nossas avós, nos versos poéticos, no gingado da dançarina, numa cena teatral, na música que nos emociona... bem como na incessante busca do cientista ao tentar compreender um problema – em tudo isto e em muito mais existe uma procura de padrões – e com estes, a matemática.

O célebre artista plástico brasileiro Wesley Duke Lee (1931 - 2010) disse certa feita num programa de televisão que tencionava apresentar ao mesmo tempo “Arte e Matemática” em idos de 2001 - Episódio 3: O Artista e o Matemático (Programa da TV Cultura / Fundação Padre Anchieta - Ministério da Educação & Cultura): “a matemática é um saber que apresenta um certo tipo de beleza. Uma beleza diferente por exemplo da beleza da música ou da pintura. Diferente, mas igualmente agradável. A beleza da matemática está na estética do raciocínio”.

Professor da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química e do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA

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