Marcio Luis Ferreira Nascimento: Timbales por Toda Cidade

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25.01.2017, 11:24:00
Atualizado: 25.01.2017, 11:26:11

Marcio Luis Ferreira Nascimento: Timbales por Toda Cidade

Desde criança fui fascinado por um momento incrível – a cantoria de uma particular e curiosíssima sinfonia de centenas, ou mesmo milhares de cigarras, sempre ao final da tarde de um glorioso verão, estando em casa ou ao sair da escola. Aprendi que tal som, agudo, consiste na verdade num chamado para o acasalamento. Cada espécie de cigarra tem seu som distinto, emitido apenas pelos machos, que visam atrair somente fêmeas de sua própria espécie, bem como para afastar inimigos naturais. Há registros fossilizados de cigarras de impressionantes 150 milhões de anos.

Algumas das maiores espécies, entre as quase 1.300 existentes – de tamanhos entre 15 e 65 mm de comprimento, emitem chamados que atingem surpreendentes 120 decibéis. Este som característico é produzido por pares de membranas situados na base do abdômen destes incríveis insetos, chamados timbales. A cigarra, portanto, canta ao contrair os músculos que acionam tais timbales, curvando o abdômen e produzindo um som estridente.

Timbal (ou ainda timbau) é também um instrumento originário da cidade de Salvador, similar ao atabaque, outro instrumento afro-brasileiro bastante utilizado em capoeira e maculelê, bem como em rituais de Candomblé, onde é considerado sagrado. Seu criador é o músico, compositor, produtor, artista plástico e percussionista brasileiro Antônio Carlos Santos de Freitas (n. 1962), mais conhecido como Carlinhos Brown, que também fundou o, para muitos, inigualável, grupo musical Timbalada em 1991.

Voltando às cigarras, as fêmeas põem ovos, que eclodem tempos depois, formando larvas ou ninfas, que em geral se escondem na terra. Muitas espécies têm períodos diferentes de amadurecimento, com ciclos vitais diversos. Existem espécies que levam apenas 1 ano esperando para amadurecerem; outras, dois; ou mesmo três anos. Há registros científicos de espécies que levam 13, e outras esperam por longos 17 anos para saírem da terra (Magicicada, nos Estados Unidos), se alimentando apenas de seivas e raízes. É um feito extraordinário em termos biológicos. Somente após este período elas passam por uma metamorfose e se acasalam, emitindo um som único.

Há outra coisa interessante com estes particulares longos anos de hibernação, 13 e 17 – é que ambos correspondem a números primos. Uma razão para isto acontecer está vinculada ao ciclo de vida de seus predadores (como a vespa). O grande cantor e compositor americano Robert Allen Zimmerman, Prêmio Nobel de Literatura 2016, mais conhecido como Bob Dylan, compôs a canção “Day of the Locusts” (“Dia das Cigarras”) ao ouvir o som sibilante destes insetos em torno de Princeton, quando visitava a cidade para receber um diploma universitário honorário. Em seu canto, as cigarras lembram muito o som de sirenes.

Algumas florestas no norte da América tem no máximo uma espécie de cigarra, e elas regulam seu ciclo de procriação com base em números primos, deparando assim apenas algumas vezes com predadores. De fato, um predador com um menor ciclo de vida, de pelo menos 2 anos, não pode conviver com as cigarras e caçá-las a qualquer momento. Tomando como exemplo cigarras que surgem apenas de 13 em 13 anos, e predadores que surgem a cada dois anos, levarão 26 para se encontrarem. Se houverem predadores que nascem a cada quatro anos, levarão 52 anos até encontrarem com estas cigarras. E cigarras com ciclo de vida de 17 anos levarão 51 anos para encontrar predadores com ciclo de vida de 3 em 3 anos. Enquanto predadores e presas não se encontrarem, a cacofonia de sons dos timbales continuará reinando com todo esplendor em toda cidade, numa enorme Timbalada!

Professor da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química e do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA