Marcio Luis Nascimento: Copa de 2014 - gol do Brasil, gol de Nicolelis

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12.06.2014, 07:24:00

Marcio Luis Nascimento: Copa de 2014 - gol do Brasil, gol de Nicolelis

Miguel Nicolelis não é jogador do Brasil, tampouco conhecido de boa parte da população, mas terá seu nome marcado na história durante a Copa do Mundo de 2014 por um feito que para muitos poderia ser considerado um verdadeiro milagre. Torcedor apaixonado pelas cores da Sociedade Esportiva Palmeiras, ele é o homem por trás do primeiro chute oficial do jogo Brasil x Croácia, realizado por alguém impossibilitado de fazê-lo: um paciente paraplégico – com o auxílio de um exoesqueleto – dará o pontapé inicial do Mundial em 12 de junho.

Se tudo der certo, a roupa robótica será vista por mais de 60 mil pessoas no estádio do Timão e por bilhões em todo o mundo, na televisão. Parece um sonho realizado. Com tantos livros e filmes à disposição, a ficção sugere que deve ser algo simples que alguém, impossibilitado de levantar e andar, chute uma bola. Para quem ainda não está acostumado com o termo, um exoesqueleto consiste numa veste robótica controlada por pensamentos. Na verdade, este acontecimento é fruto de uma ideia de praticamente uma vida, e tem um singelo nome: projeto Andar de Novo (Walk Again em inglês).

A ciência é feita de previsões, testes e exaustivas repetições. Está previsto há muitos meses que um (ou uma) jovem brasileiro(a) da Associação de Assistência à Criança Deficiente (www.AACD.org.br), entre 20 e 35 anos, com paralisia dos membros inferiores causada por lesão medular total deverá dar o chute inicial na bola Brazuca. Qualquer dúvida sobre esta ideia original, ela está escrita no delicioso livro do professor Nicolelis: Muito Além do Nosso Eu – A Nova Neurociência que Une Cérebro e Máquinas, e Como Ela Pode Mudar Nossas Vidas, editora Companhia das Letras, 2011.

A conquista completa um trabalho de cerca de 30 anos de pesquisas na área de neurociência e uma década e meia de pesquisa com interfaces cérebro-máquina (ICM), tecnologia que possibilita a troca de sinais entre o cérebro e um equipamento robótico, captando, decodificando e interpretando sinais da atividade elétrica dos neurônios responsáveis pelo controle motor e acionando o equipamento. Na prática, as ICMs transformam os pensamentos em comandos digitais que as máquinas podem entender. Chips minúsculos colocados no cérebro ou na medula do paciente vão captar os sinais gerados pelo cérebro e transformá-los em comandos como “levantar”, “mover o pé à frente” ou “chutar a bola” . Tudo isto no país do futebol!

Em ciência, os limites são sempre metas a serem atingidas, assim como o gol. O sonho de devolver a mobilidade a pessoas incapacitadas por lesões medulares está bastante próximo da realidade. De fato, as ICMs já foram testadas no tratamento de doenças como Parkinson, com resultados bastante promissores. O projeto Andar de Novo é um consórcio formado por mais de 150 cientistas, engenheiros, técnicos e pessoal de apoio de universidades e institutos de pesquisa distribuídos pelo mundo, coordenado pelo neurocientista brasileiro.

Aos mais céticos, os resultados dos testes efetuados até agora serão apresentados à comunidade científica por meio de publicação em revistas especializadas nos próximos meses. Certamente o primeiro chute na bola, na Arena Corinthians, mais conhecida como Itaquerão, tornará muito mais famoso um grande brasileiro, professor, pesquisador e sonhador. Parafraseando um célebre locutor esportivo, poderíamos dizer: “ É gol do Brasil, gol da ciência brasileira, gol de Nicolelis!”.

* Marcio Luis Nascimento  é Professor da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química e do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Ufba