Mariene de Castro: "Tem gente que não suporta ficar em casa. Eu amo"

flavia azevedo
15.01.2021, 06:00:00

Mariene de Castro: "Tem gente que não suporta ficar em casa. Eu amo"


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Mariene de Castro (Foto: Edson Machado)

O feminino que envolve Mariene vem de Oxum, das águas, das Nossas Senhoras, da intensa maternidade, da relação com a casa. Também do amor materializado nos três filhos homens (Bento, Pedro e João) e na caçula, Maria. “Amo ser esposa de Rafael”, ela diz, falando de um outro lugar desse estar no mundo que transborda em rezas e canções cheias de força ancestral. Quem viu o primeiro show do ano - no entardecer do dia 1º de janeiro - não esquece tão cedo. Quem não viu, saiba que tem outro, também online, no próximo dia 24. Informações (e outros bons astrais) no Insta @marienedecastro, um lugar pra se fortalecer nesse momento que pode ser melhor compreendido sob um olhar de mulher.

QUANTA - Quando você anunciou seu primeiro show de 2021, transmitido da sua casa, você falou muito de cuidado com a sua família, com seus músicos, com seu público. Que ficassem em casa, que você estava em casa, que seus parceiros trabalhavam de casa. Durante o show, o que sentimos foi uma força imensa vinda desse lugar. Simbolicamente, do que é feita a sua casa?

MARIENE - De amor. De amizade. De palavras sinceras. De verdades. De respeito. De coletividade. Aqui, todos nos ajudamos. Estamos atentos ao outro. Cuidamos um do outro. Nossa casa é o melhor lugar do mundo. Muitas vezes, antes disso tudo acontecer, a gente chamava as crianças pra passear e eles escolhiam ficar em casa. Você já viu isso? Porque é um lugar que a gente ama estar.

Q - Oxum e Nossa Senhora são forças que você evoca com frequência. Além do sentido sagrado que conhecemos, além do pedido de proteção, o que é viver nElas? O que elas nos ensinam?

M - Elas são Marias, energias femininas, posso dar também outros nomes: Yara, Jurema. Aprendemos nomes, mas eu sinto a energia. E água tem uma energia de nutrir, alimentar, gerar, acalmar, limpar. Eu sou devota desse elemento. Estão em minha personalidade, suas características. Elas em mim, elas sou eu. Isso fala de ser. Muita gente quer ser. Mas querer, não é ser. Não tem nada mais forte do que a natureza. E na vida, eu estou sempre sendo água. É assim. As coisas são. A gente queira ou não. Essas Marias são vivas em mim.

Q - Desde o começo da pandemia, parte do problema tem sido fazer com que as pessoas se recolham o máximo possível, se protejam e protejam os seus. Que respeitem e cuidem dos velhos. Que olhem para o outro com empatia. Às vezes, eu acho que, numa sociedade de estrutura matriarcal, isso seria resolvido de melhor forma. O que você acha?

M - Penso que sou do candomblé e meus mais velhos são sagrados. Meus ancestrais são sagrados. E isso com certeza mudaria a postura do mundo. Se na minha casa todos cuidamos um do outro, o mais velho é respeitado. Ao sair na rua, levamos nossa conduta, nosso sentimento. Numa aldeia indígena você vai ver o quanto isso acontece, pois eles são a consciência. Eles entendem a vida assim. O mundo ainda não entendeu a importância da mulher pra existência.

Q - Nos últimos tempos, temos sido obrigados a olhar para a morte de frente. Talvez não exista mais ninguém que não tenha perdido pelo menos algum conhecido, para esse vírus. Algumas pessoas endureceram, "se acostumaram", digamos. Outras, deprimem ou, pelo menos, entristecem de forma profunda. Como você lida com essa questão?

M - Me entristeço. A dor do mundo dói em mim. Não tem como ver o mundo sofrendo assim e não chorar todos os dias. A Terra tá falando, mas poucos escutam. Eu me recolhi desde o primeiro momento. Eu sei o valor do resguardo e trato isso de maneira sagrada. A vida está pedindo silêncio. Fiquem com os seus. Mas o povo não escuta. Ela fala "recolham-se", mas o povo não pára. Daí morre cada vez mais gente. É triste. Vejo um mundo de gente morrendo por ignorância, por não escutar com a alma. (...) É tempo de mudar o movimento. De transformação. Porque do jeito que estava não tinha mais como seguir. Ou a humanidade entende isso ou vacina alguma será capaz de conter o que está por vir. E repito. Sinto muito!

Q - Qual é a sua atuação, dentro desse processo?

M - O pouco que posso fazer é cantar da minha casa e pedir que as pessoas fiquem em casa. Mesmo sem o aparato técnico, sem “patrocínio”, equipe, músicos... eu vou continuar cantando. Pedindo aos céus ajuda. Aqui de casa, com meus filhos, meu marido e a natureza nos dando a oportunidade de aprender a cada dia. Estar vivo já é o grande milagre.

Q - Por oposição, tantas mortes também nos fazem olhar para a vida, rever, reposicionar. Quando isso tudo passar, a Mariene que vai sair de casa é igual a que se recolheu em março?

M - Olhe, Flavia, vou lhe dizer: somos na pandemia tudo que sempre fomos. Só que agora tem uma grande angular, uma lente de aumento e tudo fica mais nítido. Eu, de verdade, acho que mudança faz parte de uma busca. Todo mundo estava maldizendo 2020, mas o que vi na virada foi o caos de cada ser humano que trata esse momento do jeito que cada um é. E depois querem que o milagre aconteça, que a vacina salve. Não tem como se plantar manga e querer colher banana. Eu espero seguir viva! Sendo quem sou. Acolhendo, respeitando, sendo verdadeira, devota da natureza. Pra mim mudança leva tempo e requer coragem. Eu busco ser melhor a cada dia. Independente de pandemia. Mas veja: foi falar nessa flexibilização “insana” que já tava uma loucura as ruas, praias, bares, shoppings... um caos! Eu ficava sem acreditar. Você acha que esse tempo foi o suficiente pra que as pessoas ganhassem consciência do que estamos vivendo?

Q - Há pessoas assustadas, acuadas, cheias de medo. Outras, na mais absoluta negação do perigo, circulando como se não houvesse vírus. Entre um extremo e outro, qual é o lugar do seu medo e como lida com ele?

M - Eu fico em casa. Uso máscara quando preciso trazer alimento pra dentro de casa. Lavo as mãos. Fico em casa. Busco fazer minhas coisas de casa. (...)Eu não tenho medo de minha casa. Tem gente que não suporta ficar em casa. Eu amo. Tem gente que quer pagar pra ver. Prefere ir pra um hospital. Eu prefiro fazer de tudo pra ficar com saúde, com os meus. E fazer desse momento um lugar de paz, aproveitando cada dia. Vivendo no presente. Fazendo com que os dias deles sejam leves. Eu nunca fiz parte desse “mundo”. Sempre fui diferente. Então continuo sendo. Só que, agora, essa diferença só depõe a meu favor. Sempre fui ribeirinha, tabaroa, calada. Gosto do simples. Sempre gostei de sossego, de casa, de família. Nós gostamos e ficamos bem na nossa casa. Sobre o medo, eu sinto. Ele é necessário. Respeito o medo. Ele me faz estar em alerta. Mas ele não me paralisa. Sou água! Eu sigo.

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