Memórias de 1974: o Verão do desbunde em Salvador

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18.09.2021, 05:43:00
Atualizado: 18.09.2021, 11:15:23
Gal Costa e o estreante Marcelo Costa, do Rio de Janeiro (Evinha Freitas)

Memórias de 1974: o Verão do desbunde em Salvador

Os jovens descolados da época, frequentavam o Porto da Barra de dia, durante a noite os encontros eram culturais

A repercussão do último Baú: Porto da Barra paz e Amor” foi tamanha, que meu querido amigo jornalista e produtor Carlos Borges que mora há 30 anos nos Estados Unidos, me perguntou porque eu não fazia um Baú do Marrom sobre o Verão do Desbunde.  Ai eu questionei: Quando foi?  Ele respondeu: Em 1974. Eu dei uma gargalhada e falei: Borges nesse ano eu era um garoto que cursava o segundo grau e nem amava os Beatles nem Rolling Stones ainda. Estava chegando à adolescência. Mas fiquei interessado e pedi informações e fui pesquisar. Além de ouvir mais duas pessoas que viveram intensamente essa época: o produtor Roberto Santana e o cantor, compositor Marquinhos Queiroz.

Mas o que foi mesmo o Verão do Desbunde? Na verdade tudo começou com a Temporada de Verão organizada pelo saudoso Guilherme Araújo, então empresário de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa. Dois anos antes, Caetano e Gil haviam retornado do exilio londrino, os fãs doidos para vê-los novamente, numa cena efervescente na música brasileira. E de muitos shows em Salvador. Além dos baianos, teve Jorge Bem, Luiz Melodia, Jards Macalé e os estreantes Marcelo Costa, um menino do Rio e Fafá de Belém.

Cartaz dos shows da Temporada de Verão 1974 (Divulgação)

Então repórter da Tribuna em 74, aos 19 anos Borges se jogava em tudo. Segundo ele, reza a lenda que Guilherme Araújo estava meio numa situação complicada porque os álbuns anteriores de Caetano, Gal e Gil, não tinham obtidos aquelas vendas esperadas, e isso poderia resultar em pressões para que os próximos álbuns tivessem menos verba de produção. “Então, Guilherme teria sido autor da ideia de lançar três álbuns ao vivo gravados no Vila Velha. O resultado técnico teria sido muito aquém da expectativa. Para “salvar a pátria”, Guilherme costurou a ideia de ter os três artistas num só álbum.

Como quase tudo que era gravado ao vivo no Brasil, na época, a qualidade técnica não era das melhores, “mas aposto que muita gente adoraria (e compraria) se fossem lançados esses shows em álbuns individuais. Os masters devem estar lá na Universal. Tomara que um dia se interessem e lancem, especialmente porque já há tecnologia que pode dar um “tapinha” nos originais", comenta esperançoso, Borges atualmente morando em Fort Lauderdale na Flórida.   

Se a ideia foi de Guilherme Araújo, a execução coube a Roberto Santana um dos maiores produtores de discos do Brasil com um currículo que inclui trabalhos com grandes nomes da MPB. Apesar da importância desse ano, Roberto fez questão de acentuar que o que passou a ser chamada de Temporada de Verão vem de muitos anos antes.

Capa do disco gravado no Teatro Vila Velha (Divulgação)

Segundo ele, teve início no final da década de 50, por volta de 1958, só que não tinha o título de "Temporada de Verão". “Eu e o parceiro e saudoso amigo Mario Almeida, conhecido popularmente como Mario Tabaréu, demos início a esse movimento cultural/musical por volta de 1958/1959”. No inicio eles faziam apenas o Teatro Vila Velha até que em 1973 resolveram expandir para outros teatros como o Gamboa e o ICBA. E repetiram a dose em 1974. Em setembro e outubro já estava com toda a programação fechada. Por ter feito um contrato com o produtor italiano Franco Fontana para escrever e  dirigir um espetáculo para o inverno europeu (Itália, Suíça e França) Roberto teve que ficar ausente do verão baiano. Tudo ficou nas mãos do Mario.

Outro que viveu intensamente esse ano foi o cantor, compositor e jornalista Marco Antônio Queiroz, Marquinhos Queiroz para os amigos. No verão de 1974, ele era um estudante em férias que trabalhava na Bahiatursa  (revista Viver Bahia) em meio período e colunista semanal, escrevendo sobre música para A Tarde. Assim, as noites de janeiro e fevereiro começavam no Vila Velha quando seus amigos  Guilherme Araújo e Walter Lima permitiam o acesso pelos bastidores do Vila, onde ele assistia a todos os espetáculos da Temporada de Verão. Alguns deles, todos os dias. Sentado na plateia, no corredor ou na lateral do palco.


A iniciante Fafá de Belém (Acervo Pessoal de Fafá)

 

Foi toda essa atmosfera de paz, amor há 47 anos em plena ditadura militar quando toda uma geração estava se descobrindo e descobrindo os prazeres da vida com muita harmonia e diversão, que é lembrada nos depoimentos desses remanescentes do que ficou conhecido como o Verão do Desbunde:

Carlos Borges:

O verão foi dominado pelo deslumbre da Salvador “flower power” e da música de Caetano que marcou por muitos anos o Carnaval da Bahia: “Um Frevo Novo”, aquela que logo nos primeiros versos descreve que “A Praça Castro Alves é do Povo, como o céu é do avião”. Ali ficou sacralizada a República Democrática das Escadarias do Palácio dos Esportes. O primeiro espaço livre gay do Brasil. Ali, entre todo tipo de gente de todos os matizes que se possa imaginar, reinava a Barraca do Juvená era a referência. Isso sem falar que, durante todo o Verão, o nosso querido Porto da Barra era o point praieiro. Foi um tempo de turbilhão de gente bonita, “descolada” e disposta a amar e curtir sem medo de ser feliz. Momento único e inesquecível".

Marco Antonio Queiroz

“Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa superlotavam o teatro festa. Um desbunde.  E ainda havia os “novos” Macalé, Luiz Melodia e Jorge Mautner, que fizeram sessões da meia noite, igualmente concorridas. Para mim, era o mais próximo que Salvador chegou do frenesi de uma “swinging London”. Espírito roqueiro tropical e festivo. De tudo o que não me esqueço, o impacto de ver Mautner e suas vocalistas. Salve Lili! Mesmo com os espetáculos de meia-noite, ao sair do Vila a noite ainda era criança e pedia umas cervejas na festa de largo da vez. Com Waltinho, Piti, Cristina e Jorge Salomão, o papo ia até o dia amanhecer. Então, dormia um pouco, para bater o ponto do Porto ainda a tempo de ver Lete jogando frescobol. Que Temporada! Que Verão, Marrom!!”

Roberto Santana

No referido ano de 1974 estava confiante porque no cast  tínhamos  pessoas da maior importância para a música brasileira. Sérgio Ricardo um artista da maior importância para  a música e para o cinema. Irmão do fotógrafo preferido do Glauber Rocha - Dib Lufti. Autor de músicas importantes para o momento político que vivíamos em plena ditadura. O Quinteto Violado tocando e cantando o povo. Uma menina ainda no leite que carreguei desde Belém do Pará e que lhe dei como nome artístico Fafá de Belém. Para ela dediquei-me com afinco e sem pressa. Ensinei-lhe de um tudo. O mais importante, conhecer e valorizar a boa música feita no Brasil. Conheceu repertório rico. Dai partimos para fazer seu show de estreia no Teatro Casa Grande no Leblon, no Rio de Janeiro. Escrito por mim, dirigido pelo saudoso Fernando Peixoto e com cenário de Ricardo Rippi.

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