Memórias de um Porto da Barra paz e amor: 'nunca vi nem briga'

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11.09.2021, 05:49:00
Praia do Porto da Barra em 1982 (Arquivo do CORREIO)

Memórias de um Porto da Barra paz e amor: 'nunca vi nem briga'

Antigos frequentadores do Porto da Barra relembram com saudade dos tempos em que a famosa e desejada praia era palco de muitos encontros amorosos e afetivos, longe da violência que hoje impera

“Domingo no Porto da Barra Pesada
Ela sempre agrada ao gosto e ao olhar
Domingo no Porto da Barra Limpa
Todo mundo brinca entre ela e o mar

Domingo no Porto da Barra
Todo mundo agarra
Mas não pode amar”

Esse é um trecho de "Qual é, Baiana?" um antigo sucesso composto em 1977 por Caetano Veloso e Moacyr Albuquerque, também gravado por Gal Costa que retratava o que era frequentar a praia mais badalada e desejada dos baianos. Sempre foi assim. Em todos os verões desde os anos 1970 quando uma horda de artistas frequentava o local.

Como o próprio Caetano, Gilberto Gil, os Novos Baianos, passando por Angela Ro Ro, Marina Lima, Zizi Possi a atriz Regina Casé, Jussara Silveira, Charles Berro D´Água Mocó, Silvia Patricia, Petúnia Maciel, Dodoia, Tânia Soco Firme, Gal Karatê, Dedê Veloso, Sandra Gadelha. Enfim, uma fauna alegre e colorida que circulava na maior tranquilidade esse pedaço de praia em plena Baia de Todos os Santos. O Porto foi palco de grandes encontros onde todas as tribos se misturavam para curtir o por do sol ou fumar seu baseado (os que gostavam) ou tomar sua cervejinha gelada.

Pois esse lugar bucólico de repente virou manchete nos últimos dias pela série de crimes, assaltos e barbaridades como foi bem relatado na matéria assinada pelo repórter Gil Santos no CORREIO. Nunca se tinha visto tanta coisa horrível. Desde Tocarem fogo num casal de morador de rua que dormia ali perto da balaustrada; até brigas de gangs de traficantes. Tiros disparados a ermo e um corpo estendido na areia.

Caetano Veloso e Regina Casé curtindo o Porto nos anos 1980 (Foto: Acervo Pessoal de Edmundo Amorim)

E para agravar o triste cenário, a pandemia causada pela Covid -19 mostrou ao Brasil cenas inusitadas: para evitar aglomeração a praia fica fechada no fim de semana e quando liberada teve até fila. Isso mesmo. Controle na entrada para não deixar fazer aquele formigueiro humano. Tanta notícia ruim bateu fundo em antigos frequentadores que presenciaram muitas histórias no Porto. Por isso o Baú do Marrom foi ouvir quatro personagens que eram figurinhas carimbadas (tinha centenas) no espaço:

A jornalista, e diretora Leticia Muhana (ex- TV Globo, Globonews, GNT, Viva); que vive no Rio de Janeiro mas tem casa em Salvador e ganhou o titulo de cidadã soteropolitana. Ela nasceu no Rio.

A produtora e também Jornalista Bebete Martins que morava no Porto (sua família continua no mesmo endereço). Ela vive há mais de 20 anos no Michigan, nos EUA.

A fotógrafa carioca Evinha Freire que veio morar e continua em Salvador e registrou muitos momentos no local.

E o produtor e escritor Sergio Siqueira, também frequentador da aldeia hippie de Arembepe, hoje morando na Chapada Diamantina. Cada um relatou o que viu e viveu. Confira abaixo.


Leticia Muhana:

A jornalista Letícia Muhana "brocava" no frescobol (Foto: Acervo Pessoal de Evinha Freitas)

‘Dói no coração ler tanta notícia ruim de um lugar que sempre se fez tão gentil. Essas notícias não cabem no Porto. Pelo menos pra mim, que vivi muitos amores, sensações e aplausos ao Por do sol naquela imensa e histórica baía.  Ali, vi Janis Joplin de pertinho entre muitas garrafas de Brahma; ali vi e convivi com os Dzi Croquetes e Caetano.  Ali ganhei partidas memoráveis,  com a a minha raquete de frescobol de rapazes fortões que se diziam os Reis das raquetes.  Ali tive paz e amor. Muito amor. O Porto é sinônimo de aglomeração do bem; de beleza, de alegria. E sempre ter a vocação de expulsar o veneno, a maldade e o desalento. Torço e tenho fé nisso”.

Bebete Martins:

Bebete Martins, atualmente morando em Michigan nos EUA não saia do Porto (Foto: Acervo Pessoal de Bebete Martins)

“O desenho do Porto da Barra para mim é como um abraço. E eu retribuo o abraço. Tive muita sorte de conviver nos anos 70 e 80 com gente muito interessante e fazer amizades de verdade. Lembro dos vendedores, pescadores, e dos intelectuais e artistas da cena cultural mais interessante que conheci no Brasil. Era tudo alegre e leve na praia, muitas gargalhadas, amizades, namoros (alguns impublicáveis rsrsrsrs), mergulhos e o quentinho do sol.  E eu jogando frescobol da hora que chegava até o por do sol”.


Evinha Freitas:

“O Porto era um setor do Paraíso. As pessoas se encontravam e cada grupo, tinha seu pequeno espaço definido. Não era época das cadeiras e quase não se usava guarda sol. Ate as kangas, estiradas na areia, eram território compartilhado. Havia, até, o tamanho king size. Eram de Bali. Os comerciantes passavam com diversas opções e a baiana ficava lá em cima. Cerveja geladinha de garrafa. Cada qual tinha o seu horário de chegada. Os que trabalhavam, marcavam ponto, no intervalo do almoço. Ja para a saida, o horário era comum a todos: o final da tarde. Ali eram definidos os rumos da noite: para onde, que horas, etc. Nunca presenciei uma briga sequer”.


Sérgio Siqueira:

“O Porto da Barra era nossa casa, ponto de encontro de todos, aonde se ouvia as resenhas e sabia de tudo que ia acontecer. Era mágico, como disse a fotógrafa Evinha , o Porto era o start, tudo começava ali”.

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