Militantes do "vaitê Carnaval" seguem prometendo o impossível

flavia azevedo
27.11.2021, 11:00:00

Militantes do "vaitê Carnaval" seguem prometendo o impossível

Acreditar na "responsabilidade" prometida equivale e concordar que seu transplante de rim seja feito por um engenheiro

Era manifestação, o negócio de domingo passado na Barra. Com "trio", batucada e "baianas" (há rumores de que contratadas, porém não posso provar) e bandeira dizendo de "carnaval responsável". Animado não estava e dava pra ver o conceito "responsabilidade" sendo descaradamente contradito na ausência de máscaras no próprio povo da manifestação. "Na prática a teoria é outra", apenas um dos muitos erros dos envolvidos.

Como é essa tal "responsabilidade"? Ainda não vi resposta então pergunto, outra vez, com a autoridade de quem já produziu e trabalhou em assessorias de Carnaval na Bahia e no Rio. De quem circula, na qualidade de foliã, entre Bahia, Rio e Pernambuco há décadas. Não tenho lugar de fala não. Tenho lugares de falas. Ruas, camarotes, blocos, trios, Sapucaí, clubes, ensaios, Marco Zero, Olinda, bloquinhos cariocas, quadra de escola de samba. Dos três maiores, não existe um lugar de onde eu não tenha visto Carnaval, a trabalho ou lazer. De modo que muita gente que estava na tal manifestação não tinha nem nascido quando eu já era parte do povo proprietário da Praça Castro Alves em festa.

A multidão - primeira e única rainha de todos os carnavais - é um organismo vivo formado por milhões de indivíduos. A cola, o amálgama é feito de suor e saliva. O papo é sobre a saúde desse organismo. Apesar das abordagens menores sobre o tema "vaitê ou não vaitê Carnaval", o ponto da discussão é esse. Se você é da área "VIP" (a mais cafona das siglas) e não entende por que falar da multidão já que seu Carnaval é "exclusivo", saiba que essa festa não é feita só com três ou quatro amigos paulistas. É preciso que um bicho enorme ocupe as ruas para que seu camarote climatizado - ou o canto de qualquer "estrela do axé" - faça sentido. Então, a palavra "responsabilidade", nesse caso, não tem a ver com controle nas portas de espaços privados, mas com saúde coletiva.

Que tipo de gente compõe a multidão carnavalesca? Todos os tipos. Então, em relação à pandemia, sequer adianta condicionar a autorização do Carnaval ao aumento do índice de vacinação na cidade da Bahia. Não somos uma ilha ou um clubinho. Dos tantos ensinamentos que essa festa traz, estamos experimentando, na prática, o mais valioso - também o mais belo - deles. Naqueles seis (sete, oito...) dias, nos misturamos com o planeta. Pro bem e pro mal, você sabe disso. Apesar das bolhas de madeirite e concreto, apesar das cordas, Sussuarana, Castelo Branco, Corredor da Vitória, Pituba, Rio, São Paulo, Irlanda e talvez até Marte se encontram com frágeis fronteiras. Não há "responsabilidade" sanitária possível. Não há como controlar esse fluxo. Todos concordam se forem honestos.

Manifestantes sem máscara prometiam carnaval responsável

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

(Sabe aquele papo, lá do início da pandemia, de que só sairemos disso juntos? "Juntos" é o planeta todinho. Aos poucos, todo mundo vai conseguindo entender.)

"La garantia soy yo", parecem dizer os empresários do entretenimento, numa postura que demonstra, no mínimo, ignorância da mais profunda sobre a festa que dizem saber fazer. É isso ou galhofa com a inteligência alheia. Não existem recursos intelectuais no setor para que garantam segurança. Não há mínimo conhecimento da matéria. Acreditar na "responsabilidade" prometida equivale e concordar que seu transplante de rim seja feito por um engenheiro, por exemplo, basta que ele garanta ser "responsável". Percebe que não faz sentido?

Na falta de argumentos, ameaças e ataques de pelanca. Não adianta gritar que "vaitê Carnaval de qualquer jeito" nos bairros. Grandes coisas. Isso não é Carnaval e nunca deixou de acontecer, em todos os momentos da pandemia. Os "Covid Fest" foram responsáveis, inclusive, por muitos dos momentos difíceis que vivemos, mas agora a conversa é mais séria ainda. Papo agora é se dá pra juntar o paredão de Itaparica com a suruba de Noronha, encontro de trios com o desfile das campeãs. O ponto é decidir se dá pra apertar o botão que mobiliza boa parte do país num ir e vir frenético, quando a gente sequer dá conta de evitar um surto de covid no Hospital Roberto Santos. Também quando Portugal, o país mais vacinado da Europa (são 85% com imunização completa), retoma medidas restritivas por causa do aumento vertiginoso de casos de covid-19.

(Fora o "eta zorra" da semana: a variante Nu ou Ômicron...)

É claro, que, evidentemente, em qualquer contexto pandêmico, esquemas para "quem importa" poderão ser relativamente seguros. Assim, a "proteção biológica" surge no horizonte como mais um possível "valor agregado", mais um instrumento de exclusão. Pra muita gente, não faria diferença a taxa de contaminação nem lotação de UTIS do SUS, assim como não faz diferença alguma a violência que rola ao redor de alguns trios. Tanto faz, já que multidão é só pra olhar de longe. Carnaval blindado que chama.

Uma vez, fui num camarote que ficava na Sapucaí e só recebia quem viesse nas vans particulares, direto do Jockey Club que era o ponto de encontro. Imagino que, hoje, além do rega bofe de primeira pra um monte de famosos, a produção pode oferecer controle de comprovantes de vacinação e testes rápidos, né não? As pessoas (maioria branca, digo logo) ficam só proibidas de circular na multidão. De dentro da bolha, observam a rua através da parede de vidro, seguras num lugar desinfetado além de perfumado e climatizado. Com DJ, claro. Seria tipo um safári no qual os animais selvagens são microscópicos. Você topa? Muita gente não vê problema algum.

("Só pega covid quem vai tá na rua", já devem estar vendendo essa ideia aí.)

Flora já disse que não tem Expresso 2222, mesmo que liberem a festa. Achei lúcido e exemplar. Militantes do "vaitê Carnaval" seguem prometendo o impossível. Fazem muito barulho enquanto o que importa passa ao lado. Prioridade é curar a multidão, parar a pandemia. Aí, depois, (e talvez você não esteja preparado/a para essa conversa) teremos que pensar se Carnaval (esse enorme de incontáveis conexões) ainda será factível. Aos que estrebucham sem entender que vivemos o portal de um novo tempo, meus pêsames. Mas Darwin explica.

*Flavia Azevedo é colunista do CORREIO e mãe de Leo

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